Respeitar para Conhecer

Por Arthur Soffiati Até que se configurassem os movimentos de defesa do meio ambiente em suas várias correntes, na década de 1970, o turismo era uma atividade cujo fim coincidia com o de outras: ganhar dinheiro vendendo a oportunidade de consumir ali

  
  

Por Arthur Soffiati

Até que se configurassem os movimentos de defesa do meio ambiente em suas várias correntes, na década de 1970, o turismo era uma atividade cujo fim coincidia com o de outras: ganhar dinheiro vendendo a oportunidade de consumir alimentos, bens materiais e bens imateriais, como paisagens, edificações de valor cultural, centros construídos com este objetivo, como a Disneyworld, e outros.

Seu lema era conhecer para consumir, sem maiores preocupações em proteger a natureza e a cultura. Sempre que visito uma cidade ainda não conhecida, procuro comprar um guia turístico de modo a verificar o que está sendo vendido e de que forma. No guia Guarapari é Seu Nome, escrito pelo padre Antonio Nuñez, edição de 1987, logo no início, oferece-se o paraíso: `A saúde que você procura, o descanso com que sonha, a tranqüilidade de que você precisa, a paz que você deseja o ano inteiro, a alegria pura que você busca, a liberdade que você mais ama, o sossego a que você aspira desfrutar, a serenidade para o seu espírito, a pausa para sua meditação, lá no litoral espiritosantense está Guarapari.` Freqüentei este balneário durante muitos anos e pude acompanhar o inferno em que ele se transformou graças ao turismo. Hoje, este preâmbulo ao guia pode enquadrá-lo como propaganda enganosa.

Num guia turístico de Belém do Pará, entre outras maravilhas, encontrei esta: `Happy hours - Privat relax club - Relax para executivos, com lindas garotas para passar momentos de prazer com você.` O anúncio sintetiza bem o espírito do guia, que transforma a cidade num grande bordel de luxo e vende seus atrativos como se fossem prostitutas de classe. Mas, conhecendo a cidade com mais detalhe, conclui-se que o bordel não é tão luxuoso assim, tampouco suas meretrizes são tão distintas. É uma pena constatar que as belezas genuínas da cidade foram prostituídas e lançadas na marginalidade. Esta a proposta do guia: conhecer para explorar. Embora Florianópolis tenha muitos encantos, notei acentuada defasagem entre os anúncios que a Fundação Municipal do Meio Ambiente faz da cidade e os problemas relacionados à proteção dos patrimônios natural e cultural. No guia de turismo Michelin do Rio de Janeiro - Cidade e Estado (1ª edição, 1990), fala-se dos aspectos geográficos, recreativos, históricos, artísticos, folclóricos e gastronômicos. Quanto aos ecossistemas, há apenas breve referência à paisagem construída. No geral, nenhuma orientação acerca do respeito que deve acompanhar o turista em todos os ambientes arrolados.

Aliás, depois das explicações preliminares, o guia reduz-se a arrolar atrativos. A mesma visão norteia o Guia de Praias Quatro Rodas. Mesmo incluindo as unidades de proteção classificadas como parque e fazendo algumas recomendações, o conteúdo, no final das contas, resume-se a praias, hotéis, `campings`, atrações e restaurantes. Trata-se de incentivar o leitor a consumir bens materiais e imateriais. Até mesmo o Guia dos Roteiros Ecológicos, publicado por iniciativa da Embratur, acaba por limitar-se a efetuar um rol de ecossistemas que, por sua natureza - e não por suas peculiaridades - são vítimas de um turismo classificado como ecológico.

Não é muito diferente a concepção encontrada no exterior. Lendo Guia Fotografica del Cusco y Machupicchu, encontram-se fotos e um texto curto, ambos louvando as belezas colossais do centro político do império andino. Em nenhuma passagem, porém, há qualquer indicação de como deve se comportar o turista diante de monumentos tão majestosos. Passando dez dias em Cusco, pude constatar como o turismo vem prostituindo a cidade ao longo dos anos. Equívoco pensar que o socialismo representou, em relação ao capitalismo, não apenas uma ruptura no que concerne à estrutura econômica, à organização da sociedade e à vida política, mas também uma profunda mudança no tocante à concepção de natureza.

No Travel Guide Cuba, por exemplo, há anúncios de locais destinados à pesca e também à caça. Cuba está estraçalhada não somente por obra de uma revolução como também pelo turismo. Buena Vista Social Club, filme de Win Wenders, mostra uma Havana degradada por força do abandono e da atividade turística. Quando os movimentos de defesa do meio ambiente avançaram em sua crítica ao turismo, desmascarando a idéia de que ele consistia numa atividade não predatória, numa indústria sem chaminés e sem fumaça, as empresas que o promoviam tentaram absorver o golpe criando o `slogan` de que era preciso conhecer para respeitar, mesmo assim restringindo-o a áreas de proteção ambiental, que então se abriam como um novo campo de investimentos, como um rico e promissor filão.

Criou-se, assim, o chamado turismo ecológico para burlar a vigilância dos movimentos de defesa do meio ambiente. A concepção consumista e predatória continuou fundamentalmente a mesma. Em grande medida, trocou-se apenas o rótulo da garrafa, mantendo-se o mesmo conteúdo. Atualmente, depois de cerca de quinze anos de `turismo ecológico`, os ecossistemas brasileiros estão mais dilapidados ainda. Já passou da hora de substituir o perverso `slogam` `Conhecer para respeitar` por um outro, com prática correspondente: `Respeitar para conhecer`.

Arthur Soffiati é Historiador e escritor com vários livros publicados, especialista em História Moderna e Contemporânea pela Universidade Católica de MG, Mestrado em História Ambiental pelo Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da UFRJ, Doutorado em História Ambiental pelo IFCS/UFRJ e Professor da Universidade Federal Fluminense.
email: soffiati@.censa.com.br

  
  

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