Itacaré – uma viagem sem volta !!

Por Paula Costa

Pela primeira vez na costa do cacau, eu desembarquei em Ilhéus na expectativa de ver de perto as histórias de Jorge Amado e de rever meus amigos, que há muitos anos moram em Itacaré. Tudo o que eu sabia sobre Itacaré era um lugar de muita natureza. Lembro que eu estava feliz em poder trabalhar temporariamente, na Bahia, na famosa terra da alegria e da tranqüilidade. Eu, turismóloga por formação acadêmica e amante da natureza de alma, estava no carro, maravilhada com as lindas paisagens, e atenta a tudo que meus amigos me contavam sobre o cotidiano em Itacaré. Eles, que chegaram na cidade antes mesmo do asfalto, me contavam que as riquezas não eram só as praias, as belas ondas, as cachoeiras, o Rio de Contas e as paisagens, o que eles me contavam meus olhos ainda não podiam ver, porque era sobre a hospitalidade e o calor da natureza do baiano itacareense, povo simples e alegre.

A estrada parque que liga Ilhéus a Itacaré é cheia de surpresas. Há passagens subterrâneas para os guaiamuns e redes de apoio para os micos que habitam as copas das árvores, tudo feito para preservar as mais diversas espécies da fauna e flora da mata atlântica. Ao chegar na cidade, depois de 60 km de lindas paisagens, entramos nos primeiros quilômetros de paralelepípedos e logo estranhei ao ver alguns carros velhos largados no acostamento. De cara senti que o lugar é meio abandonado e passando pelas ruas da cidade o aspecto sujo também me chamou atenção. Confesso que sou crítica. Mas como planejadora de turismo, tenho olhos clínicos sobre um município turístico, as experiências que eu vivi em Bonito e nos destinos ecológicos, me faz analisar o ecoturismo como uma atividade de base na conservação ambiental e preservação dos valores culturais e históricos, resguardando os valores da comunidade tradicional. O que mais eu podia esperar de Itacaré?!

- Meus Deus que lugar lindo!!!

Não me contive, ao ver os barquinhos e canoas coloridas na orla da cidade na praia da Coroinha. Eu estava ansiosa, queria logo pisar no solo de Itacaré, a expectativa era enorme e então chegamos direto na agência dos meus amigos e lá, esperavam por nós os famosos guias locais. Fiquei meio inibida na hora, mas fui recebida de uma maneira super carinhosa e com muita alegria! Nossa, pensei comigo, que recepção calorosa, em 10 minutos de conversa eu já me sentia em casa e à vontade. Em pouco tempo, eu já estava entretida com os meninos que faziam questão de me falar sobre os passeios que eu poderia fazer na cidade. Eu já estava adorando Itacaré.

No primeiro dia fiz questão de sair para conhecer a cidade, e com uma bicicleta, fui passear pelas ruas simples de paralelepípedos e me impressionei ao encontrar a arquitetura das construções antigas e a igreja matriz construída 1728 em homenagem ao padroeiro São Miguel Arcanjo. Que banho de história. O bairro do Porto de Traz foi o principal acesso durante a época da produção de cacau, o porto era nas margens do Rio de Contas, rio que, nasce na Chapada Diamantina e deságua em Itacaré. As casinhas simples do Porto de Traz e do Marimbondo preservam histórias de famílias tradicionais. As crianças brincam na rua na maior parte do dia, as casas ficam com suas portas abertas e com cadeiras na calçadas. A qualidade de uma vidinha pacata e simples do interior. A cidade é mesmo bem pequena, e é no bairro da Concha, o lugar de maior concentração de pousadas e cabanas de praia. O chão é de terra batida, o que dá um charme no bairro que é todo arborizado. Próximo a Concha ficam as praias do Resende, Tiririca, Costa e Ribeira que são chamadas de praias urbanas. E quanto mais eu caminhava mais eu via o descaso com o lixo, espalhado pelas ruas e na entrada das praias. Quando procurei uma lixeira, para fazer a minha parte, precisei andar muito, e mesmo assim só consegui achar uma lixeira largada e quebrada no chão. Que triste! Uma cidade tão especial e cheia de descaso pelos órgãos públicos municipais.

Quando conheci as praias de difícil acesso, caminhei em lugares frágeis, ao meio de manguezais e trilhas, que nos levam a cachoeiras que deságuam bem próximas ao mar. Lugares e paisagens cinematográficas, praias desertas e de muita natureza. A infra-estrutura nesses lugares é bem simples, são moradores vizinhos as praias que vendem água, coco e refrigerantes, como uma maneira de auxiliar nas despesas das famílias. A simplicidade é o charme de Itacaré!

Com fome, foi difícil decidir onde comer, tantos restaurantes para todos os gostos e bolsos, que decidi comer o famoso pf (prato feito), só que desta vez de bobó de camarão. Fui muito bem atendida, embora eu estivesse comprovando o sistema tranqüilo e lento do povo baiano. Acho que o sol quente demais, durante o ano todo, deixa o povo maresiado, isso é fato, faz parte da cultura local!

No final da tarde fui conhecer o famoso pôr-do-sol da Ponta do Xaréu, lugar lindo de frente ao encontro do Rio de Contas com o mar, de lá é possível avistar a Península de Maraú. É comum, nos fins de tarde, a famosa roda de capoeira para acompanhar o por do sol! A raízes são preservadas e a capoeira é a alma da cultura negra. À noite o forró pé de serra é a balada preferida de muitos nativos de Itacaré, os guias locais são também ótimos professores de forró e rapidamente é fácil cair na dança, basta deixar se levar pela ginga dos forrozeiros baianos.

Descobri que a cidade possui aproximadamente 18 mil habitantes, sendo que cerca de 60% da população mora na zona rural. Descobri também, que a organização da comunidade é feita através de associações dos bairros, das crianças carentes, dos pescadores, canoeiros, guias, empresários e etc, é através do associativismo que a comunidade se une. Na alta temporada a cidade recebe milhares de visitantes e além das pessoas que tem casa de veraneio, os turistas de toda parte do mundo vem para Itacaré, que no momento, parece mesmo o nome da moda. Mas será que Itacaré está preparada? Minha preocupação é com o crescimento desenfreado e desorganizado do turismo, que pode acarretar uma série de problemas, com conseqüências que podem até ser irreversíveis. Foi nesse momento, que decidi ficar em Itacaré e fazer a minha parte!

Volto ao meu olhar crítico, e hoje, depois de conhecer a cidade e como profissional, vejo um futuro ameaçador. O turismo como atividade econômica está crescendo e a cada dia que passa, a ganância e o poder de alguns coronéis ameaçam a preservação da natureza e dos valores e tradições locais. O foco de alguns empresários, está muito mais ligado a questão comercial de seus empreendimentos, do que com a preservação e sustentabilidade do entorno em que estão inseridos. Isto é, não interessa mais nada além de saber o quanto estão lucrando em cima dos turistas. Com o crescimento no volume de visitantes na cidade, conseqüentemente temos mais pessoas consumindo nas ruas, o que é bom, mas é preocupante se pensarmos que, cidade não está organizada para receber esse fluxo de visitantes. Quanto mais gente chega na cidade, maior é a produção de lixo, maior o consumo de água e luz, mais pessoas e carros nas ruas e nas trilhas e o pior, o risco efetivo de degradação ambiental e uma ameaça constante na descaracterização da comunidade local. É um ciclo destrutivo se não for organizado.

Felizmente, aqui em Itacaré, ainda existem pessoas conscientes da importância da organização e planejamento da atividade turística. Após matéria publicada numa revista de turismo, com o título, Itacaré Barata - adeus o sossego das praias desertas, a cidade parece que entrou em estado de alerta. A matéria nos mostrou, claramente, para o risco da massificação do turismo em Itacaré, isto é, a desvalorização da mão de obra local, descaracterização da cultura e tradições, e o risco efetivo de degradação ambiental, já que a cidade não possui leis específicas e muito menos um Conselho Municipal de Turismo ativo. Desde então, um grupo de moradores e empresários decidiram unir forças e buscar mecanismos para planejar e organizar o ecoturismo. Conhecidos como GATS – grupo de apoio ao turismo sustentável, os interessados em colaborar, se encontram semanalmente para discutir e buscar soluções para as mais diversas situações ambientais, culturais e sociais, do município de Itacaré. Já foi dado o primeiro passo em construção do turismo responsável. E o que todos devem saber, é que Itacaré é o local adequado para os amantes da natureza, do ecoturismo, da aventura e do surf, essas sim são as verdadeiras vocações da cidade de Itacaré, que agora trilha em busca do turismo sustentável!!!