Racionando a água

Por José Henrique Cortez Depois do racionamento de energia virá o racionamento de água. É uma questão de tempo. Os ambientalistas há muito insistem que nossa irresponsabilidade e incompetência no gerenciamento das bacias hidrográficas causaram o esgo

  
  

Por José Henrique Cortez

Depois do racionamento de energia virá o racionamento de água. É uma questão de tempo. Os ambientalistas há muito insistem que nossa irresponsabilidade e incompetência no gerenciamento das bacias hidrográficas causaram o esgotamento de nossas bacias, rios e reservatórios. Um esgotamento que vem ocorrendo há anos em razão da superexploração. Uma irresponsável superexploração que também atinge os aqüíferos, nossa única e efetiva reserva de longo prazo.

O Rio São Francisco agoniza e com ele mais de 500 cidades em sua bacia. No Rio Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro, a situação caminha para o desastre. Na Região Metropolitana de São Paulo a crise de abastecimento é ainda pior.

É muito mais fácil tratar da crise de energia do que cuidar da recuperação hidroambiental de nossas bacias. As grandes obras em energia exigem apenas tempo e recursos financeiros (mais públicos do que privados), para a felicidade das empreiteiras e da industria de base.

A recuperação hidroambiental exige tempo, discussão com a sociedade, visão de longo prazo, comprometimento da sociedade e compromisso político. Além disto, não permite inauguração, comício e não precisa das empreiteiras e seus amigos. Não é considerado um projeto politicamente viável.

Na eterna falta de uma verdadeira política pública para os mananciais ficamos dependentes da chuva. Se possível torrencial, para que possa recuperar os reservatórios, “compensando” anos de superexploração. E, já que estamos no plano dos “milagres”, pedimos chuvas torrenciais que não causem inundações, desabamentos ou outros danos pessoais e materiais.

REFLORESTAMENTO - Mas nem tudo está perdido. Um ótimo exemplo de seriedade e compromisso hidroambiental é o projeto de recomposição das matas ciliares dos mananciais da região de Itu, no interior de São Paulo. Um projeto desenvolvido por empresas com apoio da prefeitura e do serviço municipal de água e que, na sua fase inicial, irá plantar 13 mil mudas, refazendo um bosque de 62 quilômetros quadrados. Um grande exemplo a ser seguido.

Cada um de nós pode fazer a sua parte da melhor forma que puder, mas não será o suficiente. É, no máximo, um começo promissor. A questão da água precisa ser incluída na agenda da sociedade, nos planos de governo e nos compromissos políticos.

Como qualquer outro ambientalista estou acostumado a ser solenemente ignorado até que seja muito tarde. Mas, desta vez, gostaria que a sociedade compreendesse a necessidade da proteção e conservação dos recursos hídricos.

Conservação da água não é um ideal ambientalista - é uma questão de sobrevivência.

José Henrique Cortez é ambientalista, consultor e Coordenador de Projetos Socioambientais da Câmara de Cultura (www.camaradecultura.org).
E-mail: jcortez@cortez.ppg.br

  
  

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