Dia mundial do Meio Ambiente - Comemorar o que?

Ambientalistas de todo o planeta se preparam para as comemorações – ou manifestações – de 5 de junho, dia mundial do Meio Ambiente. Na data estabelecida pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em comemoração ao primeiro grande encon

  
  

Ambientalistas de todo o planeta se preparam para as comemorações – ou manifestações – de 5 de junho, dia mundial do Meio Ambiente. Na data estabelecida pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em comemoração ao primeiro grande encontro internacional dedicado à temática ambiental, a Conferência de Estocolmo de 1972, Gaia não tem muito o que festejar.

Gaia não tem motivos para comemorar

Gaia não tem motivos para comemorar

A mãe terra está sendo tratada como uma mulher objeto contemporânea, assumindo uma estética forçada e duvidosa. Sua cobertura vegetal nativa está sendo arrancada como pêlos indesejáveis, suas formas remodeladas na busca de uma perfeição artificial, e até os calores da menopausa estão chegando antes do tempo, forçados pela incessante emissão de gases poluentes na atmosfera, em nome do des/envolvimento de seu filho pródigo.

Poluição hídrica na região sul provocada pela indústria do carvão

Poluição hídrica na região sul provocada pela indústria do carvão
Foto: Tadeu Santos

Agora, enquanto o mundo político se reúne em Bonn, na Alemanha, para discutir alternativas limpas de energia, que aliviem um pouco a agonia Terrestre em sua enfisema terminal, o governo Lula regressa da China com boas novas: anunciou acordos para a construção de usinas termelétricas no sul do país, o que corresponde a um grande retrocesso do ponto de vista energético e ambiental.

`Há uma forte contradição no governo brasileiro entre o que se prega nos debates internacionais e o que se pratica no dia-a-dia. O Brasil vai a Bonn falar de modernidade, dizer que há novas maneiras de realizar o comércio no mundo e se auto-proclamar campeão das energias renováveis – mas no entanto, na calada da noite, anunciou a construção de uma usina a carvão mineral em Cachoeira do Sul (RS) e aventou com a possibilidade de retomada do programa nuclear brasileiro`, afirmou o coordenador da Campanha de Energia do Greenpeace, Sérgio Dialetachi.

Cenas do filme

Cenas do filme
Foto: Divulgação

O Brasil é conhecido mundialmente pelo até pouco tempo admirável setor energético, com um eficaz sistema de gestão integrada das usinas hidrelétricas e uso de tecnologia nacional. O governo Lula, após a desastrosa privatízação do setor energético pelo governo FHC, terminou de desmantelar esse sistema, um dos poucos que o país ainda tinha para se orgulhar. A privatização favoreceu também a corrupção e desestruturação do setor, que agora atua num sistema desorganizado de gestão, impondo preços injustos e desonestos ao consumidor. A exploração, como sempre, cai pro lado da população.

A opção pelas termelétricas mostra que os administradores do Brasil, mais uma vez, atropelam os reais interesses da nação e a responsabilidade do governo sobre a qualidade de vida e bem estar dos brasileiros, bem como seu compromisso com a conservação dos recursos naturais.

Hipocrisia de lá, ignorância de cá, e muitos dólares... Eis a eterna fórmula para satisfazer os interesses econômicos subjetivos e suspeitos que mantém os países em desenvolvimento no seu devido lugar, esgoto e mina de ouro das potências do 1º mundo. Todos estão carecas de saber o quanto o fóssil e poluente carvão está comprometendo os recursos hídricos, a Mata Atlântica, o solo e o ar nas regiões em que foi adotado.

Além do polêmico anúncio da construção da termelétrica no Rio Grande do Sul e da retomada das nucleares, outra questão compromete a participação da Ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff como representante da América latina e Caribe na Conferência Internacional de Energias Renováveis que inicia hoje em Bonn. Em reunião com diversas entidades ambientalistas, no dia 17 de maio, Dilma teria dito que o governo federal não tinha interesse em tocar termoelétricas a carvão e nem usinas nucleares. Depois da mentirinha, a ministra vai agora à Alemanha defender as hidrelétricas como alternativas de energia limpa, aptas a receber cerca de US$ 200 milhões em investimentos que o Bird – Banco Mundial, pretende destinar a energias renováveis.

Para os ambientalistas, as hidrelétricas também não se encaixam no conceito de `novas` fontes renováveis de energia, como a solar, a eólica (do vento), a biomassa, as marés e as pequenas centrais hidrelétricas (PCH). Embora sejam renováveis no sentido técnico - os rios não acabam, como o petróleo, - podem provocar vários problemas. `As grandes barragens feitas para gerar energia causam enormes impactos sociais e ambientais`, afirma Dialetachi. `Elas inundam grandes áreas, desalojando pessoas e causando mudanças microclimáticas.`

Em meio a todo esse contexto, é lançado mundialmente o hollywoodyano “O dia depois de amanhã”, alertando, sem abandonar os efeitos especiais e heroísmo típicos, sobre as possíveis catástrofes naturais que podem ocorrer em função do aquecimento global. Alguns afirmam que o filme seja uma alfinetada à recusa da ditadura Bush em ratificar a assinatura de Kyoto.

Mas, saindo da ficção da telona para o teatro da vida real, enquanto o mundo não acaba, somos obrigados a passar o dia do meio ambiente com um saquinho de pipoca na mão, assistindo a mais uma encenação concorrendo ao Oscar, da tragicomédia encenada pelos gestores das nações, em mais um encontro de cúpula pra Inglês ver.

Deixando o pessimismo realista (ou vice-versa) de lado, vamos aguardar os resultados que serão anunciados ao final da Conferência de Bonn, e os que não se comenta muito – a esses é que se deve dar atenção. Vamos esperar para ver se surtirão algum efeito nos dias depois de amanhã. Porque os resultados que se têm hoje das reuniões do passado, não animam a assistir a mais outro filme com o final previsível.

  
  

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