Permacultura Intensiva

Por Mauro Schorr O que nos torna talvez tão assustadores ou pouco digeríveis pela `sociedade moderna`, tão ainda avessa a valorizar e a trabalhar na terra e com a natureza, identificando em nossos esforços um certo apelo ao primitivismo, é que talvez

  
  

Por Mauro Schorr

O que nos torna talvez tão assustadores ou pouco digeríveis pela `sociedade moderna`, tão ainda avessa a valorizar e a trabalhar na terra e com a natureza, identificando em nossos esforços um certo apelo ao primitivismo, é que talvez nossa panacéia ou pagelança de cura para sua fatal enfermidade ou crise de irresponsabilidade global seja a prática da agricultura sustentável ou orgânica realmente, tanto no meio rural e na agricultura familiar, quanto, fantásticamente na santa e ex-paradisíaca urbanidade.

Nos últimos artigos que tenho lido, alguns enfocam que temos tanta terra preguiçosamente abandonada, entregue aos entulhos, restos de lixões e construções, enquanto muitos países não possuem espaços adequados para seus cultivos, como o Japão, Coréia, Inglaterra, Itália, Grécia, Portugal, entre outros.

Outros artigos defendem os plantios monoculturais de eucalipto, atestando sua necessidade e eficiência energética, econômica e financeira, mas esquecem que os solos ressecam, a energia vital dos locais é absorvida, acelerando os processos de morte e de degeneração da atmosfera e da qualidade de vida.

Contudo, a manutenção e cultivo de árvores e consórcios nativos ainda é mínima, insipiente, pouco valorizada e pesquisada, poderiam efetivar modelos novos permaculturais multiespaciais, adentrar com estes modelos em áreas de fome, beira de rios, proteções de nascentes, mas tudo isso ainda se faz muito pouco no vasto e ainda verde Brasil.

Estude os passos para que você possa enfrentar uma situação onde há um terreno baldio ou um quintal a espera de seu gesto de salvação:

- Limpe o terreno, mas não queime ou enterre nada;
- Separe os entulhos, madeira para lenha ou construção;
- Plásticos podem ser reciclados ou servem de enterrio para construção;
- Pedras e tijolos velhos podem socar estacas, fazer muros, ou mesmo pisos ou paredes para construção.

Ou seja, nada se joga fora, tudo pode ser útil na permacultura local.

Muita gente não gosta de capinar, mas de jogar palha por cima da terra, cobrir com um solo melhor, adubar e plantar. Este sistema é interessante, mas há a dificuldade de se encontrar os materiais em maior quantidade. As
plantas curtem crescer no meio da fofa matéria orgânica, mas para áreas maiores é sempre bom capinar-se, colocar-se as palhas ao redor das árvores e em curvas de nível para combater-se a erosão, formando compostos vegetais, ao invés de queimar-se a matéria orgânica.

Depois de capinado, poderemos afofar a terra, espalhar calcáreo e/ou cinza, e começar a traçar as linhas para os plantios.

Um Modelo Intensivo de Alta Produção e Biodiversidade:

- Coloque ramas de batata-doce na pilha de composto feito com a amontoa de palha capinada e do outro lado pode-se plantar mandioca e nabo comprido;

- A cada 10 metros, cultive uma árvore frutífera como pessegueiro, figo, acerola, laranja, tangerina, limão, café, banana. Árvores maiores e mais frondosas podem ir para os cantos dos terrenos;

- Ainda pode se colocar ervas medicinais sobre ou ao lado das pilhas de composto;

- Começamos a planejar como ocupar o terreno, fazendo linhas a cada 1,2 a 1,5 metros, formando canteiros para a semeadura de folhas verdes como alface, rúcula, chicória, espinafre, ou cenoura e rabanete, beterraba, e nas entrelinhas dos canteiros podemos introduzir o milho, girassol, quiabo, couves, brócolis, couve-flor, em uma mesma linha espalhando menos sementes de cada espécie;

- Vagem, ervilha, tomate, pepino, exigem varas e fios de arma para subir;

- Cercas vivas ou muros podem ser feitos com maracujá, chuchu, uva, kiwi ou até mesmo com plantios a cada 2 metros de tangerinas, limoeiros ou laranjeiras;

- Por fim, separe algumas linhas para plantar-se guandu, crotalárias, leucenas, bracatingas, uva do japão, ou tremoços, vica, eritrina, que são leguminosas que fixam o nitrogênio do ar e enriquecem a terra, além de poderem ser podadas, trazendo folhas ricas ao solo ou mesmo servirem de alimento muito especial como é o delicioso guandu.

- Aveia preta, amarela, nabo forrageiro, centeio, trigo, trigo mourisco são outras espécies interessantes para serem colocadas para trazer maior vibração e beleza ao terreno.

Então temos a seguinte visão real: compostos feitos com o empilhamento de palha e grama ou capim em nível para combater enxurrada, cultivos de batata e mandioca, ervas, frutíferas, flores, muitas ou dezenas de canteiros com verduras e legumes, milhos fazendo sombra, adubos verdes colorindo e trazendo vida, cercas vivas produzindo frutos, então, quanta benção para as borboletas, ou um `renascimento para o poder sagrado dos devas e dos elementais`.

Desta forma, há condições para a geração de alimentos e muita abundância. Modelos como este, podem ser expandidos para as lavouras monoculturais, combatendo assim o efeito estufa e a energia nuclear.

Crise de energia, ou crise de ignorância, de preguiça, de acomodação televisiva demais. Ora, salte desta poltrona de sua `cela urbana` e vá transpessoalizar-se um pouco mais na harmonia e na natureza de uma horta ou de um cultivo nutritivo, econômico e saudável.

Quanto de recursos poderemos produzir com a agricultura urbana? E a geração de vitaminas, a ocupação de serviços para tanta gente faminta, doente e desempregada?

São palavras duras, assustam, mas precisamos ainda desta cultura ecológica e sustentável para salvar a terra e este planeta da desvitalização. A ambição e o enfoque central ao dinheiro estão esgotando os recursos naturais possivelmente em menos de 20 anos.

Sabe-se que outras culturas viveram em meio a florestas, as consumiram, seus territórios viraram desertos, depois seus povos se tornaram até canibais. Assim foi no México, Guatemala, Ilha de Páscoa, Deserto de Gobi, Pérsia, Egito, alguns locais da África. Tudo isso porque a cultura humana esquece de proteger o valioso patrimônio que são seus solos e a vitalidade natural dos ambientes e ecossistemas.

Imagine o impacto da exportação de milhões de toneladas de soja, o que pode restar dos solos, líquidos, ambientes, o que está restando, afora o uso de tanto herbicida e agrotóxico?

Energia Renovável com a Natureza

- Ora, vamos investir na energia solar, deixá-la mais econômica, acessível, popular;
- Na energia elétrica, com o uso de hidroelétricas menores, de menor impacto, ou mesmo das marés, ventos, biodigestores, eólicas, vindas do metano do lixo;
- Reciclagem e uso de álcool combustível, que não é a maravilha, mas pode colaborar no setor de transportes;
- Uso de biodiesel e óleos naturais, para transporte e geração de energia. Aqui entram os produtos agroflorestais como dendê, carnaúba, andiroba,copaíba, bacaba, coco, entre outros;
- Estudar o impacto de motores de geração de energia movidos a água e a hidrogênio.

Na verdade, podemos cobrir nossas estradas de verde, nossas ruas e terrenos e, inclusive, nossas zonas de pobreza com frutas nativas e domésticas. É apenas uma opção política, que necessita da abertura democrática e da
participação popular e das organizações civis.

Estamos vendo a possibilidade da destruição deste planeta ocorrer mais rápido do que se planeja, agora reverter sua situação dependerá de nosso esforço e fortalecimento emergencial. E fortalecer significa um gesto pleno de confiar, de se cooperar e mais do que isso: investir em recursos e trabalho, democratizando e enaltecendo as ações.

Mauro Schorr é engenheiro agrônomo, educador ambiental, naturopata e terapeuta. Coordenador do Instituto Anima de Cultura e Desenvolvimento Sustentável (www.institutoanima.pop.com.br).

  
  

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