A divulgação científica como forma de educação ambiental

Por Rodrigo N. R. Pereira

Nas últimas décadas, os grandes avanços da ciência deixaram de ser temas de discussões restritos aos círculos acadêmicos. Os conhecimentos científicos, muitas vezes associados às inovações tecnológicas, dispensam-se entre o público leigo e vêm, cada vez mais, atraindo pessoas de todas as idades para o seu universo de observações e teorias tão fascinantes quanto esquisitas.

Entender como é possível transferir genes humanos para bactérias e, assim, produzir hormônios e fatores de crescimento em laboratório ou porquê das estrelas muito grandes terminarem suas vidas explodindo em supernovas, pode, hoje, não ser uma tarefa tão complicada como já foi no passado. Estes e outros assuntos que vão da ecologia à física quântica, da genética molecular às teorias da origem do universo, já fazem parte do cotidiano dos cidadãos deste milênio.

Este fenômeno de popularização da ciência,que já tem alguns anos de história, deve-se, em primeiro lugar, à influência que muitas descobertas científicas tiveram sobre o dia-a-dia da sociedade – desde a descoberta dos antibióticos e dos agrotóxicos organoclorados na primeira metade do século até as novas pesquisas sobre a destruição da camada de ozônio e as constantes viagens espaciais da atualidade.

Como conseqüência, estes temas ganharam um grande espaço nos meios de comunicação de massa, transformando termos de laboratório em palavras de uso comum. Um bom exemplo do impacto de recentes experimentos científicos sobre a opinião pública do Brasil e do mundo tem sido o grande debate desencadeado sobre bioética (ética na biomedicina), devido aos casos de clonagem genética de animais, em laboratórios e sobre as leis de patentes que incidem sobre organismos vivos.

Contudo, a maioria das informações contidas nos jornais e telejornais é de casos específicos e, normalmente, não contextualizam a matéria dentro do conjunto de conhecimentos já adquiridos. Desta forma, propagam-se e cristalizam-se preconceitos no público leitor que dificilmente serão revertidos.

Numa sociedade que necessita guiar as discussões sobre o caráter e o reflexo da ciência na sua vida, não podem permanecer as más interpretações e os “achismos”. Para questionarmos políticas científicas que colocam em risco o equilíbrio natural de nossos biomas ou mesmo propor o uso de tecnologias alternativas que eliminem ou reduzam os prejuízos ao meio ambiente e à vida em nosso planeta, é necessário qualidade nas informações veiculadas, e não meias-verdades.

Embora saibamos dos muitos benefícios reais que a aplicação da ciência trouxe à vida da população, alguns incidentes ocorridos nos últimos anos nos colocam severos questionamentos a respeito do uso tecnológico de algumas descobertas científicas (o que é uma atitude menos de passadismo do que de responsabilidade).

O atentado com o gás Sarin realizado por fanáticos japoneses há alguns anos, mostra-nos que a pesquisa em torno da guerra biológica é algo que pode ter um reflexo imediato na sociedade. Ou seja, não será preciso aguardar um próximo conflito diplomático para que as vejamos em ação. Assim se passa com outras aplicações tecnológicas com as quais temos pouco contato.

É por isso que tem sido de enorme importância o papel que muitos professores, cientistas e profissionais têm desempenhado na divulgação de seus ramos de pesquisa. Principalmente aqueles que tentam associar os conhecimentos específicos de sua área com reflexões sobre os potenciais danos decorrentes da má utilização de técnicas associadas. Particularmente, a contribuição de maior alcance vem sendo através da publicação de livros, em muitos casos, são escritos em linguagem acessível ao público, ainda assim mantendo-se fiéis ao seu conteúdo e rigor informativo.

Estimular essas iniciativas individuais e também, em conjunto com a participação da juventude acadêmica das universidades, apoiar programas locais de popularização da ciência é apoiar diretamente um projeto de educação. Educação esta que não se resume no compartimento dos conhecimentos transmitidos em sala de aula. Pelo contrário, que somente torna-se potencialidade individual do cidadão quando aplicada no seu dia-a-dia, do acordar ao dormir. Apoiar a população da ciência é educar!

O artigo acima é parte integrante da revista Meio Ambiente no. 1 www.revistameioambiente.com.br