Os Quilombolas do Vale do Ribeira

Por Lélis Ribeiro A História contada pelos livros de escola, muitas vezes, deixa a desejar. Quem poderia imaginar, por exemplo, que a menos de 300 km da maior cidade da América do Sul, São Paulo, existem, ainda hoje, comunidades Quilombolas, remanesc

  
  

Por Lélis Ribeiro

A História contada pelos livros de escola, muitas vezes, deixa a desejar. Quem poderia imaginar, por exemplo, que a menos de 300 km da maior cidade da América do Sul, São Paulo, existem, ainda hoje, comunidades Quilombolas, remanescentes de escravos, que vivem de acordo com as particularidades de sua cultura?

Quando se fala sobre os primórdios da mineração de ouro no Brasil, nossas atenções voltam-se quase que automaticamente para as Minas Gerais. Nos livros clássicos de História, esse Estado é considerado o local em que o ouro foi encontrado pela primeira vez em nosso país. No entanto, documentos provam que as primeiras manchas auríferas exploradas no Brasil foram na região de Iguape, sul do Estado de São Paulo, em 1551.

Iguape teve também a primeira Casa de Fundição de Ouro do Brasil, fundada em 1630. O ouro retirado nas vilas de Apiaí, Iporanga e Xiririca, hoje município de Eldorado, era pesado e registrado em Registro (daí o nome da cidade), onde também era cobrado o dízimo. De lá, ia para Iguape, onde era fundido, convertido em barras e deduzido o quinto real devido (originando a expressão “quinto dos infernos”), sendo então remetido à Vila de Santos, onde se localizava o Tesouro Real da Fazenda.

Quando o ouro de Minas começou a despertar a cobiça dos exploradores, o do Vale entrou em decadência. Assim, muitos “Senhores” migraram deste para lá e, como transportar os escravos era mais dispendioso do que adquirir novos por lá, muitos grupos de escravos foram abandonados e, com isso, deu-se a origem dos Quilombolas, por volta de 1650. Esses grupos de ex-escravos, remaram pelo Rio Ribeira, contra a corrente, se refugiaram em áreas de difícil acesso e fundaram comunidades, hoje reconhecidas como comunidades Quilombolas.

No Vale do Ribeira existem dezenas delas, concentradas, principalmente, nos municípios de Eldorado e Iporanga. Tiveram uma história dura, de muita luta e resistência. Por vários momentos foram ameaçados de recaptura. Atualmente, com o apoio do ITESP – Instituto de Terras do Estado de São Paulo - e de ONG’s como o ISA – Instituto Sócioambiental - e o MOAB – Movimento dos Ameaçados por Barragens -, essas comunidades estão sendo reconhecidas pelos governos e têm suas terras demarcadas e tituladas.

Mas, como diria um bom quilombola, a luta continua: após conseguirem a demarcação e titulação de suas terras, muitas dessas comunidades sofrem com mais uma ameaça: um projeto da CBA – Companhia Brasileira de Alumínio – do grupo Votorantin, que pretende construir 4 hidrelétricas no Rio Ribeira, inundando áreas de Mata Atlântica, cavernas e parte do território de várias comunidades quilombolas, destruindo, para sempre, todo um patrimônio natural, histórico e cultural. A resistência já dura quase 15 anos e, pelo menos por enquanto, os quilombolas vão usufruindo de seus direitos duramente conquistados.

Mais recentemente, algumas comunidades estão apostando em uma nova fonte de renda e geração de trabalho para os seus jovens: o Ecoturismo, que vem ganhando força principalmente no município de Eldorado, que possui além de muita mata atlântica, cachoeiras de grande beleza e várias cavernas. Quase 70% dos guias de turismo, que na região são os Monitores Ambientais, são das comunidades quilombolas que ficam no entorno do Parque Estadual do Jacupiranga.

Esses Monitores, além de ganhar diretamente com o ecoturismo trabalhando como guias, são agentes multiplicadores da idéia em suas comunidades onde atuam também como educadores ambientais. Dessa forma o ecoturismo gera renda para as comunidades e, ao mesmo tempo, contribui para a conservação dos recursos naturais, históricos e culturais da região. E isso não é utopia, é fato.

Lélis Ribeiro é Biólogo e Monitor Ambiental de Eldorado.

  
  

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