O Planeta Sobreviverá, a Questão é se Sobreviveremos com Ele

Autor: Vilmar Berna Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir. James Lovelok

  
  

Autor: Vilmar Berna

Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis.
A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir. James Lovelok

Não resta a menor dúvida que nosso estilo de vida sobre o Planeta é insustentável e está avançando sobre os estoques naturais da Terra, comprometendo as gerações atuais e futuras. De acordo com Relatório Planeta Vivo 2002, elaborado pelo WWF, o ser humano usa 20% a mais do que a terra pode repor.

Além disso, é preciso considerar que este avanço sobre os recursos do Planeta não se dá de maneira igual para todos. Existe um enorme desequilíbrio entre África e Ásia, que usam os recursos do Planeta em torno de 1,4 hectares por pessoa, enquanto na Europa Ocidental este uso chega a 5,0 hectares e a dos norte-americanos, a 9,6 hectares. Os brasileiros usam em média 2,3 hectares.

O grito de alerta já foi dado há algum tempo e, durante a RIO 92, no Rio de Janeiro, quando estabeleceu-se uma espécie de novo pacto social que passou a incluir com real seriedade a componente ambiental. Dez anos depois, os governantes reuniram-se novamente em Johannesburgo, na África do Sul, para avaliar o que foi realmente realizado nos 10 anos e tentarem reverter algumas das tendências negativas e colocar a humanidade no caminho do desenvolvimento sustentável.

O que está em discussão é um novo modelo de valores e princípios que deverá nortear nossa ação no mundo. A grosso modo existem duas grandes visões em confronto. Uma visão economicista não solidária, que transforma tudo em mercadoria, incluindo a força de trabalho e a inteligência humana e todo o planeta junto, para o fortalecimento e enriquecimento de um pequeno grupo de nações e grandes empresas. Esta é a visão dominante, que nos trouxe até aqui. E outra visão, de uma economia solidária não só com as pessoas, exigindo melhor justiça social e distribuição de riquezas, mas também mais respeito ao Planeta e todas as suas formas de vida.

Entretanto, não devemos apostar muito no triunfo de uma visão contra a outra, pois os privilegiados de sempre tenderão a fazer como os monarcas do passado: liberar alguns anéis para não perder os dedos. E isso já começou se observamos os discursos dos poderosos que incluem sempre que podem a necessidade de combate à pobreza e a preservação ambiental. Não deixa de ser irônico ver os representantes das superpotências defendendo o fim da pobreza quando são eles os representantes de uma situação de exploração dos estados-nações em desenvolvimento, via juros impagáveis de dívidas externas e apoio a administrações corruptas que contraem tais dívidas para o enriquecimento de uma minoria, além de darem abrigo a mega empresas multinacionais, que se colocam acima das nações, das pessoas e do meio ambiente em suas metas de lucros crescentes.

Soa falso, diante de exemplos como o dos EUA que sozinho gasta cerca de 1 bilhão de dólares por dia em armamentos ou quando se recusam a assinar o Protocolo de Kyoto para não reduzir seus enormes índices de poluição para todo o Planeta, mostrando ao mundo que coloca seus interesses econômicos acima dos interesses coletivos de toda a Humanidade.

Quando pensamos em mudanças, precisamos enfrentar um fato objetivo: de onde vem o poder dos poderosos? Da força das armas e de seus exércitos? Claro que não. Vem do povo. É o povo quem dá força aos poderosos. É o povo quem elege e deselege políticos e é quem compra ou deixa de comprar produtos e serviços que criam ou destróem as mega empresas. Só que o povo não tem a consciência dessa sua força, como um enorme elefante que permanece prisioneiro numa corrente que agora é fraquinha, mas não era quando ele era pequeno e tentava se libertar.

Será que o povo deseja mesmo uma economia solidária, como se fôssemos uma enorme colméia de abelhas onde cada um faz a sua parte para o bem de todos, ou no fundo no fundo, que vença o melhor e o mais forte? O que está em discussão, é o grau de civilidade que a Humanidade como um todo está disposta a adotar. Precisamos nos olhar diante do espelho para saber se nossas palavras, pensamentos, valores, desejos, não contradizem nossos atos. Como agimos no nosso dia a dia? Quais são os valores e princípios que nos movem em nosso cotidiano? O que sonhamos para os nossos filhos no futuro e que futuro é esse que estamos construindo para nossos filhos e netos? Enfim, qual é a nossa idéia de felicidade, para nós e para os que dependem de nossos atos aqui e agora para ter qualidade de vida no futuro?

Galileu provou que a Terra não era o centro do Universo – e sofreu por pensar diferente. A ecologia veio mostrar que nossa espécie não é a mais importante da Criação, pois dependemos tanto da natureza quanto a mais comum das bactérias. Tão simples assim. Sem planeta, não há espécie humana, justiça social, riqueza, democracia.

Nossa rota sobre o planeta será insustentável, enquanto nossa idéia de felicidade for baseada na posse de bens materiais e na acumulação de riquezas, enquanto ter for mais importante que ser. Então, se pretendemos que os poderosos do mundo mudem, precisamos também saber se estamos mudando a nós próprios, para não continuarmos a criar poderosos com nossos falsos sonhos e perspectivas de felicidade.

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Vilmar Berna fundou e edita o Jornal do Meio Ambiente e o site www.jornaldomeioambiente.com.br considerados importantes referências na democratização da informação ambiental no Brasil. É autor de mais de 13 livros publicados. Como ambientalista fundou diversas associações ambientalistas sem fins lucrativos como os Defensores da Terra, Univerde e o IBVA – Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais, do qual é o atual presidente. Recebeu em 1.999, no Japão, pelas Organizações das Nações Unidas, o Prêmio Global 500 Para o Meio Ambiente, concedido antes a personalidades como Chico Mendes e Betinho. Em setembro de 2003, Vilmar recebeu também o Prêmio Verde das Américas.

Contato: vilmarberna@jornaldomeioambiente.com.br

  
  

Publicado por em

Beatriz v.

Beatriz v.

02/08/2012 19:09:22
tambem acho mas um dia ele poderá morrer e quando isso vai acontece