O valor da commodity ambiental

Por Carlos A. Amaral Tem sido muito discutido atualmente em diferentes fóruns e com os mais diversos enfoques o que é uma commodity ambiental e como pode-se determinar o seu valor. As ciências mais relacionadas com este assunto tem, cada uma, visões q

  
  

Por Carlos A. Amaral

Tem sido muito discutido atualmente em diferentes fóruns e com os mais diversos enfoques o que é uma commodity ambiental e como pode-se determinar o seu valor. As ciências mais relacionadas com este assunto tem, cada uma, visões quando não conflitantes, formatações diferentes entre elas.

Além disso existe o agravante de que esta discussão passa por interesses políticos, validos ou não, por diferentes fundamentações ideológicas, por embasamentos culturais arraigados e até por influências religiosas.

Até aqui nós economistas tivemos nossa preocupação sobre determinação do valor dos bens decorrente de nossa visão de alocação dos recursos econômicos escassos entre os membros de um determinado agrupamento social.

O problema é que provavelmente com relação aos aspectos ambientais este conceito de alocação de recursos, de alguma forma, precisará ser repensado pois a distribuição de recursos da mãe natureza extrapola, ou não é coincidente, com os limites que nós homens definimos como fronteiras ou como nação.

Necessariamente, o que é bom economicamente para um país pode não ser para a região em que ele está inserido e nem para ele próprio, em uma visão ambiental.

Por outro lado, a escassez existe em função de que o homem tem uma capacidade quase ilimitada de gerar necessidades e desejos e nem sempre existe a possibilidade de satisfaze-los.

Se lembrarmos, a população do mundo continua a procriar em altas taxas, temos limitações de recursos naturais e a sua distribuição torna-se cada vez mais incapaz de satisfazer a todos. Ou mais, os recursos naturais estão
sendo reduzidos com a sua utilização, não raro, ineficientes ou indiscriminadas em uma velocidade que desconhecíamos ou que não nos preocupava tanto anteriormente.

As possibilidades de que este quadro possa, algum dia, ser revertido passa por uma conscientização universal, por profundas mudanças culturais, pela necessidade de ampla educação ambiental, por avanços em tecnologia e por efetivas formas de controle populacional, além de necessitar de muita vontade política de fazer isto tudo acontecer. Ou seja, passa também pelo recurso mais escasso, o tempo.

Porém, apesar dos riscos de colapso ambiental já sendo sentidos, a premência de soluções parecem estar em descompasso com as reais necessidades. Quase um terço da humanidade ainda convive com a opção de sobreviver a fome, com uma péssima qualidade de vida ou com a depredação meio ambiente. Sem duvida,
atualmente isto não mais precisaria ser assim.

O agravante é que esta infeliz e difícil escolha acontece por pura ignorância, por um antroprocentrismo distorcido, por uma visão cultural ultrapassada, por mera falta de vontade política ou por ausência de uma consciência social.

A realidade nos mostra que nós somos um sistema muito pouco adaptado com o sistema ambiental em que estamos inseridos e do qual dependemos para viver. Isto acontece apesar das ciências, em especial a física e da
biologia estarem tentando, há algum tempo, nos ensinar que os sistemas que vivem mais e melhor são os mais adaptados ao seu meio ambiente.

Se lembrarmos, segundo a economia, o valor existe porque não temos recursos ou não somos capazes de produzir suficientes bens para satisfazer todas as aspirações da sociedade. Ou seja, em termos econômicos convivemos com duas forças em conflito, desejos e escassez, e em função da frustração do homem resultante da não satisfação das suas necessidades, os bens adquirem valor. Só no mercado o preço aparece como medida de avaliação para os valores que são conceitos relativos formulados por quem quer vender e quem quer comprar bens e serviços.

O consumo ou uso de um bem econômico , impõem um custo ou um sacrifício ao indivíduo ou a sociedade em termos de consumir outros bens agora ou depois. Para tornar claro este mecanismo os economistas usam o conceito de capital físico que representa o acumulo de bens produzidos que poderiam ter sido consumidos e que não foram. Assim, o consumo presente pode se trocado e avaliado pelo futuro e vice-versa.

É ai que aparecem diferenças e semelhanças no conceito de valor econômico das commodities ambientais e no contexto do equilíbrio sustentado. Algumas commodities podem ter valor pelo consumo ou uso e outras por não serem consumidas e nem utilizadas. E mais, este valor será diferente, se usado antes ou depois.

O valor pode ser definido para um recurso natural, para uma espécie, para um habitat, para um determinado sistema e isto varia de região para região, entre os diversos contextos, entre diferentes momentos, etc.

Incorpora-se então uma variável importante na determinação do valor em termos da biodiversidade, ou seja, como qualquer mudança afeta o sistema em si e os demais sistemas que estão interrelacionados.

O pior é que ainda conhecemos muito pouco sobre estas possíveis variáveis. Pode-se fazer uma ação aparentemente inócua e gerar enormes problemas ambientais em função da lógica do caos ou utilizar um bem não escasso em um contexto e gerar escassez que seria pouco provável, em um outro sistema com o qual interage. Isto acontece em função do alto grau de equilíbrio sistêmico e a interatividade existente entre os sistemas ambientais.

Ou seja, é provável que a determinação do valor das commodities ambientais deva usar a lógica econômica mas provavelmente deverão ser incorporadas também novas conceituação de utilidade, com diferentes visões de prazo e de globalidade. E mais, este valor poderá ainda incluir uma avaliação em ternos do seu uso ou da sua não utilização.

Os conceito de escassez e de utilidade, em termos de meio ambiente, provavelmente deverão passar a ser vistos dentro de um contexto mais universal e não apenas restritos a um determinado complexo social. Afinal, a mãe natureza fez um mundo só, nós homens é que arbitrariamente o dividimos.

Para começar portanto temos que identificar qual o tipo de bem que vamos dar um valor e porque. Uma classificação que tem sido muito discutida porém começa a ter uma aceitação acadêmica universal é a que divide os valores dos recursos ambientais em:

1-Uso extrativo direto – O valor da minerais, matéria prima ou madeira, plantas medicinais, da fauna e flora como alimentos.

2-Uso não extrativo direto – O valor de recreação ou turismo, seja pelas belezas naturais ou pela turismo ecológico.Alguns exemplos seriam os foto safáris ou visita as concentrações de baleias corcundas no Havaí.

3-Usos Indiretos – O valor do meio ambientes, da fauna ou da flora para manutenção de ecosistemas tais como evitar erosão, conservação de animais para controle de pestes ou evitar uso de defensivos agrícolas.

4-Uso para otimização – O valor potencial de produtos minerais, da flora conservada para futuros benefícios. Como,por exemplo, a futura descoberta de medicamentos para uso humano.

5-Não utilizáveis – Este podem ser o valor dado à herança da fauna, da flora ou ambientes naturais conservados para a preservação presente ou futura de outras espécies. Eles podem incluir também o valor de existência que envolve a não depredação. Mesmo que não tenham um valor aparente, porém permitam a existência de ambientes, animais ou plantas independente de seu valor de uso para o ser humano.

Note-se que esta classificação, assim como outras feitas pela homem em assuntos tão complexos, possui áreas cinzas e tornam possível que um recurso natural em um contexto tenha um valor de uso extrativo ou, em outra situação, um uso indireto. Isto pode acontecer, por exemplo, com as arvores usadas para industrialização ou para serem mantidas intocáveis para retenção de encostas ou para evitar erosão do solo.

Mas pode-se imaginar que a economia, em temos do equilíbrio sistêmico da biodiversidade, provavelmente será levada a ampliar seus domínios em termos de ciência, poderá incorporar uma visão diferente de certos conceitos ou criar uma especialidade para tratar dos assuntos de meio ambiente.

O conceito de valor talvez tenha que ser repensado quanto ao estar restrito simplesmente aos interesses exclusivamente a um determinado contexto social ou nacional. O uso de recursos naturais provavelmente deverão incorporar outras variáveis que extrapolam a visão atual de maximização dos benefícios ou a minimização dos custos. Pois, a não exploração de um recurso pode mais racional, em termos ambientais, que a viabilidade econômica de sua utilização.

Ou seja, estamos chegando a um ponto em que se criam novos conflito pragmáticos, sociais ou éticos da exploração dos recursos naturais onde a universalidade se sobrepõe a noção de nacionalidade. E isto é um choque cultural estúpido com enormes repercussões sóciopolítcas e nós economistas, sem duvida, teremos que nos antecipar aos acontecimentos.

Mas, de qualquer forma, assumindo que o valor sempre será relativo, pois dependerá da interpretação do grau de satisfação ou insatisfação que nos proporciona, tudo leva a crer que o mercado continuará a ser a melhor forma de interpretar este conceito.

Nele, poderemos continuar a vender e comprar bens e serviços, o direito de produzi-los ou não e de usar ou não recursos naturais. No mercado valor dado a cada uma destas opções encontrará um preço de equilíbrio dependendo da utilidade que vemos nelas e no grau de sacrifício que estamos dispostos a fazer por elas. Daí existir o valor das commodities ambientais.

Carlos Alberto A . do Amaral (in memorian) - Economista, MBA- Mast– Berkeley, Ca - Consultor de Empresas -Professor e fundador do PROJETO CTA/SINDECON – Consultant, Trader and Adviser, co-autor do livro `Introdução à Globalização`.

  
  

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