Efeitos negativos do ecoturismo

Por Felipe A. P. L. Costa O turismo é uma das mais poderosas indústrias da economia contemporânea, e nenhum outro ramo dessa indústria cresceu tanto nos últimos anos como o chamado “turismo ambiental”, ou “ecoturismo” [1]. O número de ecoturistas qu

  
  

Por Felipe A. P. L. Costa

O turismo é uma das mais poderosas indústrias da economia contemporânea, e nenhum outro ramo dessa indústria cresceu tanto nos últimos anos como o chamado “turismo ambiental”, ou “ecoturismo” [1]. O número de ecoturistas que habitualmente visitam áreas naturais – em especial, áreas naturais protegidas ou unidades de conservação – aumentou vertiginosamente em todo o mundo. Para atender a essa demanda, muitos lugares semi-isolados, desabitados ou habitados apenas por umas poucas pessoas, foram rapidamente “civilizados” – ocupados por pousadas, bares, restaurantes e um comércio amplo e variado, que a partir de então passou a vender os produtos “típicos” do local... O balneário de Cancún, no México, é um caso dramático de ocupação acelerada: o que no início da década de 1970 era uma vila modesta, com menos de 500 moradores, 20 anos depois havia se tornado um pólo turístico badaladíssimo, com mais de 300 mil habitantes e repleto de ícones do México “essencial” [2]!

O Brasil não ficou de fora da explosão do ecoturismo, embora as “taxas de visitação” (número de visitantes anuais por unidade de área, por exemplo) dos nossos parques – a principal categoria de unidade de conservação aberta ao público – ainda estejam em patamares relativamente modestos. Ainda assim, o aumento crescente da visitação, combinado com a falta de infra-estrutura e de pessoal qualificado, expôs problemas antigos, ao mesmo tempo em que gerou uma série de problemas novos: desde impactos ambientais localizados (erosão e perda de solo ao longo de trilhas, acúmulo de lixo, pilhagens, perda de espécies etc.) até dramas sociais mais amplos e complexos (tráfico de drogas, prostituição infantil, desagregação familiar, deterioração da vida social de comunidades locais etc.) [3]. Ignorar esses problemas ou erguer uma cortina de fumaça entre eles e a opinião pública – práticas que infelizmente ainda são comuns entre nós –, não resolverão nada.

É verdade que o ecoturismo pode ser um gerador importante de renda e de empregos, representando assim uma alternativa verdadeiramente consistente para atividades econômicas mais destrutivas ou “impactantes”, digamos assim; mas ele também tem o seu lado negativo, por incrível que pareça! Certos problemas surgem quando os empreendedores, a exemplo do que acontece em outros setores da economia, tentam maximizar os lucros gerados pelo ecoturismo no curto prazo, ignorando deliberada ou inadvertidamente o fato essencial de que a manutenção da integridade das áreas abertas ao público exige um controle mais rigoroso sobre o número de visitantes. Em outras palavras, mesmo se todos os ecoturistas fossem `suíços` [4] (nada de deixar lixo jogado pelo chão ou restos de comida para animais, nada de tirar lascas ou fazer marcas no tronco das árvores, nada de roubar orquídeas ou bromélias etc.), ainda assim precisaríamos encontrar resposta para uma questão fundamental: qual o número máximo de visitantes que um parque pode receber sem mostrar sinais de degradação?

A chamada “capacidade de suporte recreativa” – uma adaptação do conceito ecológico mais geral de capacidade de suporte – é o número máximo de visitantes que um parque pode receber, durante determinado período de tempo, sem mostrar sinais evidentes de degradação, como erosão e perda de solo ao longo de trilhas excessivamente pisoteadas, por exemplo. Na verdade, diferentes estimativas precisam ser feitas para os vários pontos de visitação dentro de um parque: o número de visitantes que podem transitar pelas trilhas, por exemplo, é menor nos trechos de topografia acidentada; por sua vez, grutas e cavernas não suportam tantos visitantes como as trilhas que levam até elas; e assim por diante.

Nos Estados Unidos, onde a preocupação com esse assunto surgiu ainda na década de 1950, o chamado “plano de manejo” dos parques nacionais deve apresentar estimativas explícitas para a capacidade de suporte de cada área exposta à visitação. No Brasil, ao contrário, a maioria dos parques (nacionais e estaduais) não conta sequer com um plano de manejo mínimo, muito menos com estimativas criteriosas para o número de visitantes que pode receber. É bom que se diga que estimar a capacidade de suporte recreativa de um lugar não é nenhum “bicho-de-sete-cabeças”, não exige muito dinheiro e já existe pessoal treinado no Brasil – nessa e em outras técnicas ainda mais “sensíveis” [5].

O que falta em muitos empreendedores (incluindo governantes e empresários) é “inteligência administrativa”: sem um ordenamento, o grau de degradação das áreas expostas à visitação pública tende a aumentar, espantando novos visitantes e reduzindo as chances do local funcionar como pólo turístico duradouro. Este, infelizmente, parece ser o caso do famoso Parque Estadual do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira, que com apenas 14,88 quilômetros quadrados de área tem recebido cerca de 50 mil visitantes anuais – números que fazem dele um dos parques mais congestionados do país [6]. Graças a inércia dos governantes e a voracidade dos agentes econômicos, parques como o do Ibitipoca, com excesso de visitação, trilhas e estradas erodidas e cercado por loteamentos ou propriedades particulares por todos os lados – portanto, com poucas chances de crescer –, não parecem ter um futuro muito promissor pela frente, a não ser, claro, como uma grande cratera desabitada...

Notas

[1] Para uma introdução ao ecoturismo, ver Lindberg, K. & Hawkins, D. E., orgs. 1995. Ecoturismo: um guia para planejamento e gestão. SP, Editora Senac.

[2] Sobre Cancún (México), ver Ribeiro, G. L. & Barros, F. L. 1997. A corrida por paisagens autênticas: turismo, meio ambiente e subjetividade no mundo contemporâneo, pp. 27-42. In: Serrano, C. M. T. & Bruhns, H. T., orgs. Viagens à natureza: turismo, cultura e ambiente. Campinas, Papirus.

[3] Para estudos sobre os impactos do ecoturismo no Brasil, ver Rodrigues, A. B., org. 1997. Turismo e ambiente. Reflexões e propostas. SP, Hucitec. Lima, R. E. & Negrelle, R. R. B., orgs. 1998. Meio ambiente e desenvolvimento no litoral do Paraná: diagnóstico. Curitiba, Editora da UFPR.

[4] O leitor não deve interpretar essa passagem como crítica ou elogio velados a qualquer etnia humana; trata-se apenas de uma expressão literária criada a partir da fama de correção dos relógios fabricados naquele país.

[5] Sobre capacidade de suporte recreativa e temas relacionados, ver Anais. 1997. Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, 2 vols. Curitiba, IAP/Unilivre/Rede Nacional Pró Unidades de Conservação.

[6] Sobre o excesso de visitação e a degradação do Parque Estadual do Ibitipoca (MG), ver Mitre, M. 2000. Ecoturismo em alta. Ciência Hoje 164: 56-58.

Felipe A. P. L. Costa é graduado em Ciências Biológicas pela UFJF, com mestrado em Ecologia pela Unicamp e doutorado, na mesma área, pela UnB. É consultor de obras didáticas e colaborador do sítio eletrônico ibero-americano La insignia e do Iesambi.
É autor do livro ECOLOGIA, EVOLUÇÃO & O VALOR DAS PEQUENAS COISAS (2003).
www.iesambi.org.br/felipeaplcosta.html
meiterer@hotmail.com

  
  

Publicado por em

Joana

Joana

25/07/2011 12:27:18
Boa Tarde...

Tive a ler o seu artigo e achei muito interessante...

E tambem li que caso necessitassemos de mais informações para entrar em contaco consigo?

é o seguinte será que me poderia arranjar informação? E que estou no final do curso de Turismo e tanho que fazer uma Pap (prova de aptidao profissional) e o tema que escolhi foi o Ecoturismo e ainda tanho poucas páginas e o que encontro na net e pouco... Se fosse possivel me arranjar mais alguma informação! Agradecia!! Obrigado Joana

Equipe EcoViagem

Equipe EcoViagem

Olá, Para mais informações favor acessar o site do Ministério do Turismo. Atenciosamente, EcoViagem
Danilo

Danilo

22/03/2011 01:52:58
Muito bom,parabens pelo seu trabalho!

Valda Fernandes

Valda Fernandes

27/04/2010 22:12:55
Meu nome e Valda Fernandes, estou cursando o 1 semestre de Arquitetura e Urbanismo e estou preparando um seminario sobre Ecoturismo, e gostei muito do seu seu artigo, pois enfoca o lado negativo do Ecoturismo irresponsável e capitalista. Você poderia me mandar alguma foto e mais algum texto?

Equipe EcoViagem

Equipe EcoViagem

"O EcoViagem é um veículo de comunicação no qual não possui relação com seus anunciantes. Caso queira mais informações gentileza, entrar em contato com Felipe A. P. L. Costa, autor do livro ECOLOGIA, EVOLUÇÃO & O VALOR DAS PEQUENAS COISAS (2003). Agradecemos o comentário Equipe EcoViagem