Ecoturismo x Conservação x Desenvolvimento

Um problema de marketing ou de falta de educação Minhas manhãs no escritório já viraram quase uma rotina. Toreando os milhares de spams na caixa de entrada (isso, com certeza, é assunto para um outro texto), l

  
  

Um problema de marketing ou de falta de educação"

Minhas manhãs no escritório já viraram quase uma rotina. Toreando os milhares de spams na caixa de entrada (isso, com certeza, é assunto para um outro texto), lendo jornais do Brasil e de outros países, além de informativos e e-mails de grupos especializados em biologia, conservação e ecoturismo, sempre encontramos notícias contrastantes: nossos recursos naturais são enormes e espetaculares, temos um caminhão de problemas quando o assunto é se fazer cumprir a legislação, os números sobre o turismo são sempre promissores e por ai vai... Isso me lembra um antigo clichê sobre mercados e sobre a Costa Rica, que tem não sei quantos % do PIB gerados através do ecoturismo...

Me lembro, ainda enquanto eu estava estudando nos EUA em 2003, de um artigo/anúncio que li no caderno de turismo do New York Times: “A Costa Rica não tem ingredientes artificiais”. Simples e direto. Os mais céticos vão, na hora, lembrar que a distâncias entre os EUA e a Costa Rica são mais curtas ou que o produto ecoturístico da região já está formatado aos padrões americanos. Por outro lado, vemos que, ainda assim, independentemente dos produtos oferecidos por lá, o consumidor (worldwide) está sendo constantemente lembrado, que o país e suas belezas naturais, estão relativamente protegidos e à disposição.

Enquanto isso, onde está o Brasil" Ninguém sabe, ninguém viu.

Quando se traz à tona essa discussão e se coloca na mesa os números, cada vez maiores e mais animadores sobre o Ecoturismo em nosso país (crescimento estimado em mais de 20% nos últimos anos), sempre me faço essa pergunta: como é que um lugar exuberante como o Brasil, com tamanha biodiversidade, riquezas naturais e culturais, além ser abençoado por um povo extremamente receptivo (quase sempre adorado pelas demais nacionalidades do Mundo), não conseguiu ainda direcionar e organizar uma atividade que, aos olhos do mercado internacional e da maioria das instituições especializadas, é uma das mais rentáveis e mais promissoras"

Quais serão realmente os nossos problemas"

Muitas definições, muitos termos técnicos, muitos manuais e muitas teorias foram e estão sendo escritos. Não vejo problema nisso - informação nunca é demais, até porque a palavra "ecoturismo" envolve em si, uma mistura de culturas e aspectos sociais, além dos aspectos de conservação necessários. Há quem diga, simplesmente, que as nossas dificuldades estão ligadas a fatores que incluem a nossa complexa e morosa legislação ambiental, os nossos problemas de terceiro mundo relativos à falta de incentivos e de recursos financeiros públicos e privados para o setor, da falta de vontade política, ou até de excesso delas, que em alguns casos inibem ou atrasam o andamento das coisas no caminho certo. Como exemplo mais recente, posso citar o Parque Nacional do Cristalino e as peripécias da família Maggi...

Hoje, na minha opinião, um bom plano de ação na área de marketing e divulgação é crucial para aquecer o mercado e estimular a curiosidade de quem pensa em conhecer o Brasil. Contudo, basta estar vivendo fora dos limites tupiniquins, para se notar que o reconhecimento internacional da nossa terra não advém das nossas belezas naturais, das nossas artes e nem da exuberância da mulher brasileira.

Alguém, por acaso, já viu o filme "Turistas""

Outros países, também qualificados e nossos companheiros no time do subdesenvolvimento, como a África do Sul, estão alcançando sucesso, ou pelo menos, abrindo novas oportunidades, ao estruturar um ecoturismo sério e competente. Tudo, por meio de organização e principalmente, de políticas claras e, de fato, conservacionistas.

Hoje, onde tantos problemas e tantas situações nos levam a pensar não mais, em quais problemas ambientais iremos encontrar, mas sim de quais formas nosso futuro será alterado pelas mudanças e falta de medidas e políticas necessárias em relação à conservação do meio ambiente; se encontra o desejo e a necessidade cada vez mais crescente do seres humanos em vivenciar seus momentos de lazer e atividades em ambientes naturais. Nesse cenário, nosso país tem totais condições de delinear e iniciar sua caminhada rumo a um futuro mais promissor e sustentável.

O Brasil precisa de dinamismo. Necessitamos de uma mentalidade que alie um caráter mais imediatista, mais abrangente e que esteja cada vez mais embasada numa política ambiental forte, justa e de fácil compreensão. Sem falar em incentivos fiscais e técnicos aos proprietários e comunidades, que possam ser revertidos em melhorias diretas na qualidade de vida e na geração de novas oportunidades de trabalho nas regiões onde literalmente nosso país tem mais natureza do que concreto. Eu não sei sobre vocês, mais eu, particularmente, não aguento mais ter que continuar vendo notícias sobre desmatamento sem controle e exploração sexual de menores no Norte do nosso país.

Mais do que a busca do nosso próprio desenvolvimento e conservação das nossas riquezas e da nossa biodiversidade para as futuras gerações através do ecoturismo, precisamos, ter consciência de quão grande é o nosso papel, e principalmente, o papel dessas nossas riquezas, para o futuro do próprio Planeta e de todos os seres humanos.

Talvez precisemos de mais marketing e de mais tempo para que isso se torne prioridade. Com certeza, precisamos de mais educação no nosso país para mudar essa visão simplista instalada na máquina governamental brasileira nas questões relacionadas ao meio ambiente, sua conservação e sua utilização consciente e sustentável. Nossa realidade e indiferença, as vezes me incomodam e não vejo muita vantagem ou diferença, em ser o primeiro da fila na lista dos países em desenvolvimento ou o último da fila na lista dos países desenvolvidos. Como país continental que somos, com todas as nossas riquezas e todo o nosso potencial, todos nós brasileiros deveríamos estar mais expostos a melhores oportunidades e a uma vida mais digna.

Só nos resta saber, se o Planeta vai suportar a pressão e o quanto ele ainda vai poder cooperar conosco.
Abraços e até a próxima!

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Guto Bertagnolli é biólogo/guia naturalista, fotógrafo de natureza e especialista em ecoturismo. Atualmente vive e trabalha em Bonito e no Pantanal, no Estado do Mato Grosso do Sul.

Site: www.gutobertagnolli.com
Blog: www.ecoefoto.blogspot.com
Email: contact@gutobertagnolli.com
SKYPE: gutobertagnolli
MSN: ecoguto@hotmail.com

  
  

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