A arte que mantém o céu suspenso

Por Ângela M. Pappiani Cada cor e acessório tem o seu significado Foto: Hélio Nobre A beleza é fundamental para todos os povos indígenas. Em cada objeto, em cada atitude da vida a beleza está presente como atributo divino. Não importa se a pintu

  
  

Por Ângela M. Pappiani

Cada cor e acessório tem o seu significado

Cada cor e acessório tem o seu significado
Foto: Hélio Nobre

A beleza é fundamental para todos os povos indígenas. Em cada objeto, em cada atitude da vida a beleza está presente como atributo divino. Não importa se a pintura trabalhosa e detalhada feita no fundo da panela vai ser queimada assim que ela for ao fogo. A pintura não precisa permanecer para justificar sua beleza. Ela é, no presente, como expressão necessária, e só.

Quando uma mulher Kaxinawá tece um kenê (tecido com desenhos tradicionais) com os fios de algodão coloridos com as cores da floresta, ela conta uma história. Os desenhos que vão surgindo com a habilidade de suas mãos, expressam todo o conhecimento de sua tradição, a arte herdada dos antepassados e mais sua visão do mundo, seus sentimentos e expectativas. Cada tecido é único e tem a marca de seu criador.

Da mesma forma, cada panela moldada em barro pelas mãos das mulheres Suruí, ou Waurá, ou Juruna, ou Assurini, ou Matis, tem a marca e o dom de sua criadora, a tradição milenar de seu povo, a expressão pessoal da artista e pode ser reconhecida por qualquer pessoa dentro da aldeia.

Os arcos e flechas preparados com cuidado e beleza pelo caçador são muito mais do que uma arma, são objetos pessoais que se materializam a partir do conhecimento e da necessidade de expressão do seu criador, que transformam a matéria da natureza em objetos carregados de sentido e poder.

Os troncos do Kuarup (cerimônia dos mortos, comum a vários grupos do Parque do Xingu) ricamente adornados durante dias até se transformarem em representações mágicas do espírito dos mortos, têm sua vida limitada ao tempo de duração do ritual que celebra os parentes que passaram para outro mundo. Depois de incorporar o espírito dos que já se foram, eles voltam a ser somente troncos, madeira morta, perdendo sua força e espírito.

As cores do urucum, do jenipapo, do carvão, do piqui e de outras folhas e madeiras da floresta dão ao corpo formas e desenhos especiais para cada idade, cada situação, cada ritual. A pintura corporal desempenha papel fundamental na vida e nos rituais de todos os povos. Ela protege contra as doenças e maus espíritos, ela prepara para a festa e para a guerra, dá expressão ao luto, acompanha homens e mulheres em todos os ritos de passagem. Os desenhos em negro ou vermelho cobrem os corpos de símbolos, de sentido mágico e belo.

Cada povo tem sua habilidade e forma de materializar em objetos de arte as necessidades do dia a dia ou dos rituais. A arte plumária dos Tupinanbás, povo que vivia no litoral do Brasil quando os portugueses chegaram, comoveu imperadores e artistas na Europa a ponto de integrar valiosas coleções de museus. Os mantos tecidos e recobertos de plumas numa combinação perfeita de cores, texturas e tamanhos são obras de arte que atravessaram o tempo e sobreviveram ao povo que a criou. Epidemias, guerras e o conflito inevitável do contato exterminou o povo Tupinambá e pouco, muito pouco, sabemos hoje de sua cultura, sua ciência, seus conhecimentos sobre astronomia, biologia, tecnologias, sobre a importância dos mantos que ficaram guardados para a posteridade...

Da mesma forma, mais de 700 grupos indígenas diferentes sucumbiram ao encontro com o novo mundo, levando para sempre o conhecimento e a riqueza de suas culturas. Uma perda incalculável para todos nós, uma violência que impede a troca, o aprendizado, a relação verdadeira entre culturas e povos.

A arte plumária ainda continua sendo a arte indígena mais conhecida e admirada por sua exuberância e riqueza. Quase todos os grupos indígenas utilizam plumas em combinações as mais variadas para construir peças rituais de significados e usos diversos. O clã a que pertence o dono do adorno, sua ligação familiar, sua posição dentro da cerimônia, muitas são as informações contidas no arranjo das plumas. Muitos conceitos e mensagens podem ser decodificados por quem está dentro da tradição. Assim, a beleza estética é um componente a mais dessas obras de arte, um atributo fundamental, mas não um fim.

A cerâmica, a cestaria, os instrumentos musicais, os pequenos adornos, a arquitetura, os bancos zoomorfos esculpidos em madeira, toda a cultura material dos povos nativos está carregada de princípios e objetivos, de valores estéticos e sociais. O talento dos artistas está a serviço da manutenção da tradição do povo, da continuidade de sua identidade.

Passado e presente

Quando os europeus chegaram a estas terras, que seriam chamadas de Brasil, viviam aqui cerca de 10 milhões de pessoas, compondo mais de 1000 grupos étnicos diferentes, que mantinham entre si relações políticas e comerciais. Um mundo totalmente desconhecido para os que chegavam.

Em pleno século XXI, o Brasil é o único país no mundo onde ainda vivem grupos étnicos sem nenhum contato com a civilização ocidental. São mais de 50 grupos diferentes, com sua língua, sua cultura, seu modo de ver o mundo, fugindo sistematicamente do contato com as frentes de atração do governo ou com os habitantes regionais. Além deles, outros 210 grupos étnicos conhecidos, com maior ou menor contato com as sociedades vizinhas, compõem uma população de aproximadamente 750 mil pessoas, vivendo em quase todos os Estados da Federação, do Rio Grande do Sul ao Amapá.

Os índios, como os povos nativos foram chamados pelos europeus, têm sido ao longo do tempo um mistério para os brancos, um povo que consegue viver à margem do progresso. Mas o índio genérico não existe. O que existem são sociedades diversas e complexas, com culturas distintas e conhecimentos milenares sobre como viver em perfeita integração com o meio ambiente, em contato permanente com o mundo espiritual.

Povos tão diferentes mas ao mesmo tempo ligados por um elo fundamental que é baseado na tradição, no conhecimento transmitido oralmente de geração a geração, pelo rito que tudo explica, determina e renova. São povos que vivem dentro das cerimônias, que sabem de onde vieram e para onde vão e que expressam através de sua arte a beleza e força desse universo mágico.

Hoje, apesar de todo avanço tecnológico e sofisticados meios de comunicação. a relação entre as pessoas e as culturas continua sendo um desafio.

Estratégias de sobrevivência

Os velhos da aldeia Xavante de Pimentel Barbosa dizem que ninguém respeita aquilo que não conhece. Por isso, 50 anos depois dos primeiros contatos desse povo guerreiro que vive nos cerrados do centro oeste brasileiro com os brancos, essa aldeia que foi palco do encontro, desenvolve estratégias de convivência com os warazu –os estrangeiros. Buscam caminhos para revelar sua cultura e conhecimento e assim conquistar aliados para sua luta de preservação cultural e permanência dentro da Tradição.

Assim, decidiram pôr sua música, os cantos sagrados que surgem nos sonhos, num CD (Etenhiritipá - Cantos da Tradição Xavante) para que sua cultura chegasse aos brancos. Uma apropriação da tecnologia trazida de fora em benefício de seu povo. Apropriaram-se ainda das câmeras de vídeo, dos papéis e tintas, do computador, e usam todos esses bens com seu olhar, seu conceito do mundo, com objetivos muito claros.

Da mesma forma os Guarani que vivem espremidos pela maior cidade da América Latina, também registraram seus cantos e tradição na voz das crianças de 5 aldeias diferentes no belo CD Ñande Reko Arandu – Memória Viva Guarani.

Ao olhar distraído de quem chega a uma dessas aldeias pode parecer que ali já não vivem índios puros. Que o uso de roupas, de bonés, tênis “de marca”, óculos escuros e relógios, coloca essa gente na categoria de aculturados, de quem já vive dentro da cultura dos colonizadores. Mas esta conclusão está muito longe da verdade. Nenhum desses elementos externos afastam o povo indígena de sua religião, de sua relação com o espírito e o sentido da tradição que os faz manter sua identidade. Mesmo o efeito desastroso da interferência das seitas e religiões ocidentais dentro das aldeias pode ser revertido quando o povo indígena decide voltar para sua vida tradicional e se desfazer dos conceitos que foram impostos de fora.

Um jovem Xavante dirigindo um trator dentro da aldeia afirma que o trator é bom, que se for utilizado com sabedoria vai ajudar o povo no cultivo de sua roça mas se estiver na mão de um louco pode destruir toda a aldeia. Isso se aplica a qualquer outro bem que chega às aldeias. E o uso das novas tecnologias com sabedoria só pode ser mantido com o conhecimento tradicional.

A tradição transmitida oralmente de geração a geração traz as histórias de todos os tempos, os mitos e narrativas épicas, os poemas. A beleza e complexidade dessas narrativas se compara com o que de melhor já se realizou na literatura ocidental ou oriental. Mas a distância e o preconceito impedem que essa produção intelectual do povo indígena venha ao conhecimento do público. A dificuldade com a tradução das línguas indígenas, que são complexas e conceituais, acaba gerando simplificações que entram para o domínio do “folclore” sem a profundidade e a beleza que são características dessa literatura oral.

Mas algumas iniciativas já conseguem nos aproximar dos textos tradicionais, na sua forma mais pura. O livro Wamrêmé Za’ra / Nossa Palavra - Mito e História do Povo Xavante (Editora SENAC) é um exemplo disso, trazendo as narrativas dos velhos Xavante na tradução de jovens que foram preparados para assimilar os conhecimentos do mundo dos brancos e utilizá-los em favor do seu povo. O livro é ainda ilustrado com desenhos e grafismos produzidos por jovens artistas da aldeia.

O Livro das Árvores com desenhos e textos do povo Ticuna é outro exemplo dos ricos caminhos dessa arte e do que ainda poderemos ver se a sensibilidade de editores e patrocinadores nos permitir.

O povo indígena tem o que falar, uma produção intelectual e artística da maior qualidade, propostas novas de inserção no mundo dos brancos. Faltam interlocutores e gente que acredite nessas propostas. Mas ainda há tempo para mudanças. Talvez a situação para os 50 grupos indígenas ainda sem contato com os brancos seja mais favorável e respeitosa, talvez as relações entre nossas culturas sejam mais amigáveis e compartilhadas no próximo milênio.

Ainda temos a chance de perceber que estamos numa mesma canoa. Que todo mal que for causado a ela se abaterá sobre todos nós, que dependemos dela para sobreviver. Como dizem os Guarani, é preciso pisar com cuidado sobre a Terra, ela é frágil. Devemos guardar com respeito e cuidado todos os lugares sagrados onde a Terra descansa e repõe suas energias para seguir na sua jornada. Os povos tradicionais são os guardiões desses lugares sagrados, eles tocam os maracás e cantam para manter o céu suspenso.

O IDETI

O IDETI – Instituto de Desenvolvimento das Tradições Indígenas é uma organização não governamental criada e dirigida por pessoas indígenas de várias etnias. Sua proposta de trabalho é divulgar o pensamento, o conhecimento, a beleza e força das culturas indígenas brasileiras, promovendo assim uma aproximação maior entre os povos que habitam nosso país.

Nos últimos três anos, o IDETI realizou eventos e projetos em parceria com importantes instituições como TV Cultura, Museu da Imagem e do Som, Folha de São Paulo, Casa de Cultura de Israel, Natura, Parque da Água Branca, Museu da República, Casa das Culturas do Mundo de Berlim, Museu Dahlen de Berlim, Prefeitura de Paulínia e Fundição Progresso.

O IDETI tem desenvolvido produtos culturais com direitos autorais garantidos para as comunidades indígenas como a série de cartões postais Etnias, com 16 imagens dos povos Tukano, Karajá, Krikati, Xavante, Mehinaku e Guarani; e o calendário 2003 com imagens de crianças. Além disso, realiza eventos em escolas e centros culturais, levando o conhecimento e a cultura indígena para mais perto do público urbano.

Rito de Passagem

O Projeto Rito de Passagem - Canto e Dança Ritual Indígena trouxe a riqueza dos rituais tradicionais do pátio das aldeias em apresentações especialmente elaboradas para o espaço cênico. Em três eventos - 2000, 2001 e 2002, o projeto atingiu um público de cerca de 20 mil pessoas nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, com patrocínio da Enron- América do Sul, Mostra do Redescobrimento, Petrobrás e Petroquisa.

As mudanças políticas e a crise do final do ano prejudicaram a captação de recursos, fazendo com que a realização do Projeto Rito de Passagem previsto, como nos anos anteriores, para este mês de abril, fosse adiado para o segundo semestre.

O Projeto Rito de Passagem tem um caráter inovador, agregando a qualidade técnica e os aparatos modernos à beleza e força da tradição indígena, buscando uma nova linguagem cênica capaz de envolver o espectador no clima mágico dos rituais, permitindo uma vivência transformadora.

Ângela M. Pappiani é Coordenadora Cultural do IDETI (Instituto de Desenvolvimento das Tradições Indígenas).

IDETI
Instituto de Desenvolvimento das Tradições Indígenas
Fone/fax: 11- 3277 7850
e.mail: ideti@ideti.org.br
www.ideti.org.br

  
  

Publicado por em

Renilson Oliveira

Renilson Oliveira

19/04/2009 21:05:34
Maravilhoso, simplesmente e complexamente maravilhoso!