Operação Curupira abala as estruturas da corrupção no Brasil

Karina Miotto Há uma semana, uma bomba abalou os alicerces de ambientalistas do mundo todo e da corrupção no Brasil: a Polícia Federal, por meio da Operação Curupira, revelou que o Ibama e a Fema de Mato Grosso (Fundação Estadual do Meio Ambiente), atr

  
  

Karina Miotto

Há uma semana, uma bomba abalou os alicerces de ambientalistas do mundo todo e da corrupção no Brasil: a Polícia Federal, por meio da Operação Curupira, revelou que o Ibama e a Fema de Mato Grosso (Fundação Estadual do Meio Ambiente), através de funcionários corruptos até o talo, emitia documentos, falsificava outros e fingia que não via outros para licitar o desmatamento da floresta em troca de dinheiro. No total, foram presas 102 pessoas, entre fiscais do Ibama, demais funcionários públicos e madeireiros, incluindo o número 1 do PT no Ibama-MT e mais dois gerentes da instituição nas cidades de Juara e Sinop – os três, ligados ao PT.

De acordo com a PF, a quadrilha é acusada pela derrubada ilegal de cerca de 2 milhões de metros cúbicos de árvores no Mato Grosso, quantidade que caberia em 66 mil caminhões que, enfileirados, iriam do Rio de Janeiro até Natal, em assustadores 2 640 quilômetros.

Essa notícia veio completar outra, divulgada em maio pelo Ministério do Meio Ambiente: entre 2003 e 2004, o índice de desmatamento na Amazônia foi de 26 140 quilômetros quadrados, o segundo maior da história. Mato Grosso lidera o ranking de desmatamento, representando 48,1% do total de derrubadas na floresta. Vale lembrar que o governador do Estado, Blairo Maggi, é considerado o maior produtor individual de soja do mundo.

Esses dados atravessaram nossas fronteiras, tiveram destaque na imprensa internacional e foram notícia no jornal espanhol El País, no inglês The Independent e no americano The New York Times. Neste último, com os seguintes dizeres: “a Amazônia parece imune à lei, especialmente em um país em que não há polícia suficiente para fazer valer as regras, onde o crescimento econômico parece ser mais importante do que qualquer outra coisa e onde poderosos políticos locais parecem ter mais influência do que o governo nacional”.

A ação da Polícia Federal abalou ainda mais as estruturas do governo Lula e chamou novamente a atenção – e que atenção! – para o que vem ocorrendo na Amazônia. Para terminar este texto, utilizo as palavras da antropóloga Mary Allegretti, professora visitante do Departamento de Antropologia da Universidade de Chicago, em artigo publicado no Jornal de Brasília: “Da forma como o processo está ocorrendo hoje, com tantos setores utilizando o desmatamento como meio de vida, ou como meio de morte, ou por interesse de curto prazo, ou para aumentar os ganhos no longo prazo, estamos perdendo a guerra. E vamos perder a Amazônia. Porque não se trata mais de técnica ou de política, mas sim de vontade social de ter a Amazônia pra nós, para os nossos filhos, para os nossos netos e para o planeta. Ninguém vai fazer isso em nosso lugar”.

A hora é agora.

  
  

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