Nossa Hora Final

Comentários de Dennis Overbye (editor científico do The New York Times, estudou Física no MIT) sobre o livro: “OUR FINAL HOUR” (NOSSA HORA FINAL) de autoria de Martim Rees, professor da Cambridge University e membro laureado da Britain’s Astronomer Royal.

  
  

Comentários de Dennis Overbye (editor científico do The New York Times, estudou Física no MIT) sobre o livro: “OUR FINAL HOUR” (NOSSA HORA FINAL) de autoria de Martim Rees, professor da Cambridge University e membro laureado da Britain’s Astronomer Royal.

Tradução e Interpretação de Cylene Dantas da Gama*, diretamente do Book Review Desk, do The New York Times.

A ADVERTÊNCIA DE UM CIENTISTA: Como o Terror, Erro e Desastres Ambientais ameaçam o futuro da humanidade neste século – na Terra e além.

Martim Rees, membro da Britain’s Astronomer Royal, professor da Universidade de Cambridge, um dos mais brilhantes cosmólogos e defensor antigo do controle de armas, preconiza que a civilização como a conhecemos hoje dispõe de apenas 50% de chance de sobreviver até o fim do século XXI. A proposta embutida no “Nossa Hora Final”, um recital vivaz de um jogador de poker expondo as formas possíveis pelas quais o céu pode desabar sobre nossas cabeças, um tanto quanto deprimente. Rees disse que seu agente teve dificuldades para colocar o livro no mercado.

Mas isto foi antes de 11 de setembro.

Rees afirma que as escolhas que fizermos nas próximas décadas podem decidir o destino da Vida não só da Terra, mas além dela - ou nos asseguramos de sua sobrevivência, podemos diversificá-la no espaço - ou a condenamos para sempre.

“Na realidade não se trata de uma hipérbole absurda e pode mesmo não ser uma afirmativa exagerada – estabelecer que a localização mais crucial em espaço e tempo (excetuando-se o próprio Big Bang) poderia ser aqui e agora” , ele aduz.

Os avanços da Engenharia podem nos levar a criação de nanopartículas inteligentes e auto-reproduzíveis que podem nos engolir e também a todos os seres vivos da terra, reduzindo a biosfera ao que Eric Drexler, um dos pioneiros da nanotecnologia chama de “gray goo”* ,tópico de um recente filme de horror, “Prey”, por Michael Crichton.

Rees nos diz que certos experimentos físicos podem ser ainda mais catastróficos. Em princípio podem perturbar o relacionamento espaço x tempo, alterando as leis da Física de forma imprevisível, como fazendo com que a água repentinamente se congele, ou destruir nossos átomos e tudo o mais. Desde que não temos a vivência de uma teoria de testes de batalha , sobre o que acontece em temperaturas muito, muito frias, nós teríamos toda a razão para nos preocuparmos quando uma barra de metal – parte de um aparato para detectar ondas gravitacionais, ondulações de espaço- tempo previstas por Einstein na Teoria Geral da Relatividade – foi recentemente resfriada a zero quase absoluto, tornando-se o que Peter Michelson da Universidade de Stanford denominou “o maior e mais frio objeto no universo”.

Num livro cujas influências vão de cientistas de ficção cientifica, como H.G. Wells, Kurt Vonegut e mesmo Tom Clancy ,até cientistas modernos, Rees arremessa no caldeirão toda e qualquer possível calamidade – algumas factíveis, outras nem tanto. O ponto não reside no fato de qualquer um desses desastres em particular vir a ocorrer, mas que possa vir a ocorrer. E Rees sugere que os cientistas algumas vezes parecem mais interessados em relações públicas do que se alinharem com o resto da humanidade para enfrentar possibilidades de risco.

Rees argumenta que Humanidade progrediu ao ponto que nos tornarmos nossos próprios e piores inimigos, adicionando-se ao fundo de palco das calamidades naturais que sempre nos ameaçaram, temos a tecnologia,agora tão fortemente alavancada pelo poder de um único indivíduo ou de um pequeno grupo possibilitando o aparecimento de um unabomber biológico ou enganos de laboratório, que poderiam causar devastações antecipadas pelos Strangeloves ( personagem de Stanley Kubrik) do século passado , que detinham em prontidão as forças do apocalipse nuclear, em cenários de jogos de guerra, assegurando ameaças mútuas de destruição. Aliás, ele afirma apostar mil dólares que determinada circunstância de bioterrorismo ou bio-erro levará a aniquilação de milhões de vidas antes do ano 2020.

Rees afirma que há muitas coisas com o que se preocupar , e muitas delas serão familiares a todos: o aquecimento global, impacto de asteróides, e aquele velho fantasma da guerra nuclear , transfigurado ao fim da guerra fria – o colapso da União Soviética que deixou o mundo flutuando em superfície de matéria prima , urânio enriquecido e plutônio , quantidade suficiente para umas 70.000 bombas.

Avanços da engenharia podem nos levar a criação de nanopartículas inteligentes a auto-reprodutivas que podem nos engolir e a qualquer outro ser vivente na Terra, reduzindo a biosfera ao que Eric Drexler, um dos pioneiros da nanotecnologia , denomina “gray goo”* , tema de um recente filme de terror “Prey”, por Michael Crichton.

Certos experimentos físicos podem ser ainda mais catastróficos, reporta Rees. Em principio eles poderiam modificar a própria relação espaço x tempo, fazendo com que as leis da física assumissem novas formas , como por exemplo fazendo com que a água se congelasse repentinamente, destruindo nossos átomos e tudo o mais. Uma vez que nos falta o “teste de batalha “da teoria sobre o que acontece em temperaturas muito, muito baixas , diz ele, nós estaríamos corretos ao nos preocuparmos quando uma barra de metal - parte de aparato para detectar ondas gravitacionais (ondulações de espaço-tempo previstas por Einstein na sua teoria geral da relatividade ) foi recentemente resfriada a quase zero absoluto, constituindo-se no que Peter Michelson da Universidade de Stanford chamou de “o maior e mais frio objeto no universo “.

Num livro cujas influências vão de escritores de ficção cientifica , como H.G. Wells, Kurt Vonegut e mesmo Tom Clancy , até os cientistas contemporâneos , Rees arremessa dentro de um mesmo caldeirão toda e qualquer possível calamidade – algumas factíveis, outras nem tanto. O ponto não está em qualquer um desses desastres em particular vir a nos atingir, mas que alguma coisa possa. E ele sugere que cientistas algumas vezes estão mais interessados em relações públicas do que verdadeiramente se posicionarem com o resto de nós quanto aos desafios que temos que enfrentar.

Peguemos a guerra fria por exemplo, Rees acha que a disputa armamentista não valia o risco, disputa esta que ele diz , foi amplamente estimulada por cientistas fazendo seu trabalho de melhorar tecnologia de armas e assim tomar a liderança em relação ao oponente. Ele cita Presidente Kennedy afirmando que as chances de uma guerra nuclear durante a crise dos mísseis em Cuba , e ra de uma em três , e empate. E Rees cita Robert Mc Namara , Secretario de Defesa de Kennedy, afirmando que o risco era substancialmente maior que um em seis., durante a guerra fria. Em outras palavras, pior que uma roleta russa. Se o público tivesse sabido dos riscos, teriam dado seqüência ao jogo? Rees acrescenta “Eu pessoalmente não optaria por um risco de desastre um para seis , ciente que isto poderia aniquilar centenas de milhões e provocar a ruptura física de nossas cidades, mesmo que a alternativa fosse a certeza da supremacia soviética sobre a Europa Ocidental.

Antes do primeiro teste com bomba atômica, os cientistas dedicaram tempo para calcular se a explosão provocaria ignição do nitrogênio da atmosfera da Terra e se seríamos todos incinerados. O risco era baixo e o teste prosseguiu , mas Rees questiona quais teriam sido os resultados se tivesse sido necessário desencorajar os fabricantes da bomba.

Mais recentemente , os físicos do Laboratório Nacional Brookhaven calcularam as chances de um experimento planejado , onde os núcleos atômicos seriam acelerados para colidirem am altas velocidades, resultando em toda a matéria da terra entrar em colapso, em partículas exóticas e densas, denominadas “strangelets”, extinguindo a vida entre outras coisas. O risco calculado foi de um em cinqüenta milhões . Parecia bom e o experimento começou ,sem nenhuma tragédia , mas Rees não aceitou isto confortavelmente, lembrando que os resultados dos cálculos podem também ser expressos comparativamente dizendo que 120 pessoas poderiam morrer por causa do experimento. Nem o mais ambicioso dos físicos apoiaria pagar tal preço por um conhecimento cientifico.

Os cálculos e decisões correlacionados a uma possível extinção ficam ainda mais complicados se vidas fetais estiverem igualmente incluídas.

Em tais casos, diz Rees, a Ciência é importante demais para ser deixada nas mãos de especialistas que querem levar o experimento a efeito. Não basta que se faça uma estimativa apressada de que mesmo a menor das possibilidades possa arriscar a destruição do mundo. Rees apóia a sugestão do físico italiano Francesco Colagero, da Universidade de Roma , que equipes externas , em vermelho e azul, tragam o debate dos riscos experimentais a público. Rees considera brilhante um momento paralelo, na conferência de 1975 em Asilomar na Califórnia, quando os geneticistas concordaram em postergar experimentos com DNA recombinante até que pudessem estar certos que isto não resultaria em organismos mortais.

Certamente estamos cientes que os cientistas de hoje não tem a última palavra sobre com que trabalhos ou experimentos se envolverão., delegada esta aos pagadores, governo ou indústria.

Rees que clama por maior responsabilidade para com o publico confronta com alguns de seus colegas preocupados com a interferência política na pesquisa. Erica Goode recentemente reportou neste jornal (The New York Times) que os pesquisadores da AIDS foram aconselhados a evitar termos como ” gay” ou “trabalhador sexual” em propostas para subsídios , pois que atrairiam atenção indesejada a partir dos ideólogos da administração Bush ou do Congresso.

Felizmente – ou infelizmente para o aspecto polemico de sua carreira – Rees ‘’e um cientista demasiado bom para se contentar com apenas uma versão da história. Ele insiste em detalhar as objeções aos seus próprios argumentos. Como resultado nunca se sabe até onde ela vai com alguns tópicos. Por exemplo, ele começa uma discussão sobre o crescimento populacional com a novidade que seriam necessários os recursos de 3 planetas Terra para manter os 8 bilhões de pessoas que deverão estar habitando o planeta em 2050. Mas então ele conclui que a população devera decrescer a partir daí, e que em um século a partir de agora poderá ser menor que hoje. Então ficamos sem saber se teremos uma explosão da população a longo prazo ou não.

O livro de Rees torna-se mais vibrante nos últimos 5 capítulos quando ele faz re- conexão com a cosmologia, sua própria especialidade, e confronta o que a extinção da humanidade significaria para o universo. A Cosmologia já foi a mais insensível das ciências. Qualquer que seja a grandeza que possa vir a ser encontrada no imenso giro das galáxias , qualquer que possa ser a elegância encontrada na urdidura de Einstein quanto à solidão negra onde elas flutuam, ainda assim é uma grandeza extremamente fria, elegância adquirida e desprovida de conforto na melhor das alternativas, para a maioria de nós. Recentemente, entretanto, os cosmologistas concluíram que o universo e a vida que o habita, são partes integrantes de um mesmo todo. A Vida como a conhecemos parece lastreada num miraculoso e improvável arranjo de valores numéricos de algumas poucas constantes atômicas .

Os cosmologistas admitem não saber o que fazer. E se a Vida for apenas um feliz acaso? Existem zilhões de universos para escolhermos? O que é a Vida entretanto? Há argumentos imaginativos e impressionantes sustentando que os humanos estão sós no universo, e há contra argumentos igualmente impressionantes sustentando a ubiqüidade da Vida . Argumentos equilibrados.

Os humanos são adição recente ao cosmos. Se pudéssemos comprimir em um ano a vida estimada do sol – 10 bilhões de anos – Rees argumenta, toda a História já registrada se reduziria a menos de um minuto, e todo o século XX a um terço de segundo. O que se assume, e não é expressado atrás desta exposição, claro, é que estamos apenas na inicial da partida, fatos mais poderosos ainda estão por vir. Mas, pode ser que – sugere Rees – que o futuro da humanidade constitua uma teia tão fina quanto o passado. Se estamos sós no universo, se sobrevivemos ou não , determinará se existe um ponto para o restante da história cósmica. Não fazermos nada, não é uma opção, diz Rees. Por volta de dois bilhões de anos o aquecimento solar e o efeito estufa tornarão a terra quente demais, exceto para os micróbios, e em pouco mais de dois bilhões de anos o planeta estará torrado como escumalha de cinzas vulcânicas nos espasmos de agonia do Sol. A resposta está o espaço. Uma vez que os humanos tenham estabelecido residência ou colônias em planetas diversos, menos será a chance de uma catástrofe única – seja esta uma praga ou um asteróide que possa nos dizimar a todos ( embora haja uma grande probabilidade das espécies se diversificarem geneticamente ).

Mas a NASA está fazendo tudo errado, diz Rees ( ele escreveu o livro antes do acidente com o Columbia em fevereiro) O programa espacial precisa de nova tecnologia e de um novo estilo. Ao invés de ser um programa quase que totalmente militarizado deveria constituir mais um província de aventureiros milionários prontos para aceitar os altos riscos e satisfação de se buscar por novas fronteiras , divergindo das corridas de yate ou balonismo. Uma colônia na Lua, ou uma viagem a Marte constituiriam empenhos para pessoas como Bill Gates ou Larry Ellison, ele conjectura.

Nada é para sempre, talvez nem mesmo o universo, mas tais ações podem nos dar uma chance. “Muito antes de o Sol lamber o que restar da superfície árida da terra , uma temática variada da vida e artefatos poderia ter sido espalhada além do planeta original - desde que tenhamos iniciado o processo antes que a catástrofe irreversível comece, conclui Rees. Depois de fazer este passeio com Rees pelos caminhos sombrios da morte ,e eu ficaria muito agradecido por qualquer boa noticia.

Cylene Dantas da Gama é Gestora Operacional do Instituto Serrano Neves. Ela cursou pós-graduação em História e Política da América Latina , em Massachussetts nos Estados Unidos. Foi oficialmente distinguida como Cidadã Honorária do Estado da Florida ( Estados Unidos) por serviços voluntariados prestados. É membro da International Society for Ecological Economics , entidade destinada a promover a integração de modelos eco-econômicos para gerenciar biodiversidade. É co-fundadora da ONG Mantiqueiraviva envolvida com a preservação do Maciço da Mantiqueira , no Brasil. É também filiada ao movimento internacional Mulheres Diversas pela Diversidade, liderado pela mundialmente conhecida eco-cientista Dra. Vandana Shiva. Cylene vem ativamente patrocinando a luta para incluir Mulheres Brasileiras num contexto maior de ação e cidadania. Cylene é tradutora e interprete simultânea (www.iconet.com.br/cylene).

  
  

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