Educação ambiental e a crítica

Por Leandro De Martino Mota

A educação ambiental é um dos últimos paradigmas produzidos dentro do que se convencionou chamar de modernidade. Ela é uma manifestação simbólica e, algumas vezes, material, de uma visão a respeito de algumas conseqüências da própria modernidade; riscos, tecnologias, tragédias e farsas. Juntamente com outros debates sobre as formas alternativas de organização social e de movimentos sociais, a educação ambiental tem condições de proporcionar uma infinidade de debates que mostrem a importância de se pensar o mundo, e o cosmos, desde a partícula mais micro até a biosfera.

Mas, claro: toda esta relação constituída em interface e em interação com o homem e outros tantos seres vivos. Contudo, é preciso que se diga: é importante não reproduzir o que a educação e a ciência tradicionais teimaram em reificar: a ilusão, a meu ver, da separabilidade e da especialização do enfoque cientificista. Assim, a educação ambiental pode apenas oferecer a possibilidade dos seres humanos conviverem em harmonia, ou em equilíbrio homeostático, com as leis clássicas e, algumas vezes, questionáveis, da ecologia ou da biologia clássicas. Não existe natureza intocada, sem o homem. Não existe um homem sequer que não seja natural.

O que está em debate é também a necessidade de uma visão de mundo, de um paradigma filosófico e científico, que priorize a integração dos sistemas e a complexidade. Já era hora de encerrarmos a longa trajetória da ciência e da visão de mundo deterministas e reducionistas, que deixam de fora vários aspectos ou ângulos de uma análise do ambiente, ou da sociedade ou da história, e que querem dar a entender que são visões de mundo completas e fantásticas.

O compromisso e a relação dos homens com a sua história, além de não serem definidas do jeito que querem, mas de acordo com algumas circunstâncias, é tanto cultural quanto natural. Por isso, não podemos deixar de mencionar que vivemos um momento histórico que, para mim, pode ser contextualizado não apenas como pós-modernidade, mas um momento de crise de todo um paradigma civilizacional da modernidade.

Esta crise cobra e sugere uma dialética, renegada anteriormente, assim como algumas visões sistêmicas e holísticas, que poderá oferecer, se bem semeadas, os frutos para uma nova mudança: a mudança ambiental e social. Nessa perspectiva, muitos debates apontam para que, com esta crise de paradigma de modernidade, novas formas de se pensar e agir, em relação ao mundo, ao ambiente, ao universo, à nossa rua, sejam reconstruídas. Ou ainda, antigos conceitos que agora são desconstruídos e outros abandonados, para serem novamente construídos.

A noção ou o mito do desenvolvimento econômico, se tornaram, ao menos para mim, tão convincentes, inclusive, ideologicamente, que até a discussão sobre os riscos da sobrevivência dos homens incorporou esta perspectiva, a meu ver, com alguns problemas; vivemos há mais de trinta anos sob a égide dos novos desenvolvimentos, o sustentável é o mais recente, e não cessaram os problemas sociais e ambientais em todo o mundo. Não é possível todos os países assumirem a performance capitalista e fossilista de países de “primeiro mundo”, pois, assim, seriam necessários cinco planetas Terra. Para se começar a encerrar este breve artigo, neste último século, o século da economia livre, que traria a solução para todos os problemas, aumentou drasticamente a pobreza e a degradação ambiental em todo o mundo. O desenvolvimento como o conhecemos é contrário ao meio ambiente e à saúde humana.

Entretanto, Estocolmo (1972), Relatório Bruntland (1987) e a Agenda 21 (1992), Rio + 10, que poderiam realizar esta crítica, ainda não nos convenceram em mostrar a sociedade integrada ao ambiente e o principal: não romperam com o paradigma insustentável de desenvolvimento econômico. Sem entrar muito em detalhes, o Informe Bruntland chegou a cometer o grave erro em dizer que era a pobreza a principal causa da degradação ambiental.

É preciso ir além. É preciso dizer quais são as causas da pobreza e da degradação ambiental, como o padrão, o modelo político, teórico e econômico das sociedades, a visão cartesiana da ciência e do mundo. A educação ambiental é cada vez mais uma forte expressão ou um sinônimo de uma cidadania, emancipadora, subjetiva, que também pode ser sinônimo de qualidade de vida, no sentido mais abrangente da nossa existência. Não há democracia ou cidadania consistentes que não exerçam esta análise e que consigam efetivar as transformações. Vamos deixar o desenvolvimento econômico ad infinitum de lado e vamos pensar mais na sustentabilidade humana, natural e cultural.

Leandro De Martino Mota é Sociólogo e Mestre em Sociologia Ambiental.