Ecoturismo e Desenvolvimento Sustentável

Por Ézio Dornela Goulart O intuito deste artigo é o de instigar a discussão sobre estes temas, de uma forma diferenciada. Fala-se muito sobre desenvolvimento sustentável e a relação do turismo com este, mas existem outras concepções de desenvolviment

  
  

Por Ézio Dornela Goulart

O intuito deste artigo é o de instigar a discussão sobre estes temas, de uma forma diferenciada. Fala-se muito sobre desenvolvimento sustentável e a relação do turismo com este, mas existem outras concepções de desenvolvimento ambientalmente responsável, às vezes ignoradas. Apresentaremos inicialmente algumas das principais teorias e de como o turismo se inseriu nesta discussão. Em seguida faremos um paralelo entre o turismo sustentável e o ecoturismo, salientando as diferenças e as relações entre estes fenômenos.

Para AMÂNCIO & GOMES (2001), Discutir ecoturismo e desenvolvimento sustentável é um desafio interessante, principalmente quando se tenta descaracterizar a atividade ecoturística de um estigma elitista. Ver o ecoturismo como uma atividade a ser trabalhada ou “explorada” por grupos capitalizados financeiramente é reduzir seu papel como elemento importante para promover o desenvolvimento rural e incluir segmentos da população que são historicamente marginalizados do acesso a mecanismos de produção na sociedade capitalista, sejam eles materiais ou de caráter social e cultural.

Para melhor situar esta discussão, que se pensa ser fundamental para a delimitação do papel do ecoturismo em programas de desenvolvimento e, conseqüentemente, formas de planejamento para o desenvolvimento, é necessário rever e repensar as diferentes estratégias que se formularam nas últimas décadas para que o desenvolvimento seja eqüitativo e ambientalmente correto.

Dessa forma, faremos uma breve reflexão do problema ambiental e o desenvolvimento econômico, ou melhor dizendo, como o meio ambiente é visto pela economia. Isto poderá nos esclarecer sobre as diferentes formas de interpretar a crise ambiental, à luz de formulações de política econômica.

O Ecodesenvolvimento

Em oposição às teses de conservadorismo strictu senso e do crescimento a qualquer custo, surgiu, sob os auspícios do PNUMA, o conceito de Estratégias de Ecodesenvolvimento. Elas foram concebidas como uma nova abordagem, as quais centravam a análise na satisfação das necessidades fundamentais das populações despossuídas, na adaptação das tecnologias e dos modos de vida às particularidades dos microecossistemas, na valorização dos dejetos e eliminação dos desperdícios e a exploração dos recursos pela concepção de sistemas integrados.

Segundo AMÂNCIO & GOMES (2001), na sua forma mais simples, o ecodesenvolvimento significa transformar o desenvolvimento numa soma positiva com a natureza, propondo que tenha por base o tripé: justiça social, eficiência econômica e prudência ecológica. A qualidade social é medida pela melhoria do bem estar das populações despossuídas e a qualidade ecológica pela solidariedade com as gerações futuras.

Desenvolvimento Sustentado

Em 1983, a Assembléia das Nações Unidas encomendou um relatório à comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, presidida pela Primeira Ministra da Noruega, Sra. Brundtland. Sua equipe era composta de 22 membros internacionais, entre os quais ministros de estado, cientistas e diplomatas.

O relatório desta comissão, publicado em abril de 1987 e posteriormente denominado “Nosso Futuro Comum”, vem difundindo o conceito de desenvolvimento sustentado, que passou a figurar sistematicamente na semântica de linguagem internacional, servindo como eixo central de pesquisas realizadas por organismos multilaterais e mesmo por grandes empresas.

O conceito desenvolvimento sustentado, no informe em questão, tem três vertentes principais: crescimento econômico, eqüidade social e equilíbrio ecológico, induzindo um “espírito de responsabilidade comum” como processo de mudança no qual a exploração de recursos materiais, os investimentos financeiros e as rotas de desenvolvimento tecnológico deverão adquirir sentido harmonioso (AMÂNCIO & GOMES, 2001).

O relatório de Brundtland traz a seguinte definição: “o desenvolvimento sustentado é aquele que responde às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de responder às suas necessidades”. Esta definição está centrada na sustentabilidade do desenvolvimento econômico e é criticada por vários autores, que insistem que não se pode pensar nas gerações futuras quando parte da geração atual não atende às suas necessidades básicas.

Economia Ecológica

A economia ecológica (EE) surgiu no final da década de 1980, na costa leste americana (NYU/New School, Boston, IBRD), opondo-se à utilização dos modelos de economia neoclássicos e de ecologia convencional que comprovaram ser insuficientes na explicação e resolução dos problemas ecológicos globais.

Para AMÂNCIO & GOMES (2001), a Economia Ecológica considera errônea a ênfase no crescimento como estratégia para resolver problemas de qualidade de vida, dada a limitada disponibilidade dos estoques dos recursos naturais e o perigo de se ultrapassar o nível de equilíbrio da matéria e da energia. A otimização dos recursos passa a ser biocêntrica, em vez de ser antropocêntrica.

Neste ponto é interessante uma pausa para reflexão. Já é possível perceber que existem diferentes enfoques para se tratar à questão ambiental, partindo de uma percepção econômica. Nota-se que as diferentes matrizes tem pressupostos e propostas que as diferenciam. Enquanto uma, por exemplo, ressalta a importância de fatores locais para gerar o desenvolvimento e a preservação ambiental, outra argumenta quanto à necessidade de privatização dos recursos naturais como estratégia mais adequada para assegurar a sustentabilidade ambiental. Isto pode ser de extrema riqueza para a reflexão sobre como conceber o ecoturismo em estratégias de desenvolvimento. Qual o melhor caminho? Investimentos financeiros oriundos de fora para promover o turismo em locais com belezas físicas ou o resgate da cidadania e promoção da cultura local como atrativo?

O desenvolvimento do turismo sustentável

Para prevenir os impactos ambientais do turismo, a degradação dos recursos e a restrição do seu ciclo de vida, é preciso concentrar os esforços em um desenvolvimento sustentável não apenas do patrimônio natural, mas também dos produtos que se estruturam sobre os atrativos e equipamentos turísticos.

Segundo RUSCHMANN (1997), os conceitos de turismo sustentável e desenvolvimento sustentável estão intimamente ligados a sustentabilidade do meio ambiente, principalmente nos países menos desenvolvidos. Isto porque o desenvolvimento e o desenvolvimento do turismo em particular dependem da preservação da viabilidade de seus recursos de base. Encontrar o equilíbrio entre os interesses econômicos que o turismo estimula e um desenvolvimento da atividade que preserve o meio ambiente não é tarefa fácil, principalmente porque seu controle depende de critérios e valores subjetivos e de uma política ambiental e turística adequada – que ainda não se encontrou no Brasil e em vários outros países.

O desenvolvimento sustentável do turismo deve considerar a gestão de todos os ambientes, os recursos e as comunidades receptoras, de modo a atender às necessidades econômicas, sociais, vivenciais e estéticas, enquanto a integridade cultural, os processos ecológicos essenciais e a diversidade biológica dos meios humano e ambiental são mantidos através dos tempos.

Ecoturismo

Ao se debater turismo sustentável, encontramos um aspecto bastante polêmico, que diz respeito ao conceito de ecoturismo. Alguns autores usam os dois termos de maneira intercambiável, enquanto outros vêem os dois fenômenos como dimetricamente opostos.

Para SWARBROOKE (2000), em termos simples, ecoturismo significa simplesmente que a principal motivação para a viagem é o desejo de ver ecossistemas em seu estado natural, sua vida selvagem assim como sua população nativa. Contudo, muitas vezes se considera o ecoturismo como sendo mais do que isso. Seus defensores afirmam que ele se relaciona também com o desejo de ver os ecossistemas preservados e que a população local viva melhor por conta dos efeitos do turismo.

Mesmo sem considerar esse último aspecto, muitas pessoas veriam uma relação íntima entre ecoturismo e turismo sustentável, uma vez que o ecoturismo é visto como:

· Um turismo em pequena escala;
· Mais ativo do que outras formas de turismo;
· Uma modalidade de turismo na qual a existência de uma infra-estrutura de turismo sofisticada é um dado menos relevante;
· Empreendido por turistas esclarecidos e bem educados, conscientes das questões relacionadas a sustentabilidade, além de ávidos por aprender mais sobre estes temas;
· Menos espoliativo das culturas e da natureza locais do que as formas “tradicionais” de turismo (SWARBROOKE 2000).

O caso contra o ecoturismo

Desta forma, encontramos vários aspectos positivos no ecoturismo, como os apresentados acima. Porém, podemos enumerar alguns aspectos negativos quando analisamos o conceito de turismo sustentável. Tais aspectos serão considerados a seguir.

Ecoturismo ou Egoturismo?

Não estamos caindo na armadilha de presumir automaticamente que quanto mais alternativo, mais planejado para o cliente e quanto mais acima da média seja o produto... melhor ele será em termos de sustentabilidade? Temos aí a demanda por um egoturismo, politicamente correto para o meio ambiente, pois, como todos sabemos, o viajante se unifica coma natureza. O ecoturista, tão preocupado em se comportar de maneira ostensivamente sensível no meio ambiente vulnerável da destinação, não costuma se preocupar com o dano que ele causa no meio ambiente pelo simples fato de chegar a destinação. Aqui a conveniência adquire precedência sobre a consciência. (SWARBROOKE 2000).

Ecoturismo de hoje, turismo de massa amanhã?

Todos conhecemos os problemas causados pelo turismo de massa. E um destino de ecoturismo pode se tornar turismo de massa, quando excessivamente divulgado e concebido de forma irresponsável.

Não há lugar oculto para o ecoturista!

O ecoturista ganha prestígio e satisfação ao visitar destinações novas e fora do circuito, e ao ver coisas que outros turistas não viram. Assim, são levados a buscar destinações mais remotas e obscuras, com ecossistemas e culturas completamente diferentes da sua.

Por isso, nenhum lugar está a salvo do ecoturista. É o seu próprio senso de descoberta que os torna perigosos. Em vez de se ater ao circuito em que suas atividades podem ser gerenciadas, estão sempre ansiosos para escapar para destinações não mapeadas, nem gerenciadas.

O ecoturismo é mais do que apenas vida selvagem

Segundo SWARBROOKE (2000), pode parecer, muitas vezes, que o ecoturismo diga respeito apenas a vida selvagem. Os turistas geralmente parecem estar mais interessados em observar os animais do que em conhecer e tentar compreender os povos de diferentes culturas. No entanto, o ecoturismo deve dizer respeito a ecossistemas, e ecossistemas dizem respeito à vida selvagem e às pessoas. Para os ecoturistas, portanto, as pessoas e a vida selvagem devem ter a mesma importância.

Rumo a um ecoturismo sustentável

Para que o ecoturismo se torne uma forma de turismo sustentável é necessário que este seja adequadamente gerenciado. Porém percebemos que ecoturismo e turismo sustentável não são a mesma coisa.

WIGHT (1993) identificou nove princípios que devem fundamentar o ecoturismo sustentável, que são os seguintes:

· Não deve degradar os recursos e deve ser desenvolvido de maneira completamente ambiental;
· Deve possibilitar experiências participativas e esclarecedoras em primeira mão;
· Deve envolver educação entre todas as partes – comunidades locais, governo, organizações não governamentais, indústria e turistas (antes, durante e depois da viagem);
· Deve incentivar um reconhecimento dos valores intrínsecos dos recursos naturais e culturais, por parte de todos os envolvidos;
· Deve implicar aceitação dos recursos tais como são e reconhecer os seus limites, o que pressupõe uma administração voltada para o abastecimento;
· Deve promover a compreensão e as parcerias entre muitos envolvidos, e isso pode incluir o governo, organizações não governamentais, a indústria, os cientistas e a população local (tanto antes como durante as operações);
· Deve promover responsabilidades e um comportamento moral e ético em relação ao meio ambiente natural e cultural, por parte de todos os envolvidos;
· Deve trazer benefícios a longo prazo – para os recursos naturais e culturais, para a comunidade e para as indústrias locais (esses benefícios podem ser de preservação científica, social, cultural ou econômica);
· Deve assegurar que nas operações de ecoturismo a ética inerente a práticas ambientais responsáveis se aplique não apenas aos recursos externos (naturais e culturais) que atraem turistas, mas também a suas operações internas.

Desta forma, percebemos então que ecoturismo e turismo sustentável não são necessariamente a mesma coisa. Procuramos esboçar as principais diferenças entre os dois conceitos. Neste artigo, procuramos enumerar as idéias para que ambos fenômenos sejam aproximados, e para que o ecoturismo se torne mais sustentável.

Bibliografia

AMÂNCIO, R. & GOMES, M. A. O. Ecoturismo e sustentabilidade. Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu” (Especialização) à distância – Ecoturismo: Interpretação e educação ambiental. Lavras: UFLA/FAEPE, 2001.

RUSCHMANN, D. V. M. Turismo e planejamento sustentável: a proteção do meio ambiente. Campinas, SP: Papirus, 1997.

SWARBROOKE, J. turismo sustentável: turismo cultural, ecoturismo e ética, vol. 5 – São Paulo: Aleph, 2000.

Ézio Dornela Goulart é Administrador de Empresas, Especialista em Ecoturismo e Educação Ambiental e em Planejamento e Gestão de Turismo e Meio Ambiente. Consultor da Cooperatur.
ezio@netservice.com.br

  
  

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