O Pequeno Malauí

No coração quente da África!

  
  
Chegamos no Malaui

Esse é o slogan do Malaui, pequeno país localizado no centro-sul da África e que possui quase um quinto de seu território ocupado pelo lago de mesmo nome. O Lago Malaui ou Nyassa, como foi primeiramente chamado pelos colonizadores ingleses, é o terceiro maior lago africano, possuindo mais de 500km de comprimento, cerca de 80km de largura e profundidade máxima de 700m. Em torno de 500 espécies de peixe habitam o lago, das quais mais de 350 são endêmicas (existem somente aqui) e suas águas são excelentes para atividades aquáticas como vela, caiaque, mergulho e snorkel. Anualmente, no Lago Malaui, acontece a maior maratona de vela em lagos, onde catamarans velejam pelos 500km de sua extensão.

Quase tudo no Malaui depende deste lago

Suas praias de areia branca com águas mornas e cristalinas são perfeitas para relaxar e é difícil de resistir a tentação de passar alguns dias em alguma delas, ou até semanas, como foi o nosso caso. A imensidão do lago é tamanha que dificilmente consegue-se ver as montanhas da Tanzânia e Moçambique na outra margem, parecendo ser um mar, porém um "mar" de água doce!! Geralmente suas águas são calmas como numa piscina, mas o tempo pode mudar e ondas de mais de 5 metros são comuns de se formarem.

Que a verdade seja dita: Malaui = tranquilidade!!!

Entramos no país pela remota região norte e fizemos nossa primeira parada na praia de Chitimba. Seu Mdokera nos recebeu calorosamente em seu camping a beira do lago, fazendo jus a fama de um povo muito amigável que os malauianos têm mundo afora. Paramos em baixo de uma árvore e de lá não nos movemos durante 3 dias, os quais passamos naquela vidinha que todo mundo pediu a Deus: "sombra e água fresca", além de comendo a deliciosa comida local feita pela Senhora Mdokera (nsima, espécie de uma polenta feita de milho que geralmente é acompanhada por molho, vegetais, carne ou peixe). De lá, pudemos assistir ao vivo e a cores a vida local em torno do lago: os homens saindo ou vindo da pescar em seus barcos manualmente entalhados em trocos de árvore; durante a tarde, as mulheres lavando roupa, louça e a si mesmas; e as crianças fazendo a festa na água.

A caminho de Livingstonia

Geralmente, quando vamos fotografar os locais, assim que nos vêm com a nossa enorme máquina fotográfica e com nossa cara de estrangeiros, mudam de comportamento e muitas vezes vêm cobrar pela foto. Mas ali, quando o Seu Mdokera nos dava um descanso de suas histórias papudas, podíamos fotografar escondidos em nosso próprio carro, o que acontecia lá fora, a vida como ela é!

Mais querendo ficar do que partir, pegamos nosso rumo sentido ao sul, mas só porque sabíamos que teríamos outras oportunidades de curtir o maravilhoso Lago Malaui. Subimos quase 1.000m por uma estradinha estreita até a cidade colonial de Livingstonia, fundada em 1894 por missionários da Igreja Escocesa. Primeiramente o grupo de missionários estabeleceu-se a beira do lago, mas tendo enfrentado grandes problemas por causa da malária, subiram as montanhas para longe dos mosquitos e ali tiveram sucesso.

Famosa casa de pedra de Livingstonia

E novamente na estrada, pra frente de Livingstonia, um marco importantíssimo em nossa expedição: Completamos os 100.000km de estrada. Queríamos muito ter tirado uma foto do odômetro do carro naquele momento exato, mas quando vimos, já era tarde... haviam-se passado uns 40km.

Vale ressaltar que nesta quilometragem não estão inclusos os trajetos percorridos em ônibus, trem, a pé, avião ou navio. Quase 100% do trajeto, fomos conduzidos por nosso guerreiro Lobo da Estrada, o qual vem comportando-se muito bem e não demonstrando nenhuma canseira. VALEU LOBO!!!!!!!

Praia Kande

Seguindo viagem, passamos por Mzuzu, Baía de Nkhata e foi na praia Kande que achamos mais um pedacinho do paraíso a beira do lago. O camping que ficamos, com um ar mais ocidental do que local, não nos encantou muito e pensamos em passar apenas uma noite por ali, mas quando vimos a praia... foram mais 5 dias de vida boa, hehe. Por muita coincidência, reencontramos nosso amigo Ryan, aquele motoqueiro que resgatamos lá no Cape York (vejam Diário de Bordo nº18) – Austrália, há quase um ano atrás. Sabíamos que ele estava viajando pela África, mas jamais saberíamos que iríamos encontrá-lo em uma praia no Malaui. Então, para completar o quadro geral, nesses 5 dias de vida boa, fizemos churrasco de porco e tomamos muita kuche-kuche, cerveja nacional, em companhia do Ryan e seus amigos sul-africanos.

Nsima e kuche-kuche, comida e cerveja nacional

Com nossa segunda bateria do carro zerada, pois aqui no Malaui estamos mais parados do que rodando, tivemos que pisar no acelerador e rodar alguns quilômetros até a capital Lilongwe. Nessa cidade pacata, ficamos mais felizes do que nunca quando fomos na Embaixada de Moçambique fazer nosso visto e pudemos falar algumas palavrinhas em português. Visto emitido e não deu outra, voltamos para as redondezas do lago, agora na Baía de Senga. Nossas experiências por lá foram culinárias: lambuzando os dedos com as saborosas mangas e experimentando um peixinho do Lago Malaui. Hum, tava bão dimais!!!

Rio Shire, maior e principal rio do pais

Foi deixando a Baía de Senga, quando paramos nas lojinhas de artesanato na beira da estrada, que descobrimos que somos homens de negócios... Os locais topam qualquer coisa para vender seus produtos, até mesmo escambo. Nossas coisas inúteis, que só servem para tomar espaço em nossos quatro metros quadrados, estão rendendo belos souvenirs do Malaui.

O desespero dos vendedores de souvenirs não é pra menos, pois de acordo com o relatório de 2005 do FMI, o Malaui é o país mais pobre do mundo, com uma renda per capita de apenas 600 dólares anuais. 80% da população vive miseravelmente, os seus terrenos não são explorados devidamente, o Lago Malaui sofre da pesca excessiva, as crianças não freqüentam a escola visto que não têm meios para tal e começam a trabalhar desde muito cedo.Tanto a taxa de natalidade como a de mortalidade são muito elevadas e as principais causas de morte são a AIDS e a fome.

Parque Nacional Liwonde

O combustível não é nada barato e ficamos ainda mais abismados quando vamos ao mercado e vemos os altos preços de comida. Quem compra isso??? Lendo uma reportagem em uma revista local, entendemos um pouco do que esta acontecendo na África ou talvez no mundo todo. Países produtores e exportadores de grãos, a exemplo dos Estados Unidos, principalmente devido a crise e aumento do preço do petróleo, estão deixando de plantar comida para plantar cana-de-açúcar (etanol) e palmeiras (óleo) para a produção de combustível. Com menos comida no mercado, o preço só tende a aumentar, aumentar e aumentar e os países africanos, os quais necessitam importar grande parte de sua comida, sofrem as conseqüências.

Um dos mirantes do Plato de Zomba

Voltando ao lago... Cape Maclear foi o vilarejo onde nos despedimos deste paraíso que é o lago Malaui, dando os últimos mergulhos neste marzão de água doce para então seguirmos nosso rumo, agora em busca de animais selvagens no Parque Nacional Liwonde. O parque situa-se as margens do rio Shire, maior e principal rio do Malaui, e possui uma paisagem linda que estende-se deste uma vegetação verde as margens do rio até uma floresta seca ao leste. Passamos quase 12 horas em companhia dos poucos animais que ainda restam no país. Vimos hipopótamos, javalis, impalas, antílopes de sable, kudus, mas, sem dúvida, a maior atração são os 600 elefantes que habitam a região e usam o rio como piscina...Os machos são enormes, talvez os maiores que já vimos na África, mas o que queríamos levar conosco foi o filhotinho recém nascido, menor até que uma impala.

Depois de cruzar o Plateau de Zomba, chegamos na cidade de Blantyre, antiga capital do país. Aqui, vamos reabastecer nossos estoques e amanhã cedo partiremos sentido ao nosso próximo destino, MOÇAMBIQUE.

  
  

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