Atividades de turismo responsável e defesa ambiental no Rincão Gaia

Por: Enrique Blanco Em meados da década de 80, o ilustre ecologista e ecólogo José Lutzenberger conheceu o local onde está instalado o Rincão Gaia, no Município de Pântano Grande, a 120 km de Porto Alegre/RS, quando fazia um trabalho de consultoria amb

  
  

Por: Enrique Blanco

Em meados da década de 80, o ilustre ecologista e ecólogo José Lutzenberger conheceu o local onde está instalado o Rincão Gaia, no Município de Pântano Grande, a 120 km de Porto Alegre/RS, quando fazia um trabalho de consultoria ambiental nas proximidades. A área correspondia a uma pedreira desativada de basalto, que iria se tornar um grande depósito de lixo urbano. O basalto retirado da área durante os 11 anos de atividade da pedreira serviu para construir a BR-290 e, essa ação predatória, abriu enormes crateras na pedreira que seriam cobertas com lixo proveniente de grandes centros como Porto Alegre. Contra esse propósito, Lutzenberger se empenhou e conseguiu transformar este local de destruição e desrespeito ambiental num centro de demonstração e divulgação de uma nova proposta. A possibilidade de interagir com o mundo natural, através da prática do turismo ecológico responsável e outras ações de conscientização e educação ambiental, a fim de estimular as pessoas a repensarem seus paradigmas em relação à natureza.

Partindo da idéia que é necessário conhecer para preservar, o Rincão promove atividades com grupos de estudantes de escolas e visitantes em seus 30 hectares (aproximadamente 300 mil m2) de área, dividida por espaços de agricultura regenerativa, construções ecológicas e antigas áreas degradadas, que foram recuperadas com o mínimo de intervenção humana. Atualmente, o Rincão Gaia é gerenciado pela filha do saudoso `Lutz`, Lara Lutzenberger, através da Ong Fundação Gaia, tendo o apoio da empresa de consultoria ambiental, manejo florestal e tratamento de resíduos industriais e domiciliares, também criada por Lutzenberger, Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico. Conforme Lara explica, o Rincão é um exemplo concreto do poder regenerador da natureza, pois `Aqui no Rincão nós ensinamos na prática como um ambiente que foi completamente destruído pela ação humana está sendo reconstruído pela própria ação humana consciente. Desse modo, mostramos que nossa espécie não precisa ser necessariamente destruidora, mas podemos ter uma função integradora, propositiva e construtiva, em vez de destrutiva`.

Aprendendo com a natureza

A equipe do Rincão Gaia desenvolve diversas atividades associando o turismo ecológico, praticado nas trilhas que cortam o terreno do Rincão, à educação ambiental e à vivências orientadas com o objetivo de promover o conhecimento de tecnologias brandas e socialmente compatíveis: a agricultura regenerativa, o manejo sustentável dos recursos naturais, a medicina natural, a produção descentralizada de energia e o saneamento alternativo. O controle do fluxo turístico no Rincão é uma preocupação permanente, pois como algumas áreas ainda estão sendo revitalizadas, a quantidade de pessoas por grupo é reduzida, havendo a necessidade de marcação antecipada das visitas. Os passeios são realizados dentro da área que compreende o Rincão, onde os visitantes têm acesso direto às lavouras, hortas, criações de animais e toda infra-estrutura do local:

a- Seminários sobre Temas Específicos: os seminários são ministrados em um ou dois dias e são elaborados a partir das demandas do próprio grupo, possibilitando assim, o aprofundamento e a vivência de prática de temáticas específicas pré-determinadas pelos grupos visitantes.

b- Assessorias em Educação Ambiental: orientação e acompanhamento de projetos de Educação Ambiental em escolas, empresas, comunidades, prefeituras e grupos em geral. Estes projetos são baseados na realidade local no processo participativo que estimula o comprometimento de todos. Inclui visualização, análise ambiental e planejamento coletivo de ações práticas segundo a realidade local. Nesses trabalhos de consultoria, a Fundação Gaia busca auxiliar municípios a solucionar problemáticas de paisagismo e saneamento, como no município de Novo Hamburgo, onde está implantada a Cooperativa dos Recicladores da Grande Porto Alegre que trabalha com cerca de 100 toneladas/dia de lixo urbano. A Fundação Gaia ainda prestou assessorias a alguns municípios do Rio Grande do Sul e a Corsan (Companhia Riograndense de Saneamento).

c- Vivências Orientadas: vivências específicas com duração de uma semana, incluindo atividades práticas relativas à agricultura regenerativa (agricultura ecológica), criação de animais, plantas medicinais e/ou educação ambiental, sob orientação permanente e acompanhadas por momentos de reflexão e de aprofundamento teórico acerca de temas específicos a partir da base filosófica que orienta estas atividades.

d- Oficinas de Educação Ambiental: momentos teórico-práticos, com a duração de meio turno, abordando temas específicos do processo de educação ambiental, de acordo com as demandas do grupo requerente. Podem ser direcionadas para a resolução prática de problemas ambientais locais, ou para aspectos metodológicos e filosóficos da educação ambiental.

Todas essas atividades permitem que os visitantes consigam perceber e aprender como a ação humana pode criar as condições para que o meio ambiente possa se recuperar e como a intervenção de baixo impacto promove o desenvolvimento sustentável local. Como a área foi completamente destruída pelas atividades da antiga pedreira de basalto, a equipe do Rincão Gaia tratou de intervir de maneira direcionada na região para que o próprio ecossistema se revitalizasse. Algumas vezes, a melhor ação foi simplesmente não intervir, deixando o meio ambiente agir por si mesmo como, por exemplo, em relação ao grande lago localizado no meio do Rincão, que se formou espontaneamente numa imensa cratera de basalto por meio da infiltração de águas subterrâneas e das chuvas. Em alguns locais, parte da vegetação está sendo replantada naturalmente sem a participação humana, através do surgimento das `plantas pioneiras` - os maricás e as vassouras -, que apesar de serem consideradas por muitos como `mato`, são altamente valorizadas para a reconstituição da paisagem natural no Rincão, pois elas preparam o terreno para vegetações futuras. Essas verdadeiras `bandeirantes da natureza` permitem que o terreno seja regenerado e tenha as condições para que surjam naturalmente vegetais mais desenvolvidos, recuperando o ecossistema local e transformando a antiga paisagem desolada da pedreira.

Os visitantes ainda têm acesso à estufa de plantas carnívoras, onde são ensinados princípios de botânica através de várias espécies, e à estufa de cactos, o `berçário de cactos`, que apresenta exemplares exóticos. Durante os passeios nas trilhas guiadas, os grupos dispõem de pequenos auditórios construídos às margens do grande lago, locais ideais para aprender um pouco mais com a natureza e descansar da longa caminhada, pois o percurso completo pelo Rincão dura praticamente o dia inteiro.

Após as atividades da manhã, o almoço é preparado com arroz, legumes, vegetais, frutas e outros alimentos do próprio local. Dependendo do período do ano, outras tantas atividades são realizadas na Sede do Rincão - uma grande casa construída de forma orgânica para possibilitar o convívio comunitário entre os visitantes. A Festa Junina, a Páscoa e o Carnaval Ecológico são alguns exemplos dessas festas temáticas que contam com a participação de todos os `moradores`. A proposta é estimular a integração entre os grupos, como se as pessoas estivessem de fato em suas próprias casas, participando e trocando experiências nos jogos e nas diversas atividades desenvolvidas por todos.

Um exemplo de sustentabilidade

Toda a área do Rincão é aproveitada de modo que o próprio ambiente possa `dizer` quais são suas potencialidades. Lara Lutzenberger esclarece que a equipe está empenhada em `restabelecer o diálogo com a natureza, entendendo suas necessidades e como o ambiente funciona, a fim de atender as suas demandas de acordo com os potenciais de cada lugar do Rincão`. O gerenciamento racional dos recursos naturais que o ecossistema local oferece, permite que toda a área seja utilizada dentro dos parâmetros do desenvolvimento sustentável, pois antes de qualquer intervenção, houve o mapeamento qualitativo e quantitativo de toda região.

Somente após essa etapa, começou a ser desenvolvido `um plano de ação evolutivo, que foi crescendo conforme caminhamos`, explica Lara. Seguindo esse plano de ocupação, a equipe resolveu construir a `Vila`, como é chamado o espaço habitado do Rincão, no lugar mais alto e pedregoso do terreno, onde está próximo dos melhores solos da região. Nessa área, localizada ao lado da cozinha, foi desenvolvida toda uma cultura ecológica com o cultivo de hortas e lavouras e árvores frutíferas como framboesas e amoras. Num local mais distante foi construído um sistema de purificação de águas superficiais, formado por um conjunto de lagoas, que é duplamente aproveitado. O sistema serve para retirar a carga orgânica das águas antes de serem lançadas no sistema de captação e atende ao manejo de diversas plantas aquáticas. Essas mesmas plantas são utilizadas como complemento alimentar na criação de aves e suínos do Rincão. Todo o material orgânico é aproveitado, os galhos e troncos da propriedade são recolhidos e transformados em carvão nos fornos artesanais em vez de simplesmente apodrecerem, mantendo o ciclo natural de preservação de energia. O lixo orgânico torna-se adubo para as hortas e as lavouras, enquanto lixo seco é encaminhado para reciclagem.

Outro exemplo de sustentabilidade diz respeito à arquitetura das construções do Rincão, pois elas foram concebidas utilizando matéria prima local, com os eucaliptos da propriedade, os telhados Santa-fé e os tijolos da região. Como o design das obras é adaptado e integrado à paisagem, respeitando o relevo local, não houve necessidade de terraplanagem. Uma dessas construções é a Casa Comunal, um grande espaço para desenvolvimento de atividades coletivas, criada por José Lutzenberger, a partir do exemplo de construções indígenas. Seguindo a risca o princípio de que na natureza nada se perde tudo se transforma, foram construídos pequenos jardins com restos de pedras e tijolos que sobraram das construções dos silos, estábulos e casas do Rincão, juntamente, com pedaços de basalto remanescentes da pedreira, transformando-os em verdadeiros micros ecossistemas povoados com cactos e vegetação local. Esses arranjos paisagísticos desenvolvidos no Rincão foram pioneiros no sentido de apresentar uma solução para incorporar o entulho de obras à natureza, de forma harmônica e esteticamente não agressiva. Lara Lutzenberger ressalta que, atualmente, algumas construtoras de Porto Alegre reaproveitam o entulho das obras utilizando a mesma solução. Como Lara afirma, proporcionar pequenas mudanças práticas até transformações mais amplas e radicais que envolvem uma nova forma de entender o meio ambiente são os objetivos de todos que trabalham no Rincão Gaia.

De fato, tendo a natureza como sala de aula viva, as pessoas vivenciam e interagem com o ambiente desenvolvendo uma cultura ecológica responsável e prática, e não meramente teórica como aprendida nos manuais ou nas aulas didáticas tradicionais de educação ambiental. Nesse sentido, o turismo responsável, quando está associado à atividades que visam integrar o homem ao meio, é o instrumento que possibilita a formação de uma consciência ecológica mais conseqüente com o momento atual, formando o sujeito ecológico - aquele indivíduo que não está apartado da questão ambiental.


  • Enrique Blanco

(enriqueblancos@yahoo.com.br)

Jornalista, graduado em Comunicação Social. Graduado em Filosofia pela UFRJ, pós-graduado em Filosofia Contemporânea pela UERJ e Licenciando em Filosofia pela UFRGS. Participa como jornalista colaborador da Revista Senac & Educação Ambiental. É pesquisador associado do IVT.

  
  

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