Repúplica Democrática do Congo, República do Congo e Gabão

RDC, Congo e Gabão...

  
  
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Vindos da Angola, quando fomos legalizar nossa documentação para um novo país, o RDC, nossos documentos simplesmente sumiram de nossas mãos por umas 3 pessoas diferentes, as quais falavam apenas francês e nos deixaram pra trás sem qualquer explicação. Mas após alguns minutos, tudo voltou como tinha que ser, Carnet de Passage de Douanes (documento do carro) carimbado, assinado e uma de suas páginas destacadas; carteiras de vacinação contra a febre amareladevolvida e passaporte também carimbado, porém, utilizando uma página novinha, as quais estamos economizando arduamente para os demais tantos vistos que ainda temos pela frente aqui na África. É bem provável que tenhamos que renovar nosso passaporte mais uma vez em algum dos próximos países.

RDC ou DRC em inglês é a abreviatura de República Democrática do Congo que é assim chamado para se distinguir do país vizinho República do Congo. Uma outra forma para o diferenciar é pelo simples nome Congo Kinshasa, devido a sua capital Kinshasa, quando seu país vizinho leva o nome de Congo Brazzaville.

Como resultado de sua localização ao equador, a chuva por aqui é ponto forte e as tempestades acontecem na maior freqüência do mundo. O tamanho do país, que é o terceiro maior da África, somado a toda essa água, fazem com que o RDC sustente a segunda maior floresta tropical do planeta, perdendo somente para a Amazônia.

Além da África e da América (Amazônia), ainda existem as florestas tropicais Indo-Malaio e todas juntas, mesmo com as tentativas de destruição por parte dos seres humanos, somam 17 milhões de quilômetros quadrados, o que corresponde a 20% do planeta, que ainda está razoavelmente coberto por vegetação.

Infelizmente o RDC possui uma das mais sangrentas histórias. A segunda guerra que o país presenciou, “Segunda Guerra do Congo”, começou recentemente (1998) e devastou o país, envolvendo ainda 7 outros exércitos estrangeiros. Com uma lista de mortes de 5,4 milhões de pessoas, que foi a maior quantidade desde a segunda guerra mundial, essa guerra no Congo vezes era considerada como a Guerra Mundial Africana.

Para quem assistiu o filme Hotel Ruanda, mesmo que esse filme foi gravado no país vizinho, pode entender um pouco do que vem acontecendo, pois Ruanda entrou no RDC em 1996 a procura dos Hutus (refugiados no Congo) responsáveis pelo massacre de 1994 em Ruanda, que exterminou milhares de Tutsis. Essas milícias de refugiados Hutus, logo, aliaram-se com o exercito congolês e em contra-partida, os Tutsis formaram uma milícia contra o RDC, suportados por vários países, incluindo Ruanda e Uganda. Com tantas idas e vindas, tentativas de acordos de paz que sempre eram quebrados, até hoje, infelizmente, os conflitos ainda acontecem e a intensidade das violências sexuais que o país vive hoje, são as maiores do mundo.

Em nosso caso, como cruzamos o oeste do país onde a situação está calma, não tivemos más recordações, muito pelo contrário, pois os 300km rodados e os três dias que passamos por lá, deixaram uma imagem de um povo hospitaleiro e simpático.

A República Democrática do Congo, a República do Congo, o Gabão e muitos dos próximos países de nosso itinerário são de colonização francesa ou belga, tendo o francês como língua oficial e única forma do entendimento entre os próprios africanos locais, que falam incontáveis diferentes línguas e dialetos. Para nós, que malmente sabemos cumprimentar em francês, existem prós e contras. Os contras são quando não podemos nos fazer entender, e as pessoas, muitas vezes, não tem a paciência nem a vontade de falar com quem não fala a língua francesa. Um dos prós, cabe as situações em que a polícia nos para, pede documentos, seguros e outros, que por vezes fazemos-nos desentendidos e somos liberados sem qualquer necessidade de propina, cigarro ou gasosas!!! Pra falar a verdade, temos dois livros que nos dão uma noção de francês, mas frequentemente, quando não entendemos a forma da pronuncia dessa língua complicada, os jogamos para trás e rapidinho voltamos ao português, bem mais fácil.

Nossa despedida do RDC foi quando pegamos uma muvuca na balsa que cruza o Rio Congo saindo de Kinshasa sentido Brazzaville, capital da República do Congo. Foram horas de espera, pois devido a complicada compra de passagens, correria para carimbar o passaporte/ Carnet de Passage e ainda fugir dos aproveitadores, perdemos a primeira embarcação. Além do aglomero dos locais ao nosso redor, presenciamos (já na balsa) a brutalidade, que ainda está no sangue desse povo, dos policiais nos inocentes passageiros, que apanhavam com cordas e talas por simplesmente estarem lá.

Ferry entre Kinshasa e Brazzaville

Passamos o fim de semana no Hippo Camp, Brazzaville, hotel de um francês que oferece as facilidades básicas de graça, o que atrai muitos viajantes como nós. É hora de recarregar nossas baterias e descarregar as do Lobo com a geladeira que fica 100% do tempo ligada. Neste hotel, conhecemos um casal de alemães, viajando em um Caminhão Mercedes, dois motoqueiros (um argentino e um espanhol) e um casal Landeiro (ele inglês e ela do Zimbábue). Esses últimos quatro, pelo que contaram, vieram da costa do Congo e pegaram estradas muito precárias, médias baixíssimas e ainda barreiras impostas por locais com seus facões, que quando não paga, não passa. Mas a dificuldade foi tanta que, segundo eles, os locais até esqueceram de cobrar pedágios e passaram a ajudar nas desencalhadas!

Acampamento com outros overlanders

Nosso caminho foi outro, com asfalto em parte e areião em outra. Mas nosso maior desafio nesse país foi o de encarar as super precárias oficinas, em terra de ninguém, para tentar achar um problema no carro. Acreditamos que um crescente barulho no diferencial foi causado pela entrada de água, o qual deixou o óleo muito fraco e pode ter danificado os rolamentos. Na verdade, o problema ainda existe, pois segundo informações, o único país que teremos as peças sobressalentes a disposição será a Nigéria e até lá, ainda tem chão. Nessas horas, parece que as estradas ruins são até melhores, pois vezes esquecemos que o carro está com problema quando o barulho das panelas é maior, hehe.

Postos de combustível
Oficinas mecânicas precárias

Chegamos em mais uma borda, desta vez entre a República do Congo e o Gabão e ali perdemos algumas horas tentando convencer os oficiais da imigração a carimbarem nosso Carnet de Passage que devia ter sido carimbado há 40 ruins quilômetros atrás pela aduana. Uma ligação e umas canetas de brindes foram necessárias, até que o problema se resolveu e ali mesmo, entre os dois países, passamos mais uma noite acampados.

Os primeiros europeus a chegarem nas terras gabonesas foram os portugueses, no século XV, batizando-as de Gabão, uma espécie de casaco, cujo formato lembrava o do estuário da foz do rio Komo. E como de costume por parte dos portugueses, eles tornaram a costa do Gabão um entreposto de escravos... e em certa feita, no ano de 1849, franceses capturaram um navio de escravos e os libertaram na embocadura do rio Komo, local onde surgiu Libreville, cujo significado é “A cidade livre”, hoje capital do país. Apesar dos portugueses terem sido os primeiros, foi a França que assumiu o protetorado do território entre os anos de 1839 e 1841. A independência do Gabão, assim como a dos outros dois Congos, aconteceu em 1960.

Como curiosidade, o presidente gabonês atual, El Omar Bongo Ondimba é um dos chefes de estado que por mais tempo comandou um país, que em seu caso, chega a quase quatro décadas.

Viajando por estas estradas com florestas tropicais, vezes, cruzávamos por vilas que em um ponto nos chamaram a atenção. Geralmente em tambores e bancadas, estendem-se ou penduram-se animais silvestres mortos, como veados, roedores, macacos, jacarés, tartarugas, etc... e isso tudo é fruto da caça indiscriminada destes animais (estima-se que 10.000 gorilas são morto por ano, fora as outras espécies). Essa crise tem crescido principalmente em função das baixas condições de vida dos povos, que dependem da caça para a própria sobrevivência, mas também, sustentam o consumo de carnes exóticas em mercados e restaurantes das grandes cidades. Essas coisas são muito difíceis de registrar, pois as pessoas das vilas se sentem constrangidas quando nos vêem com nossa máquina fotográfica, então, teve uma vez que usamos o pretexto de encher a caixa d’água de nosso carro só para ter a oportunidade da foto de dois macacos à venda ali ao lado.

Carne de macaco a venda
A única coisa que vimos foram pegadas de elefantes

No Gabão pegamos estradas boas e estradas ruins que inclusive nos levaram novamente ao hemisfério norte quando cruzamos a linha do equador. Grandes rios nos acompanharam e além disso, aquela simples emoção de estar em terra de elefantes e gorilas fascinava, sabendo que a qualquer momento algum desses gigantes poderiam aparecer em nossa frente... , quem sabe para o próximo diário!!!

Rumo a Camarões
  
  

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