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Cana-de-açúcar: será mesmo, biocombustivel??

Olá pessoal... Em primeiro lugar, devo desculpas a todos, pela ausência no mês de fevereiro. Depois de longos e bons quase 12 anos, radicado no MS, trabalhando com guia naturalista, fotógrafo de natureza, biólogo e cons

14 de Março de 2007.
Publicado por Guto Bertagnolli  

Olá pessoal...

Em primeiro lugar, devo desculpas a todos, pela ausência no mês de fevereiro. Depois de longos e bons quase 12 anos, radicado no MS, trabalhando com guia naturalista, fotógrafo de natureza, biólogo e consultor, retornei para o interior de São Paulo, minha terra natal. Depois de muita briga com meus computadores e conexões de rede, estou de volta e on-line...

Mais precisamente, voltei para Ribeirão Preto. Boa cidade do interior do Estado, que é a maior referência e o centro de uma região composta por 82 municípios e uma população total de quase 2 milhões de habitantes.

Dentre os muitos adjetivos e menções que a região e Ribeirão Preto merecem; que passam por uma das maiores rendas per capita do país, o famoso Chopp do Pingüim, o teatro Pedro II; ela vem fazendo parte dos noticiários mais recentes pela sua pujança no setor da agricultura, principalmente a agricultura de cana-de-açúcar.

E aproveitando a mudança de ares e de ambiente, resolvi esmiuçar um pouco aos acontecimentos mais recentes que envolvem o chamado, ouro verde, como ela é “docemente” denominada por aqui.

São hoje cerca, de 34 usinas, 11 destilarias, mais de 300 indústrias de equipamentos agroindustriais instaladas e funcionando na região, representando 35% da produção nacional de açúcar, álcool anidro (aditivo para a gasolina) e álcool hidratado para os mercados interno e externo. Nada mais, nada menos, do que a maior produção do Mundo.

Ampliando um pouco mais essa ambígua e incerta situação relativa ao crescimento do setor sucroalcoleiro no Brasil, temos hoje 334 usinas instaladas e 58 em processo de instalação. Dessas 58 unidades, 46 só na região Sudeste, sendo que 16 já entram em funcionamento na safra de 2007.

A estimativa, segundo a Única (União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo), é produzir 20 bilhões de litros de álcool até 2010, em conseqüência do aumento do consumo de veículos bi-combustível. A produção brasileira atual alcança algo em torno de 14 bilhões de litros/ano.

Para se pensar em aumento de produção, tem que se pensar, logicamente, em aumento das áreas de plantio. Essa é uma questão que ainda tem opiniões divergentes quando especialistas tocam no assunto. Alguns estudiosos dizem que temos cerca de 320 milhões de hectares disponíveis para agricultura no território brasileiro. Dizem ainda, que dentro da área total de 850 milhões de hectares, somente 90 milhões estão sendo utilizados para as atividades produtivas do campo. Portanto, poderíamos expandir (triplicar) a atividade sem riscos aparentes a biomas como o Pantanal e o Cerrado. Até ai, parece estar tudo quase mais ou menos em ordem...

Os acordos financeiros e a constante procura pelo álcool e as beneficies de um combustível de origem não fóssil e menos impactante ao aquecimento global existem de todos os lados, com novos mercados pipocando no cenário mundial, como Alemanha, Japão, Índia (que já vem importando anualmente, em média, 400 milhões de litros), atraindo a atenção até dos nossos queridos colegas Yankess, que nesses últimos dias mandaram o seu amado presidente George W. Bush para uma visitinha e um bate-papo de negócios com o Sr. Lula da Silva.

Mas e aí" De novo vamos jogar nossas fichas de desenvolvimento numa monocultura" Alguém se lembra do famoso e falecido Pró-álcool"

Não discuto o desenvolvimento, a criação de empregos, mas será que temos realmente acesso a todas as informações, ciência e consciência do estrago ambiental, das perdas e impactos já existentes" Ao que parece não muita. Pelo menos é o que diz o levantamento “Despoluindo Incertezas:

Impactos Locais da Expansão das Monoculturas Energéticas no Brasil e Replicabilidade de Modelos Sustentáveis de Produção e Uso de Biocombustíveis”

, apresentado no último mês de fevereiro pelos pesquisadores

Wendell Ficher Teixeira Assis e Marcos Cristiano Zucarelli, com coordenação de Lúcia Ortiz.

Dentro de toda essa história, das idéias e da propaganda benéfica criada e relacionada com a produção de biocombustíveis e por formas de energias mais limpas, talvez estejamos nos descuidando dos impactos ambientais, naturais e sociais causados pela profunda alteração a que diversas regiões brasileiras vêm sendo submetidas. Desmatamentos, pressão sobre ecossistemas, competição com áreas de plantio de alimentos, deslocamentos de populações indígenas e rurais são algumas das coisas citadas no relatório.

Incertezas e preocupações a parte temos que estar sempre atentos.

E como se diz aqui no interior: “cada um precisa saber onde o calo aperta mais”. Falando sobre minha nova cidade (não tão nova, pois nasci aqui a 30 e tantas primaveras atrás), Ribeirão Preto: com todo o desenvolvimento e força econômica trazida pela agricultura e atividades relacionadas à cana-de-açúcar para Ribeirão Preto, os últimos levantamentos realizados nas áreas sociais pela Prefeitura do município, indicam um aumento de 50% nas populações e no número de favelas na cidade.

As queimadas e suas inúmeras conseqüências, como emissão de gases, morte de animais, aumento de temperatura (localmente), sem falar nos problemas de saúde causados principalmente em crianças e idosos, incomodam a todos sem exceção.

Hoje a matéria de capa do Jornal A Cidade, um dos mais tradicionais daqui da terra do chopp, é sobre uma possível alteração nos prazos/limites da legislação paulista que rege a queimada da cana no campo. Estão considerando o prazo estipulado pela lei estadual 11.241 para que não ocorram mais queimadas, um tanto quanto meio longe: 2031.

Parece mesmo longe, não parece"

Espero que até lá o Pingüim esteja a todo vapor e que a principal pedida seja o chopp, não a garapa... Imagina"

Abraços e até a próxima!!

___________________
Guto Bertagnolli é biólogo/guia naturalista, fotógrafo de natureza e especialista em ecoturismo. Atualmente vive em Ribeirão Preto, mas vive viajando para trabalhar no Pantanal e em Bonito, no Estado do Mato Grosso do Sul.

Site:

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