Mudanças climáticas na agenda político-econômica mundial

Por Sergio de Albuquerque e Mello As mudanças climáticas oriundas de atividades do ser humano sobre o planeta já não são mais objeto de viva discórdia no meio acadêmico e subiram um degrau na escala de prioridades das nações mais desenvolvidas. Todo

  
  

Por Sergio de Albuquerque e Mello

As mudanças climáticas oriundas de atividades do ser humano sobre o planeta já não são mais objeto de viva discórdia no meio acadêmico e subiram um degrau na escala de prioridades das nações mais desenvolvidas. Todo o propalado fracasso da conferência de cúpula de Johannesburgo traduz a ansiedade da comunidade mundial e a necessidade de que a constatação científica transforme-se em ação política e comece a produzir resultados concretos o quanto antes.

Apesar da reticência do governo russo em ratificar o protocolo de Kyoto, o que é visto no cenário internacional como uma mera protelação para negociar em melhores condições sua participação no mercado de créditos de carbono, sua entrada é tida como certa. Isto se deve ao fato de que a Rússia tem a ganhar perto de R$ 10 bilhões com todos os créditos que pode gerar. Como seus níveis de emissão são, hoje, inferiores aos níveis a que se obrigou no texto do protocolo, qualquer redução vira crédito comercializável.

Vamos lembrar que a Rússia tem atualmente emissões muito menores que as de 1990 e essa diferença é, em princípio, comercializável como créditos de carbono. Além disso, como há enormes oportunidades de redução em um parque industrial que está perto da obsolescência completa, a Rússia vai tirar duplo proveito do protocolo pelo surgimento de mecanismos que financiam sua modernização, além de gerar as receitas pela redução de emissões.

Portanto o cenário da ratificação russa e a conseqüente entrada em vigor do protocolo são mais do que plausíveis. Aliás, a importância da adesão da Rússia é tão grande que permite negociações muito maiores no contexto das discussões sobre o protocolo de Kyoto.

Mesmo não ocorrendo a entrada em vigor de Kyoto, haverá uma grande mobilização pela redução das emissões dos gases que provocam o efeito estufa. A União Européia, de forma unilateral, decidiu que o protocolo estará em vigor para seus países membros a partir de janeiro de 2004, criando desde já um enorme espaço para comercialização de créditos de carbono com países de todo o mundo, posto que uma redução de emissão tem efeito sobre o clima global onde quer que ela aconteça (assim é em teoria e esta é a posição aceita por todos).

Outros países estão adotando regulamentações nacionais e até organismos privados estão se mobilizando para intermediarem compradores e vendedores em qualquer parte do globo. Instituições como o DJSI (Dow Jones Sustainability Index) põem grande ênfase sobre a redução de emissões em suas avaliações de empresas.

Este é o pano de fundo para o trabalho que a ISO (International Organization for Standardization) está desenvolvendo sobre mudanças climáticas no seio do seu TC 207, o responsável pela edição das normas da série ISO 14000. Tendo-se em mente que praticamente todas as iniciativas para a redução de emissão de gases do efeito estufa têm que se basear em sistemas que irão inventariar, contabilizar, registrar e acompanhar os reais níveis de emissões, seja para projetos específicos, seja para entidades como um todo, há uma necessidade premente de uma norma internacional para regular esta matéria.

Observando esta carência a ISO deliberou que deveria produzir tal norma, trabalho este que começou em Berlim, em novembro do ano passado, e segue acelerado com reuniões este ano e ainda em 2004. A norma deverá ter uma numeração derivada da série 14000, provavelmente 14064, como anunciam os documentos de trabalho ora em estudo.

Esta norma permitirá que empresas, países, organizações e intermediários “falem a mesma língua” quando estiverem negociando seus créditos de carbono. O Brasil participa de sua elaboração com a presença de um especialista à frente de um dos grupos de trabalho, delegado pelo CB-38 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Esse mesmo profissional também acompanhará a edição final do texto.

Mesmo não sendo um grande gerador de créditos de carbono em potencial, há uma área em que o Brasil poderia beneficiar-se e muito: o balanço do impacto ambiental na cadeia de produção de bens e serviços, atestado por selos de certificação ambiental. Como temos uma matriz energética “limpa”, a normalização da contabilidade da emissão de gases do efeito estufa pode, trazendo esta vantagem à tona, transformar-se em um novo “petróleo” para nosso comércio internacional.

Quem se posicionar corretamente agora pode gerar grande valor para a sustentabilidade de sua companhia, assim como comprar “títulos” promissores, a preços de pré-lançamento. Só o futuro e as bolas de cristal de praxe poderão dizer o quanto valerá o posicionamento estratégico adotado hoje com vistas a enfrentar um “carbon constrained world”, como definido pelo próprio presidente dos EUA em um discurso recente.

O grande risco é da humanidade. As grandes oportunidades serão dos que souberem dosar sua caminhada pela trilha da inovação e do compromisso com um modelo de desenvolvimento sustentável, como ansiado por toda a comunidade global.

Sergio de Albuquerque e Mello é diretor geral do Grupo Bureau Veritas para o Brasil.

  
  

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