Um novo modelo para o esporte

Por Asfilófio de Oliveira Filho O esporte brasileiro tem sido um reflexo do equivocado modelo de desenvolvimento econômico adotado em nosso país, caracterizado pela concentração de renda e pela extrema desigualdade. Sua organização teve início no fin

  
  

Por Asfilófio de Oliveira Filho

O esporte brasileiro tem sido um reflexo do equivocado modelo de desenvolvimento econômico adotado em nosso país, caracterizado pela concentração de renda e pela extrema desigualdade. Sua organização teve início no final do século XIX, com a criação dos primeiros centros destinados ao ensino e às competições. Tratava-se de uma prática elitista, reservada aos segmentos privilegiados da população. Mas a própria natureza competitiva do esporte, aliada às características lúdicas do povo brasileiro, foi fundamental para abrir as portas das agremiações aos grandes talentos provenientes das camadas populares incluindo os afro-descendentes.

No final da década de 30, a grave crise gerada pela implantação do profissionalismo no futebol acabou fornecendo o pretexto para que a mão pesada do Estado Novo caísse sobre o esporte. Em abril de 1941, com a criação do Conselho Nacional de Desportos, o esporte passava para a tutela do Estado - com resultados devastadores, como nos mostra a história. Esse panorama só viria a sofrer alterações na década de 70, sob a influência do Programa Esporte para Todos, surgido na Noruega, no ano de 1967, que pela primeira vez estabelecia o conceito de esporte não-formal, e da Carta Européia do Esporte para Todos, elaborada pelo Conselho Europeu em 1975. No Brasil, juntamente com a criação da Loteria Esportiva, essas idéias contribuíram para carrear um volume considerável de recursos para o esporte. Apesar da inegável correção de propósitos, os resultados obtidos têm sido bem tímidos. No domínio do chamado esporte de rendimento, a concessão, pelo Estado, de auxílio financeiro às confederações para a promoção de competições enfraqueceu a capacidade dessas entidades de levantar por si mesmas os recursos de que necessitavam, como ocorreu com as numerosas confederações resultantes da extinção da velha CBD.

Todo esse sistema implodiu com a Constituição de 1988, segundo a qual a atuação do Estado na área do esporte deve obedecer a duas orientações básicas: conscientizar a população de seus direitos e responsabilidades, e transferir gradualmente à sociedade o destino do esporte de alto rendimento, preparando-a para a independência econômico-financeira. Esta é a visão do esporte como direito social, contida no programa do Partido dos Trabalhadores: utilizar o esporte como instrumento de implementação de políticas públicas voltadas para a educação, a cultura, a saúde, o lazer e a cidadania. Democratizar o acesso a espaços e equipamentos, e também aos espetáculos desportivos. Estabelecer políticas para o esporte integradas com outras políticas sociais, no propósito de dotar a comunidade de modelos capazes de auxiliá-la na solução de seus próprios problemas.

O esporte de rendimento, em nossa visão, é da competência das entidades da sociedade civil, com a qual o Estado deve estabelecer uma parceria caracterizada pela absoluta transparência. Esta se dará segundo duas linhas-mestras: propiciar a plena capacitação dos dirigentes esportivos e criar condições para que estes possam buscar, por meio da legislação de incentivos fiscais e da promoção de ações de marketing, os recursos necessários para alavancar o esporte de alto nível. O esporte de rendimento poderá ser utilizado como fator de desenvolvimento econômico, em parceria com setores como o do turismo, estabelecendo-se como fato gerador de riquezas e alavancando a empregabilidade e o desenvolvimento nas diferentes regiões.

Fundamental nesse contexto é a elaboração de um planejamento estratégico para o esporte, tal como o que tem orientado a retomada da indústria cinematográfica em nosso país. Para tanto, faz-se necessário um amplo diagnóstico do desporto brasileiro. Foi nessa linha que realizamos, no Rio de Janeiro, uma análise aprofundada do desporto por regiões, a qual poderá contribuir para a elaboração de políticas públicas regionais fundamentadas na democratização da prática desportiva, de acordo com as características e interesses de cada município. O esporte tem imenso potencial como veículo de ação social. Mas também deve formar atletas, gerar empregos e proporcionar o crescimento econômico, com o desenvolvimento da indústria de material desportivo. Longe de serem incompatíveis, essas metas se inter-relacionam, cabendo aos administradores desportivos a tarefa de transformá-las em fatores sinérgicos de prosperidade e cidadania. Um binômio que tem tudo para deslanchar a partir do próximo ano, com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores.

Asfilófio de Oliveira Filho, é presidente da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj) e MBA em Administração Esportiva pela FGV/RJ.

  
  

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