O Domínio das Amazonas

Por Silvio Marchini Foi nesta mesma época do ano, entre final de fevereiro e começo de março, que Orellana marchou sobre a crista nevada da Cordilheira dos Andes em busca do que seria a Terra Prometida: um lugar repleto de árvores de canela! Isso me

  
  

Por Silvio Marchini

Foi nesta mesma época do ano, entre final de fevereiro e começo de março, que Orellana marchou sobre a crista nevada da Cordilheira dos Andes em busca do que seria a Terra Prometida: um lugar repleto de árvores de canela! Isso mesmo. As especiarias, valorizadas não apenas por suas aplicações culinárias, mas por suas propriedades medicinais que apenas agora estamos começando a redescobrir, desempenharam um papel central e inesperado na exploração do mundo. A canela é um anti-séptico, um poderoso digestivo e um estimulante respiratório. Ou assim acreditavam os espanhóis de 1541, que partiram de Quito sob o comando de Gonzalo Pizarro numa expedição ambiciosa rumo ao desconhecido.

A cena era pitoresca. Duzentos soldados vestindo armaduras e montados a cavalo, marchando em fila montanha acima, seguidos por cento e cinqüenta soldados a pé, dois mil cães ferozes treinados para atacar índios e quatro mil carregadores “voluntários” (índios escravos) abarrotados de armas e mantimentos. Em seguida, vinham duas mil lhamas igualmente carregadas e dois mil porcos para servirem de alimento. Pizarro e seus homens não sabiam do inferno que estavam por visitar. Não encontrariam canela na quantidade que sonhavam. A tropa se dividiria. Pizarro voltaria para casa arrasado. Mas Orellana teria um destino bem diferente. Ele entraria para a história como o primeiro homem a navegar pelo rio mais poderoso do planeta, e o último a ter contato com a mitológica tribo das mulheres guerreiras, as Amazonas.

No começo, os cavalos escorregavam sobre as rochas cobertas de neve, o passo diminuía e os carregadores indígenas morriam de frio. Pelo menos cem deles pereceram na travessia dos picos gelados. Depois vieram as florestas, quentes e cheias de mosquitos, tão densas que o único caminho a seguir era aquele aberto por eles mesmos, palmo a palmo, com machados e facões. Setenta dias após a partida, Pizarro finalmente alcançou as terras que supostamente estariam repletas de canela. Mas encontrou apenas umas poucas árvores, tão espalhadas que não poderiam ser exploradas comercialmente. Pizarro ficou muito desapontado e extravasou sua raiva atirando metade de seus guias aos cães e queimando viva a outra metade.

Encontraram, então, índios pacíficos que lhes presentearam com canoas e os ajudaram a construir um barco [A madeira para o barco, assim como o algodão de sumaúma e o óleo de peixe utilizados na impermeabilização, foram fácil de conseguir. Difícil foi forjar os dois mil pregos de ferro necessários para a construção]. Com as embarcações, desceram o Rio Napo. Mais de dez meses haviam se passado desde que partiram de Quito e os mantimentos já estavam no fim. Há muito tempo tinham comido o último porco. Não encontraram nenhum povoado indígena que lhes pudesse oferecer alimento. Depois de uns trezentos quilômetros Rio Napo abaixo, exaustos e famintos, estavam prontos para desistir. Por alguma razão, porém, Pizarro acreditava que a alguns quilômetros rio abaixo haveria algum povoado bem abastecido de suprimentos.

Orellana resolveu, então, prosseguir numa última tentativa de compensar os prejuízos da aventura infrutífera. Ele partiu com 57 homens, entre eles o frei Gaspar de Carvajal, descendo o rio Napo, a fim de encontrar alimento e obter um resultado mais honroso para a expedição. Foi no dia 26 de dezembro de 1541 – o dia em que Pizarro viu Orellana pela última vez. Pizarro e seus soldados esperaram pelo retorno de Orellana, devoraram os cães e cavalos que ainda restavam, mas Orellana não apareceu. Levou seis meses para que Pizarro, acompanhado pelos oitenta soldados sobreviventes (nenhum índio, cavalo, lhama ou cachorro sobreviveu), amargurado e enfurecido pela suposta traição de Orellana, fizesse o caminho de volta a Quito.

Levou somente um pouco mais do que isso para que Orellana descobrisse o maior rio do mundo, o Rio Amazonas! Segundo Gaspar de Carvajal, que mantinha um diário detalhado da expedição, a corrente do Napo era forte demais e em apenas um dia de viagem rio abaixo teriam percorrido cento e vinte quilômetros. Impossível navegar corrente acima. E o que era pior, as prósperas aldeias que lhe haviam prometido não se materializaram. Orellana foi, assim, forçado a seguir em frente. Algumas semanas depois, no dia 11 de fevereiro de 1542, atravessou a foz do Rio Napo e alcançou o Rio Amazonas propriamente dito. Orellana e seus soldados encontraram muitas tribos indígenas ao longo do Amazonas. Por algumas, foram atacados. Por outras, recebidos como “os filhos do Sol”. De todos os encontros com indígenas, nenhum foi mais memorável do que o ocorrido no dia 24 de junho.

A expedição passava pela foz do Rio Nhamundá (hoje divisa entre os Estados do Amazonas e Pará) quando foi atacada por mulheres guerreiras. Segundo Carvajal, “elas andavam nuas, porém com suas partes íntimas cobertas, carregando arco e flechas e lutando tanto quanto dez homens juntos”. Carvajal as chamou de Amazonas, em referência às guerreiras da mitologia grega, que amputavam um seio para melhor manejar as armas (em grego, a-mazos significa literalmente “sem seio”). Apesar do aparente encantamento de Carvajal com as guerreiras nuas, o contato com a nação das Amazonas lhe custou caro. Segundo ele próprio “Nosso Senhor achou adequado que uma flecha atingisse um dos meus olhos, de modo que o atravessasse de um lado a outro”. Assim, Carvajal perdeu seu olho esquerdo.

No dia 26 de agosto de 1542, Orellana e seus soldados-marujos finalmente viram o mar novamente. Eles não tinham mapas, bússola ou sextante. Mas não importava. Eles rumaram para o norte ao longo da costa. Alguns dias depois, ancoraram em Cubagua, uma pequena ilha na Venezuela, colônia espanhola. Orellana recebeu as merecidas honras na corte da Espanha. Deu nome ao imenso rio que havia descoberto - Rio Orellana – e o concedeu ao imperador Carlos V. Quis voltar e colonizar suas margens. Partiu da Espanha com quatro navios e quatrocentos homens. Mas viu seus sonhos naufragarem junto com seu barco, logo no delta do Amazonas. Tentou construir um novo barco, como havia feito duas vezes em sua expedição anterior. Ironicamente, falhou. Orellana finalmente sucumbiu à febre e morreu, para nunca mais ver o rio que temporariamente levava seu nome. As Amazonas tampouco foram vistas novamente, apesar dos esforços das sucessivas expedições que, inspiradas pelas crônicas de Carvajal, exploraram a região em busca das guerreiras nuas.

Os relatos de Carvajal caíram em descrédito. Alguns disseram que Carvajal inventou a estória dos ataques das Amazonas como um álibi para não voltar ao encontro de Pizarro. Outros foram menos severos, concluindo que talvez Carvajal não tivesse agido de má fé. Argumentaram que, ao longe, índios homens, com seus cabelos compridos, suas peles desprovidas de pêlos e suas coxas roliças, seriam suficientemente parecidos com índias, especialmente para os olhos de um bando de espanhóis cansados e famintos que não viam uma mulher há dezesseis meses (mesmo porque, como o próprio Carvajal relatou, as Amazonas tinham “suas partes íntimas cobertas”). Verdadeira ou não, a estória contada por Carvajal era tão atraente que o rio onde as guerreiras teriam sido vistas ficou logo conhecido como Rio Amazonas, e a floresta ao seu redor, Amazônia. O nome “Orellana” foi esquecido.

A épica viagem de Orellana foi um marco. Não somente pela descoberta do Rio Amazonas, mas também pelo valor emblemático de representar o primeiro contato da “civilização” com a Amazônia, berço da maior diversidade de animais, plantas e mitos do planeta. Por um lado, Orellana - com a ajuda de Carvajal - fundou as bases do que viria a se consolidar como o vasto imaginário amazônico. Graças a Orellana, a Amazônia nasceu misteriosa e fascinante aos olhos e ouvidos dos estrangeiros. Por outro lado, Orellana fundou a era da exploração da Floresta Amazônica. A expedição de Orellana deu, de fato, o tom do que seria, a partir de então, a relação entre a civilização e a floresta. Uma relação regida pela mistura de encantamento místico e interesse material irresistível e inescrupuloso. Por conta desse último, a Amazônia está ameaçada. Não que a floresta corra o risco de desaparecer queimada ou serrada até a última árvore, como tentam nos convencer os ambientalistas. A ameaça maior ocorre em outra esfera.

Mais concreta que a perda de biodiversidade na Amazônia, é a perda de diversidade cultural. A erosão cultural acontece silenciosa e despercebidamente toda vez que a televisão é ligada em um barraco de caboclos ribeirinhos ou que um turista compra o artesanato indígena fajuto vendido num hotel de selva. Toda vez que isso acontece, em algum outro canto da Amazônia, um curupira, um boto-encantado, uma cobra-grande, um mapinguari ou uma mãe-da-seringa deixa de existir, levando consigo um pouco do conhecimento tradicional acumulado ao longo dos séculos por índios e caboclos. A cultura e as tradições dos povos da Amazônia estão desaparecendo e, com elas, parte do encanto desse lugar. Resta, assim, bem pouco espaço para a tribo das mulheres guerreiras. O Domínio das Amazonas, origem e essência da Amazônia, está cada vez menor.

Serviço

ONDE: Se você quiser procurar pessoalmente pelas Amazonas, comece pela região entre os Rios Nhamundá e Trombetas. Ali ficava, segundo Carvajal, o Domínio das Amazonas. Estes tributários do Rio Amazonas são pouco habitados e as florestas em suas bacias estão relativamente bem-preservadas e pouco exploradas. Aproveite! Alugue um barco em Santarém (PA) para sua empreitada. O aluguel inclui a tripulação do barco (piloto e cozinheira) e as refeições. Aproveite para visitar os quilombos em Oriximiná e os tabuleiros de desova da tartaruga-da-amazônia na Reserva Biológica do Rio Trombetas. Na volta, tendo ou não encontrado as Amazonas, faça uma parada em Alter do Chão, na foz do rio Tapajós. O lugar é um paraíso de águas esverdeadas e praias de areia branca e tem um museu de cultura indígena imperdível.

QUANDO: Vale visitar a Amazônia em qualquer época do ano. Porém, entre setembro e novembro as águas estão mais baixas e as praias mais expostas. As praias do Rio Tapajós são lindíssimas nessa época do ano.

RECOMENDAÇÃO GERAL: Respeite sempre os costumes e a cultura das comunidades visitadas. E lembre-se que o primeiro passo para se poder respeitar uma cultura é conhecê-la. Informe-se!

Silvio Marchini é biólogo e pós-graduado em ecologia e conservação no Jardim Botânico do Missouri e na Universidade do Missouri em Saint Louis, Estados Unidos. Realizou pesquisas na área de ecologia e conservação de florestas tropicais nas reservas do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais, da parceria INPA/Smithsonian em Manaus, na Ilha de Barro Colorado no Panamá, em La Selva na Costa Rica e em El Verde em Porto Rico. Foi diretor acadêmico do Programa de Estudos e Ecologia da Amazônia da School for International Training - SIT. Atualmente é coordenador do Programa Pantanal do Wildlife Conservation Society/Instituto Mamirauá.
E-mail: silvio@amazonarium.com.br

  
  

Publicado por em

Juliana

Juliana

22/10/2008 22:26:57
eu amo falar sobre a amazônia porque ela é a maior fonte de vida que pode nos salvar um dia eu amo a amazônia:)

Quezia

Quezia

02/10/2008 11:01:17
eu amo geografia e esse trabalho esta otimo bem estruturado e comentado adoro falar sobre a amazônia que é onda esta um dos maiores recursos que aos poucos estam sendo destruido pelo homem que não rem conciência que precisamos dela para sobreviver ela é a principal fonte de oxigênio.