Expedição Kali Gandaki

Composta apenas por mulheres, a expedição vai percorrer uma região entre o Nepal e o Tibet onde a tradição e a peculiar organização social poliandrica são presentes na cultura local. Confira esse emocionante projeto. Sandra Palma, Luciana Ferreira, F

  
  

Composta apenas por mulheres, a expedição vai percorrer uma região entre o Nepal e o Tibet onde a tradição e a peculiar organização social poliandrica são presentes na cultura local. Confira esse emocionante projeto.

Sandra Palma, Luciana Ferreira, Fernanda Preto à frente e Iveth Shimabukuro no fundo

Sandra Palma, Luciana Ferreira, Fernanda Preto à frente e Iveth Shimabukuro no fundo
Foto: Victor Andrade

Normalmente quando um homem senta à frente de um editor de texto para escrever algo sobre as mulheres ele o consegue com facilidade, isto porque, a representatividade dessas criaturas na atual sociedade é algo que literalmente quebrou barreiras antes intransponíveis e defendidas com mãos de ferro por meio de uma imposição ferrenha dos homens através dos séculos. É fato que muitas mulheres perderam a vida quando ousaram desafiar os “donos da razão” em alguns dos tristes episódios ocorridos na história da humanidade.

Montanhas do Nepal, paisagem que o grupo irá presenciar durante a viagem

Montanhas do Nepal, paisagem que o grupo irá presenciar durante a viagem
Foto: Sandra Palma

Ainda hoje, embora o homem moderno tenha consciência plena do papel de igualdade entre os sexos, uma visão muito mais ampla do que realmente significa a mulher como peso de equilíbrio no convívio social e humano, diferentemente que no passado, ele preserva alguns tabus que o perseguem. Até mesmo quando pretende alinhar-se aos conceitos que eliminam por completo qualquer tipo de diferenciação à mulher, salvo, logicamente, as diferenças naturais existentes entre os sexos.

Tecelã no Nepal.

Tecelã no Nepal.
Foto: Sandra Palma

Desta forma explica-se a dificuldade em escrever sobre as mulheres, elas estão aí com toda a energia que não puderam gastar durante décadas de repressão imposta pela figura do homem centralizador. Conquistaram e ainda conquistam espaço dentro da sociedade que antes eram vetados a elas e, de quebra, a mulher demonstra ser, em alguns casos, mais resistente em determinados aspectos que o próprio homem, mesmo enfrentando através dos tempos intensas dificuldades para conquistar seu espaço.

Noiva com vestido típico

Noiva com vestido típico
Foto: Sandra Palma

Na verdade, tanto o homem como a mulher, continuam descobrindo os prazeres de se entenderem e desfrutar de um bom relacionamento social, composto por igualdade e respeito mútuo à parcela que cabe a cada um desempenhar. Essa teoria também é válida para áreas específicas como as que tratam de ecologia, meio ambiente e, principalmente, as ligadas aos esportes de aventura ou mesmo expedições que compõem esportes outdoor realizados na natureza.

Monastério que o grupo pretende visitar durante a expedição

Monastério que o grupo pretende visitar durante a expedição
Foto: Sandra Palma

Atualmente a força feminina tem descoberto na prática de atividades outdoor a vivência de experiências que consolidam a busca da mulher pelo seu espaço também nessas práticas. São tantas as figuras que despontam nos meios de comunicação especializados que são necessárias longas e densas produções para ilustrá-las com o devido mérito que conquistaram nesse meio tão jovem e promissor. Um bom exemplo para ser citado é a Expedição Kali Gandaki.

Exclusivamente feminina, a expedição, que parte no mês de setembro deste ano, trás em seu conteúdo características bastante peculiares do bom gosto das mulheres. As quatro integrantes pretendem realizar um trekking de 90 quilômetros na região do Upper Mustang, no Nepal. O local é composto por uma comunidade originalmente poliandra, ou seja, as mulheres possuem grande influência social sobre os homens e têm o direito de se casar com mais de um marido. Outra característica bastante relevante está na questão da visitação. A região esteve fechada à visitação para preservação da cultura tradicional por vários anos, sendo aberta somente em 1992 com restrição a mil visitantes a cada ano.

Segundo as expedicionárias, não se pode afirmar que nunca antes brasileiros estiveram no local, mas certamente elas serão as primeiras mulheres brasileiras, integrantes de uma expedição, a visitar a região. O objetivo do projeto é entrar em contato com a cultura local com intuito de entender e pesquisar o sistema em que vive aquela sociedade. Para tanto elas realizarão todo o percurso usando saia na tentativa de não interferirem nos costumes locais, que preserva o uso de trajes tradicionais. Ao todo serão cerca de 16 dias de caminhada em uma altitude média de 3.800 metros acima do nível do mar.

A idéia da expedição surgiu depois que uma das componentes do grupo, a analista de sistemas Sandra Palma, de 40 anos, visitou o Nepal. Em determinado momento da viagem ela chegou nos limites da região do Upper Mustang e não pôde seguir adiante, justamente pelo controle que há no local quanto ao número de visitantes. Inconformada com a proibição, ela procurou informações sobre a região e então convidou as colegas de trekking, a engenheira Iveth Shimabukuro, de 43 anos e a psicóloga Luciana Ferreira Ângelo, de 31 anos para participarem da idéia. Para completar a equipe as amigas convidaram a fotógrafa Fernanda Preto, de 22 anos, a caçula do grupo, para realizar o registro de imagens da expedição.

Outro aspecto interessante do projeto Kali Gandaki é a tradicional organização feminina. Cada uma das participantes, antes e durante a expedição, desempenhará um papel específico. Sandra Palma está encarregada da organização geral do projeto, já Iveth Shimabukuro, como já esteve diversas vezes no Nepal, está enriquecendo o projeto com informações sobre o destino, Luciana Ferreira cuidará da condição emocional da equipe e por fim, Fernanda Preto irá colher as imagens do trekking que fará parte de um livro que o grupo pretende lançar após retornar ao Brasil.

Para o grupo a expedição representa algo além da pura realização física. “O que nos atrai é o fato de nos identificarmos com o oriente, com o papel da mulher naquele país. Queremos entender essa relação, coisa que aqui no ocidente esquecemos um pouco por conta de que a mulher precisa trabalhar e tem um papel quase próximo ao do homem. No fundo, no fundo, do ponto de vista feminino, é como se estivéssemos buscando a nossa alma feminina naquela região”, argumentou Luciana. “O oriente reserva um cuidado todo especial sobre o relacionamento entre homens e mulheres que a gente desconhece”, completou.

A essência da expedição, de acordo com elas, é fixar o olhar feminino sobre uma sociedade tradicional com intuito de entendê-la melhor e ainda colher material de estudo, além de estar praticando uma atividade outdoor em uma região de difícil acesso. Para tanto, elas pretendem realizar duas atividades além do trekking. Uma delas é uma visita a um monastério de monjas e a outra é assistir a um festival hindu especificamente para mulheres, cuja história é bastante curiosa. Diz a lenda que a deusa Padati gostava do lord Shiva, para conquistá-lo rezou e jejuou. Encantado com a atitude da deusa, o lord tomou-a como esposa. Contente, Padati encaminhou à Terra um enviado para anunciar às mulheres que rezassem e jejuassem em prol dos maridos e da família. Desde então as mulheres hindus casadas realizam o festival, que conta com danças típicas no primeiro dia e, após a meia noite desse mesmo dia, rezam e jejuam por dois dias pelo bem estar dos maridos e da família.

Vale ressaltar o cuidado com os detalhes do grupo, já que até a equipe de apoio da expedição será de mulheres. “Contratamos uma empresa que nos prestará mão-de-obra durante a caminhada apenas de mulheres”, conta o grupo. Ao todo serão 15 mulheres locais que irão realizar o carregamento de utensílios para a viagem. Um dos desafios do grupo será a falta de água durante o percurso, elas vão receber uma porção de água para banho de quatro em quatro dias. “Estamos acostumadas a tomar dois banhos por dia, ficar sem banho vai ser um grande desafio”, disse Sandra.

Finalmente as expedicionárias mandam um recado para todas as mulheres. “Gostaríamos de estimular todas as mulheres para que acreditem em um objetivo e partam em busca dele, que realizem projetos. Somos pessoas como quaisquer outras e estamos buscando a concretização dessa expedição”, disseram.

  
  

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