Nossa Hora Inicial

Contraponto de NOSSA HORA FINAL de Martim Rees, por Serrano Neves Escrevi “Paralelo 666 - O Reverso do Apocalipse” pouco antes de o século XX findar. Escrevi com o propósito de alertar o povo brasileiro para a construção da sociedade livre, justa e so

  
  

Contraponto de NOSSA HORA FINAL de Martim Rees, por Serrano Neves

Escrevi “Paralelo 666 - O Reverso do Apocalipse” pouco antes de o século XX findar. Escrevi com o propósito de alertar o povo brasileiro para a construção da sociedade livre, justa e solidária, através do exercício direto do poder conforme as previsões da Constituição da República.

Minha visão do apocalipse social se baseava na degradação das instituições. Lenta degradação produzida pela falta de preparo de uns, omissão de outros e desencanto e desesperança de muitos.

A sociedade brasileira, mesmo que mantidos os níveis atuais de bens, serviços e ambiente, tende para a “hora final” em proporção geométrica, vez que os sistemas formadores vem deixando de preparar as pessoas para enfrentarem o futuro.

A capacidade dos indivíduos, na sua maior parte, desfrutarem dos avanços tecnológicos e de outras formas de bem estar disponíveis depende de que a geração atual forme a próxima geração projetando o futuro sobre a base atual de conhecimentos. Quando a geração atual sonega essa projeção, ou é incapaz de fazê-la, a geração futura fica no passado, não chegando mesmo ao nível do conhecimento atual e, quando essa nova geração, no futuro, repetir o processo, a geração por ela formada estará um degrau a mais para baixo.

A tendência para a “hora final” se apresenta em todos os aspectos da vida sobre o planeta, seja no sistema de ensino que prepara analfabetos funcionais; seja no caos das megalópoles; seja na violência crescente; seja, mortalmente, na degradação ambiental pelo uso dos recursos da natureza em quantidade muito acima da capacidade de recomposição ou reciclo.

A voracidade no consumo de recursos tem muitas explicações possíveis: o crescimento populacional sem controle, os ciclos políticos, a dominação econômica, e tantas quantas que será difícil chegar no fato de que os baixos níveis de informação e de conhecimento, e estranhas formas de obter vantagens imediatas transformam tanto o capitalista bem informado quanto o pobre mal informado em consumidores inconseqüentes dos recursos naturais.

O planeta Terra, com certeza terá sua “hora final” como qualquer outro corpo celeste que cumpra o seu ciclo. Buracos negros serão supernovas e vice-versa, nessa universal dança cósmica de construir e destruir estrelas. No entanto, nada nesse Universo desconhecido acontece mais depressa do que deveria acontecer, ou mais devagar do que deveria ser.

As formas de degradação que vêm surpreendendo - e assustando - os mais atentos são, para os também atentos apreciadores, como uma luta de “box” na qual, já no primeiro round um dos lutadores bambeia as pernas: com certeza, se o predominante continuar a bater forte a luta acabará mais cedo.

Mesmo na disputa onde se espera um vencedor existe a expectativa de uma duração máxima que proporcione um máximo desfrute do espetáculo.

A Humanidade está batendo forte demais no Planeta. O nocaute parece próximo, próximo demais para que não pensemos que a vitória da Humanidade não poderá ser comemorada com o planeta derrubado na lona.

Ao fim de alguns inimagináveis milhões de anos tudo isto aqui acabará. Tanto acabará o Planeta no fim do seu ciclo como a Humanidade - na sua atual expressão - necessariamente deverá acabar, pois existe um limite na evolução de um sistema finito. A nova forma de expressão dos atuais viventes precisará, imagine-se, de um novo eco-sistema capaz de abrigar corpos que se alimentam de energia pura tal qual lâmpadas e mentes inteligentes que se comunicam como telefones celulares.

Nesse “admirável mundo novo” não existirá lugar para bifes e alfaces, para doenças e remédios, nem para ódio ou guerra e, mesmo que desejemos que exista o beijo na boca e os abraços, o Amor poderá ser um simples zit-zit no acoplamento de dois cartões magneto-sexuais.

Não sei se estarei lá nesse novo mundo nem se ele será bom e me fará feliz, pois tenho a sensação que ainda não desfrutei de tudo, ou de tudo ainda não desfrutei o bastante, nesse mundo de agora, e já me assusto quando penso que meu atual bife pode estar me envenenando ou que o verde da alface pode ser “green” químico poluente.

Mais do que assustado fico aterrorizado em pensar que o veneno do bife e a química da alface são coisas chamadas de “inteligentes” e justificadas pelas leis de demanda e finanças.

O vizinho aqui da direita me disse que é preciso produzir mais porque o número de consumidores está aumentando e dou razão a ele: não só está aumentando o número de consumidores, como está aumentando o número de miseráveis, doentes, infelizes, e de pessoas que se enriquecem às custas dessa “inteligência” justificada.

... enquanto isto, debaixo de nossos pés, perto ou longe dos nossos olhos, o Planeta está diminuindo ou, diria com mais ênfase: o Planeta está sendo comido.
Uma pessoa, individualmente, tem o direito de escolher entre sobreviver com um ovo por dia ou morrer de fome depois de banquetear-se com a galinha, diga-se, com a própria galinha.

O `terrivelmente` inteligente é que existem pessoas banqueteando-se com as galinhas dos outros e guardando os ovos das suas próprias.

O vizinho aqui da esquerda me disse que a solução está na distribuição de renda e dou razão a ele: os rendimentos da natureza não estão sendo bem distribuídos, e na verdade nem poderiam ser distribuídos para todos.

Imaginemos que a China tivesse se desenvolvido como se desenvolveram os Estados Unidos e atribuamos um veículo para cada família chinesa. Pronto: meio bilhão de veículos cujos tanques abrigariam razoáveis vinte bilhões de litros de combustível e o petróleo já teria acabado anteontem.

O vizinho do centro me disse que bastaria mudar parte da Humanidade para outro planeta e dou razão para ele: com certeza, portadora da cultura de consumir rapidamente até acabar, a Humanidade ficaria conhecida no Cosmos como a Exterminadora do Universo, coisa que os cientistas da demanda e das finanças rebateriam com propriedade dizendo que, se o Universo é infinito então nunca acabará.

Com seiscentas baleias amojando! Exclamaria Barba Negra - como é que vou levar meu veleiro para Saturno! A Humanidade vem se tornando cada vez mais capaz de produzir utilidades, mas está já está pagando um alto preço pela ausência de razoabilidade, ou de previsão, em muitas dessas criações.

A invenção da água encanada exigiu a invenção do tratamento da água e do esgoto encanado porque à facilidade da pia e do tanque somou-se a do banheiro. Até ai nada de mais, até que o volume de esgoto exigiu a invenção do tratamento do esgoto e de alguma coisa para fazer com os resíduos do tratamento.

Bem, os astronautas bebem a própria urina “reciclada”, mas bebem as custas de milhões de contribuintes que pagam impostos, de modo que, se todos tiverem que beber urina reciclada, todos também deverão pagar impostos, e esse não é o quadro social que está visível no presente e nem previsto para o futuro, mostrando que os caminhos do crescimento tecnológicos têm custos que cada vez mais formam multidões de não participantes nos ganhos.

Nessa linha de raciocínio não é difícil concluir que um número cada vez menor de pessoas participantes deverá consumir mais recursos para gerar benefícios para um número cada vez maior de pessoas não participantes.

A coisa tem funcionado mais ou menos assim: imensa riqueza é gerada às custas da poluição do Rio Tietê e não existe riqueza suficiente para despoluir; coloca-se em funcionamento milhões de motores queimando petróleo e inventa-se o aviso de que o ar está impróprio para respirar. Os motores geram riquezas, mas não existe riqueza suficiente para instalar hospitais para cuidar dos pulmões de todos, então, o rico vai respirar ares suíços e o pobre ganha uma moradia transitória sete palmos abaixo da atmosfera.

Martin Rees tem razão, mas a hora final só chegará quando a fumaça dos motores chegar no topo dos Alpes suíços: os ricos serão os últimos a morrer.

Parece até discurso revolucionário mas não é, embora seja uma veemente contestação ao direito de alguns prorrogarem suas vidas com o sacrifício da vida de outros.

Isso tudo não me parece tão “inteligente” quanto se apregoa.

A “hora inicial” - que poderia ser chamada também de “hora da razoabilidade” - consiste numa coisa muito simples: trocar o “eu não viveria sem o meu telefone celular” por “eu viveria sem o telefone celular se fosse para viver 90 anos”.

Em resumo: tirar o pé do acelerador.

A dependência dos múltiplos sistemas neste Planeta começa na semente que só germina depois de absorver a enzima presente no intestino de uma determinada espécie de animal e vai até a chuva que é mais abundante nos locais onde aparentemente menos se precisa dela que são as florestas.

As variáveis energéticas que alimentam um micro-sistema podem não ser visíveis para quem lida com macro-sistemas, e vice-versa, e esta invisibilidade pode ser a causa do desequilíbrio quando ocorre a intervenção humana em um ou em outro. Conhecer essas variáveis energéticas invisíveis e conservar seus fluxos é o desafio para a inteligência humana, desafio este lançado na escrita da Bíblia, como duomilenária noção de sustentabilidade: (GN 8:22) “Enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão”.

Fazer a Terra durar é o desafio num mundo em que a inteligência é patrimônio rentável e a informação é energia motora. No entanto, é desnecessário criar ou esperar nascer uma nova ciência, bastando formar, com as ciências existentes, um arranjo com uma razoabilidade capaz de atender o consumo e a conservação dentro dos ciclos da sustentabilidade, ou duração: o máximo de desfrute possível no máximo de tempo.

“Podemos pensar que, atrás do conceito de eMergia há uma visão científica diferente que privilegia a percepção de um todo orgânico (o sistema, seus componentes e funções internas, suas fontes de energia externas, seus princípios de organização) e não a visão microscópica reducionista vigente na ciência convencional.

Na ciência tradicional prima o método analítico: o conhecimento da física e a matemática de processos isolados, sem interesse em discutir seu contexto espacial, temporal, social, e ambiental. Esse tipo de conhecimento pode ser profundo, porém ao mesmo tempo é restrito e atrelado aos valores econômicos vigentes.

A visão sistêmica pode constituir-se em um novo paradigma científico, mas para conseguir isto há um longo e difícil caminho pela frente, porém, necessário.” http://www.unicamp.br/fea/ortega/homepage.htm - Slide 11 de 36

A anunciada catástrofe anunciada por Martin Rees na NOSSA HORA FINAL pode vir a ser o primeiro instante da NOSSA HORA INICIAL, instante em que as pessoas capazes de produzir utilidades comecem a questionar as práticas atuais e a formular práticas que privilegiem a razoabilidade com que a natureza constrói e mantém seus sistemas capazes de gerar o máximo de energia pelo máximo de tempo.

Recomendo cautela e caldo de galinha que não fazem mal a ninguém, e Análise eMergética de Projetos que pode fazer o bem para todos.

Serrano Neves é Procurador de Justiça Criminal em Goiás - na ativa - e dirige uma organização dedicada à Educação Sócio-ambiental no entorno do terceiro maior reservatório artificial de água doce da América Latina - Lago da UHE da Serra da Mesa, em Uruaçu-GO.
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