Segundo Dia da Trilha Salkantay

De Soraypampa para Colpapampa- o encontro com a Montanha Selvagem

  
  
Passo Salkantay

O Alex veio nos acordar com a garrafa térmica de água quente e o folhas de coca. Depois de previamente aquecidos pelo chá, bem importante para que ainda mantivéssemos o calor do sleeping bag, juntamos nossa tralha e descemos para o desayuno, que surpresa! Nem em sonho pensei em acordar num acampamento com panquecas de banana cobertos de doce de leite no café da manhã, mais café e té.

Olha isso!

Saímos meio atrasados e por conselho do Osgel e do Roberto, invertemos a mochila, pegando a mochila da Júlia, e deixando do João-delivery com menos peso, só o essencial, por volta das 7:00 hs, mas como o Osgel havia falado que neste dia usaríamos o cavalo revezendo na subida, eu e a Júlia, acho que ele nos deu esse luxo, da saída tardia.
Passamos pelo Montain Lodge, aquele do trekking luxuoso e o Osgel nos mostrou.
A subida no começo parecia leve, mas a falta de ar persistia, comecei a ficar muito para trás e o Osgel mandou eu subir no cavalo e lá fui, descansando. Na subida desgraçada em zigue zague, lá vou eu para o cavalo de novo... Confesso que a sensação é de alívio, lógico, mas dá um certo ar de fracasso, vendo todo o povo sofrendo e principalmente eu deixando a Júlia e o João para trás, e falando para o Osgel, “-deixa eu aqui no meio, para a Júlia pegar o cavalo”, e ele não se convenceu e falou que não, só quando chegássemos lá em cima eu descia...

Lago

E assim fomos, conforme descrito na programação, atravessando o estreito de Salkantaypampa para ir ao lado esquerdo do nevado Umantayblanco.
Acabando a subida, conforme o combinado e para não atrasar muito continuei a caminhada, enquanto o Osgel esperava os dois. Tirando a falta de ar, tudo é de uma beleza diferente para nós, que não estamos acostumados com esse tipo de paisagem... tudo branquinho, coberto pelo gelo, o azul intenso, impossível descrever, mais aquela vastidão branca, pontuados com pontinhos negros, e como todos os turistas estão cansados, acaba aquele falatório do lado e foi ótimo para passar um tempão sozinha, caminhando...

A paisagem linda!

Na reta final da subida, aparece o Osgel de novo, me oferece o cavalo novamente, pergunto sobre a Júlia, ele disse que ela usou o cavalo um pouco lá atrás e subo de novo.

As apachetas

Chegamos ao ponto mais alto, a passagem Salkantay Umantay por volta das 11:45 hs, e lá o Osgel explica mais um pouco sobre as formações colocadas lá, (vou tentar lembrar como ele falou, mas não tenho certeza absoluta, gente)...
As apachetas, onde se acreditava (e acredita-se ainda), que quem coloca uma pedra no topo da montanha e crê do fundo do coração, tem seu desejo realizado. A ligação do povo inca com sua religião e sua influência na vida cotidiana dos campesinos-os camponeses,que os incas cultuavam este lugar e outros apus-montanhas como um lugar sagrado, pois representava a ligação com Inti-Sol, a PachaMama-a Mãe Terra e os picos nevados, que após o derretimento da neve, traria água, e seria um local para pedir as bênçãos para uma boa colheita.

Os caminhantes

Esperamos a chegada do João e Júlia, que chegaram por volta das 12:30 hs, bem cansados.
Enquanto pegávamos emprestado a bandeira brasileira dos rapazes Guilherme, Rodrigo e Felipe, de Porto Alegre, que conhecemos nesta trilha e que voltaríamos a nos encontrar em diversas vezes para tirar a foto clássica, vi uma coisa que em todos estes tempos não tinha visto ainda, que foi o João desatar a chorar em uma trilha...
Ele me contou depois que foi um misto de sentimento de conquista, mais do cansaço, mais toda a história que o Osgel contou para ele que não conseguiu segurar. Contou também que durante a subida em zigue zague viu gente chorando, achando que não ia conseguir, e também que a Júlia desabou a chorar depois que acabou a subida. Disse que todos os guias que passavam por ele e pela Júlia perguntavam se estava tudo bem, e também aconselhavam, diziam palavras de incentivo e até de simpatia, onde uma guia falou que era para eles pegarem qualquer pedra da trilha e esfregarem no corpo, pedindo para levar o cansaço embora. É, esta trilha foi punk.

Começando a descida

Começamos a descida, achamos que seria perto, mas ainda teve muito chão até o almoço.
Almoço de novo bem farto, suco para nos esperar, arroz, bife, um refogado com um feijão verde local e outras vegetais locais ardidos, mas saborosos, batatas com um creme bem picante e salada.

O farto almoço

Não deu para descansar de novo, porque acabamos nos atrasando para variar, e fomos lá, descendo, descendo, e percebendo que a paisagem ia mudando, conforme íamos descendo.
Passamos no segundo Lodge do Montain Lodge e a Júlia disse que gostaria muito de ter ficado por lá mesmo...
Durante o caminho encontramos algumas habitações, duas menininhas no meio da trilha, cerca de 6~7 anos, bem bonitinhas, com aqueles uniformes que achamos o máximo, de saia pregueada, casaco com brasão e meias até os joelhos, que brincaram conosco sobre contas de somar e multiplicar e a cada resposta que fornecíamos à pergunta formulada era recebida com sonoras gargalhadas pelas duas, e fomos nós,descendo, descendo...
Nos encontramos num pequeno povoado e muitos daqueles que havíamos visto lá no alto, já estavam ensaiando uma pelada nos acampamentos... é, jovem é outra coisa...

Descendo

O Osgel, com o “mais 25 minutos” eternos dele, já escurecendo, atravessamos uma ponte sobre o rio, o cavalo se soltou dele, ele foi atrás, nós 3 sem saber o que fazer por um breve momento, até que ele nos encontrou e fomos seguindo, por um caminho que já não dava para ver direito, porque tinha sobrado uma lanterna bem fraquinha, que por acaso tinha ficado na mochila da Júlia, as 3 restantes estavam lá no provável acampamento, já montado, esperando por nós.
Quem quase ficou com vontade de chorar nesta hora fui eu, de cansaço, da escuridão, de um lugar que o Osgel falou que tinha desabado e que era para a gente passar correndo, imaginando no cansaço da Júlia e do João que deveriam estar muito maiores do que o meu...
Não sei direito quanto tempo, que para mim foi um tempão, chegamos ao segundo acampamento, num camping mesmo, estava ainda bem frio, mas menos frio que o primeiro dia, pois estávamos a 2.800 metros.
Cumprimos neste dia 21 km, e descemos 1.000 m de altitude.

Seguimos a mesma rotina, pulamos o happy hour e fomos direto ao jantar: a sopa como entrada, macarrão e salada. Vimos durante o jantar e o Roberto nos chamou a atenção para isso, para olharmos como as crianças estudavam lá: a menina na beira da fogueira, com uma lanterna iluminando seu caderno e explicando toda orgulhosa para o irmão mais novo o que havia aprendido na escola. Ele ainda riu: “-É, igualzinho as crianças do Brasil devem estudar, na sua mesinha, com sua luminária particular...” (pensei, é bem assim mesmo, e ainda assim, elas reclamam da vida, por aqui...
Daí, para a barraca, descansar.

  
  

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