Economias ecologicamente sustentáveis

Os fundamentos da economia tiveram profundas raízes no pensamento filosófico no século XVI e XVII, onde podemos destacar, entre outros, René Descartes, Francis Bacon e Issac Newton, como os seus principais formuladores. O famoso pensamento de Descarte res

  
  

Os fundamentos da economia tiveram profundas raízes no pensamento filosófico no século XVI e XVII, onde podemos destacar, entre outros, René Descartes, Francis Bacon e Issac Newton, como os seus principais formuladores. O famoso pensamento de Descarte restringia o existir àquele que pensava( Penso logo existo). Aquele que não pensava não tinha vida e, portanto, podia ser destruído ou consumido, sem culpa, pelo homem.

Bacon defendia abertamente em seus pensamentos que o homem tinha que se aproveitar ao máximo da natureza, naquilo que lhe podíamos extrair em seu benefício. Quanto a Newton, devemos a ele toda a formulação matemática e física que determinou os conhecimentos sobre a teoria do equilíbrio, usada na economia, e que nos legou uma enorme dificuldade de lidar com situações de desequilíbrio e de mudanças.

Uma das primeiras correntes de pensamento econômico, a fisiocracia (primeira metade do século XVIII) dizia que: “Toda a riqueza emana da terra”. Todas as demais formas produtivas não ligadas à terra, industria e comércio, são estéreis, em nada contribuindo para a riqueza humana. Esta talvez tenha sido também o ultimo reconhecimento do pensamento econômico quanto à importância da natureza para a construção dos valores humanos.

Foi Adam Smith, e sua “mão invisível”, quem sintetizou todas essas influências filosóficas, humanistas, das ciências exatas e econômicas gerando o primeiro tratado sobre economia formalmente reconhecido como tal, “Uma investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”.

Era a economia do laissez faire em contraponto ao absolutismo monárquico, onde Smith defendia que a defesa dos interesses próprios geravam satisfação e lucro para os indivíduos e isso resultava em maior bem estar e riqueza para as nações.

Apesar de o título insinuar, não era prioridade de Smith em sua construção metodológica, aprofundar uma investigação sobre a Natureza sob o prisma ecológico.

Preocupava-se mais com a iniciativa do individuo, a organização da produção, a divisão do trabalho e a não intervenção do Estado. Era a natureza do homem que mais lhe importava.

A partir de então, o Homem se consolidou na crença de pertencer ao topo das cadeias econômica e ecológica, tratando-as de forma distintas, estruturando e valorizando processos de exploração e produção baseados unicamente em servir à produção das “necessidades” humanas, sem nenhuma preocupação ecológica ou de preservação ambiental.

É bem interessante que as noções de valor baseavam-se na escassez de produtos e no esforço de produção. Matérias outrora abundantes ou fáceis de serem obtidas como “ar” e “água” eram considerados sem qualquer valor econômico.

Evidentemente que as conseqüências não podiam ser mais nefastas para a natureza. Agora, a partir das evidências de nossas agressões ao meio ambiente, água e ar puro “entraram para o grupo dos bens economicamente preciosos”.

Com o requisito da escassez atendido, a água já tem um valor financeiro que deverá crescer no tempo e já não é mais exemplo nas universidades de “bens essenciais, mas de pouco valor econômico”. O ar puro, antes abundante e também economicamente irrelevante, apesar de essencial à vida e à saúde de nossos pulmões, também se torna cada vez mais escasso. Vender máscaras de ar já é um bom negócio em muitos paises. Logicamente, para investidores que enxergam o longo prazo, empresas que produzem ar puro poderão virar blue chips.

A atmosfera está cada vez mais sobrecarregada de gases que provocam o aquecimento da terra e elevação dos oceanos com riscos de vermos cidades costeiras serem invadidas pelas águas. As ilhas do Pacífico que o digam. Obrigado Nova Zelândia por aceitar acolher o povo de Tuvaru!

Estamos na iminência, nos próximos 50 anos, de esgotamento de importantes reservas minerais. Isto quer dizer que em apenas dois séculos ou 200 anos vamos conseguir acabar com o petróleo do planeta, o qual demorou alguns milhões de anos para se formar. Estes foram os resultados dos 250 anos decorridos do início da Revolução Industrial e do tratado de Adam Smith.

Vamos só citar algumas conseqüências do modelo de vida escolhido por nós seres humanos, por todos nós indistintamente, inclusive pela maioria de nós economistas, ecologistas e ambientalistas, sejam de ideologia de esquerda ou de direita.

A poluição aumentou 15%, nos últimos dez anos, apesar da Agenda 21 e das intenções do Protocolo de Kyoto e de todas as ações ambientalistas.

Os Estados Unidos, responsáveis por 1/3 das emissões recusa-se a assinar o protocolo de Kyoto. Este país tem 5% da população mundial e consome 25% dos recursos naturais, sua renda per capita é seis vezes maior do que a média mundial e com esse perfil ainda condena a distribuição de renda no Brasil. Será que o princípio da distribuição igualitária não vale para a distribuição de renda entre os paises, apenas dentro dos paises?

O modelo de vida que está dominando não comporta a sua universalização para toda a humanidade – seria aceitar a circulação de mais um bilhão de veículos a gasolina e a diesel; a valorização de uma estrutura alimentar baseada em produtos gordurosos e contaminados por agro tóxicos, produzidos por processos de monocultura, prejudiciais à biodiversidade; consumimos cada vez mais remédios com sérios efeitos colaterais; produzimos uma quantidade considerável de lixo e aumentar o consumo, pelos padrões atuais, seria impraticável por falta de espaço para tanto aterro sanitário e lixão.

Se atribuirmos sómente à China e Índia, que somam 2,2 bilhões de habitantes, uma renda per capita, por exemplo, de US$10.000(quase um terço da renda dos americanos), o PIB anual seria da ordem de US$22,2 trilhões, mais de duas vezes o PIB americano. Será possível imaginar esses dois paises pensando igual aos Estados Unidos, emitindo um nível de gases poluentes duas vezes maior do que a dos americanos?

Se todos os paises do mundo conseguissem conquistar também uma renda per capita média de US$10.000, o PIB mundial seria de US$62 trilhões, seis vezes o PIB americano. Onde haveria recursos naturais para tanto? Quantos planetas TERRA seriam necessários para atender a essa demanda mundial.

Considerando-se uma necessidade de terra para produção de alimentos, na base de dois hectares por habitante, seriam necessários 124 milhões de KM2 só para produzir alimentos. Essa área equivale a mais de 50% da soma das áreas da América do Norte, América do Sul, Europa, Antiga USSR, China e Índia. Seremos um mundo cercado por áreas de monocultura intensiva e áreas de guarda de lixo de toda a espécie. Onde moraremos?

Cabe aqui uma pergunta: Como se dará o aproveitamento dos combustíveis fósseis quando sua escassez ameaçar a saúde das economias dos paises desenvolvidos? Haverá partilha justa? Não seria o caso de mudarmos a nossa matriz desde já, antes que essa ameaça de disputa possa acontecer? Não resta dúvidas de que pelo comportamento dos Estados Unidos, nos últimos anos, os paises em desenvolvimento serão cerceados na disputa pelos recursos.

Tenho dúvidas, se isto já não está acontecendo, pois o desempenho de paises de grande potencial como Brasil, China e Índia podem criar mudanças substantivas na terrível divisão dos recursos naturais e isso não interessa aos paises do primeiro mundo, em especial aos Estados Unidos.

Os países do Terceiro Mundo devem refletir bem se o “fracasso” da Rio+10 está relacionada a uma estratégia dos países desenvolvidos de “ganhar tempo”, enquanto não dominam plenamente a nova tecnologia para energias renováveis, geração de transporte limpo e produção de alimentos orgânicos.

Quando domínio tecnológico amadurecer poderemos ser pressionados à adoção dessas novas tecnologias, pois assim permaneceremos presos ao padrão histórico de exportação de produtos de baixo valor agregado, importação de equipamentos de alto valor agregado, domínio sobre os recursos minerais estratégicos.

Autoria: Eduardo Werneck Ribeiro de Carvalho – Economista, Diretor da ONG Pensamento Ecológico.

Del Valle Editoria
Contato: vininha@vininha.com

  
  

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Antonioni Jatobá Bezerra Tinôco

Antonioni Jatobá Bezerra Tinôco

28/01/2009 16:25:07
Não tenho nem palavras para esse artigo. ÓÒÒÒÒÒtimo!