Energia nuclear ou vida?

Por Arthur Soffiati * Há quem diga que a tecnologia é neutra, servindo para fins benéficos ou maléficos. Do ponto de vista cultural, nenhuma tecnologia é neutra.A máquina a vapor de Watt,a locomotiva de Stephen, o automóvel de Ford têm a cara do ociden

  
  

Por Arthur Soffiati *

Há quem diga que a tecnologia é neutra, servindo para fins benéficos ou maléficos. Do ponto de vista cultural, nenhuma tecnologia é neutra.A máquina a vapor de Watt,a locomotiva de Stephen, o automóvel de Ford têm a cara do ocidente, assim como a tacla (pá com um apoio transversal ao cabo para pressão do pé) tem a cara da civilização andina pré-colombiana.

Quanto ao aspecto ético, se a tecnologia serve para o bem ou para o mal,dependendo das intenções de que a emprega, é de se perguntar para que servem um avião bombardeiro, um carro de combate, um fuzil AR-15, mísseis de longo alcance, um canhão, uma bomba atômica senão para fazer a guerra, para a destruição de pessoas, de animais, de lavouras e de casas.

Dizem também que a poluição deriva de matéria e energia fora de lugar. Assim, os rejeitos da produção de álcool podem se constituir num poderoso poluente se atirados em rios,canais e lagoas,mas um excelente fertilizante quando adequadamente aplicados à agricultura.

Se esta assertiva é válida para todos os casos, é de se indagar qual o lugar correto para colocar a fumaça oriunda da queima de florestas e de combustíveis fósseis. Onde fica o local certo para depositar o lixo produzido pelas centrais e por outras atividades nucleares?

A usina nuclear de Angra II entrou em operação sem que os problemas de segurança e de disposição de resíduos de Angra I tenham sido resolvidos.

A Eletronuclear, empresa responsável pela operação do complexo de Angra dos Reis,mantém um depósito provisório com 2,1 mil toneladas de lixo atômico de média e baixa atividade nas dependências do próprio complexo e um outro com 92 toneladas de lixo de alta atividade (césio 137, xenônio, plutônio e urânio) na Usina de Angra I. Trata-se de elementos com vida média de cerca de 35 mil anos.

Reclama-se que, há anos, o poder legislativo discute o destino do lixo nuclear sem chegar a uma solução. O Brasil conhece muito bem a incompetência e o descrédito do Congresso Nacional e de outras casas legislativas, mas, no caso da energia nuclear, ele poderá passar outros doze ou 24 anos sem atinar com uma saída simplesmente porque não há saída.

Não existe lugar na superfície do planeta, no subsolo ou no espaço sideral apropriado para a implantação de um vazadouro, de um aterro sanitário ou de uma usina de reciclagem para lixo nuclear.

Acredita-se que o único depósito definitivo de rejeitos atômicos no Brasil fica em Abadia de Goiás, onde está condicionado o lixo produzido pelo acidente causado com o rompimento de uma cápsula de césio, em Goiânia.

Por mais seguro que ele seja, contudo, não existe risco zero. Aliás, em se tratando de energia nuclear, só se vislumbra uma possibilidade de risco zero: não fazer uso dela, pelo menos em dimensões de centrais geradoras de energia.

A própria usina, finda a sua vida útil(se é que se pode falar em utilidade neste assunto), transforma-se num grande foco potencial de contaminação. Ela própria, depois de produzir toneladas de lixo, também se transforma em lixo.

Em operação, por maior que seja a segurança, o perigo de um acidente sempre ronda a unidade e seu entorno em círculos concêntricos que podem atingir todo o planeta. Foi assim com Chernobil, exemplo de rumos equivocados seguidos pela humanidade.

Agora, antes mesmo que Angra II começasse a operar, já estava se discutindo o futuro de Angra III. O Brasil conta com tudo para ser o pioneiro de uma civilização ecologicamente sustentável, dispensando fonte de energia tão perigosa para a natureza.

  • Arthur Soffiati é Historiador e escritor com vários livros publicados, especialista em História Moderna e Contemporânea pela Universidade Católica de MG, Mestrado em História Ambiental pelo Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da UFRJ, Doutorando em História Ambiental pelo IFCS/ UFRJ e Professor da Universidade Federal Fluminense
  
  

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Wevertom

Wevertom

21/10/2009 20:14:26
Bom, me ajudou muito,tinha varias duvidas e foram esclarecidas.

Camillo

Camillo

10/09/2008 10:27:58
Concordo com o fato do lixo nuclear ser um problema bastante grande. algo que persiste por centenas de anos deve ser tratadocom muito respeito. por outro lado outras fontes de energia também tem seus problemas, e que por mais que se implemente soluções sempre temos resíduos. Mesmo as geradoras hidrelétricas estão mostrando algumas facetas antes desconhecidas e causando danos ambientais bastante complexos.
Devemos, sem dúvida, procurar por alternativas e nisso acredito que existe a possibilidade da energia nuclear ser cogitada. Pois é o único meio das pesquisas avançarem e, quem sabe, em pouscos anos tenhamos descoberto um meio de usar a fusão e não a fissão nuclear, que produz bem menos rejeitos radioativos.