Turistas e trabalhadores de verão no litoral brasileiro

Por Helton Ricardo Ouriques 1. A mobilidade: característica do homem moderno A modernidade, caracterizada pela generalização do trabalho como fundamento da existência social do homem, através de seu objeto por excelência - a mercadoria, rompe os ví

  
  

Por Helton Ricardo Ouriques

1. A mobilidade: característica do homem moderno

A modernidade, caracterizada pela generalização do trabalho como fundamento da existência social do homem, através de seu objeto por excelência - a mercadoria, rompe os vínculos (familiares e comunitários) que unem o trabalhador a seu lugar de nascimento. Ela institui o desenraizamento como fenômeno geral. O trabalho transforma o homem em ser absolutamente móvel, mas não sem sofrimentos e angústias, como discutiremos neste breve ensaio.

O homem moderno, na qualidade de trabalhador, possui como atributo fundamental a mobilidade, entendida como subordinação da força de trabalho a todas as variações de duração, intensidade e produtividade, como `uso capitalista das disponibilidades dos homens, da docilidade dos seus corpos` (Gaudemar, 1977:17). A transformação da força de trabalho em mercadoria, portanto, é o pressuposto de toda a mobilidade, absolutamente necessária para o processo capitalista de acumulação.

Em virtude do atributo social da mobilidade1, os homens se tornam migrantes. A migração aparece então como a situação normal do mundo moderno2. A migração será socialmente aceita porque encontra sua razão de ser na categoria universal produzida pelo desenvolvimento do capitalismo: o trabalho3. Podemos dizer, sinteticamente, que `...o trabalho contém em si, a partir de nossa representação atual do mundo, toda a inteligência do fenômeno migratório, da emigração e da imigração que, sem ele, seriam incompreensíveis e intoleráveis sob todos os pontos de vista...` (Sayad, 2000:21).

Além do trabalho, outro elemento constitui a condição do migrante: o retorno. Mesmo para aqueles que migraram há muito, e para os quais a migração já se tornou quase definitiva, persistem na memória e em alguns hábitos (alimentares, lingüísticos e de comportamento) a `poética do espaço`4 e o pensamento com o lugar original. O retorno existe, portanto, como a certeza de volta ao ponto de partida; como a promessa de um dia se voltar para o ambiente daqueles que foram deixados; e, inclusive, na forma de devaneios sobre o lugar que nunca mais será apreendido pelos cinco sentidos.

2. O turista como migrante temporário: uma hipótese plausível?

Não encontramos, na literatura sobre migrações, referências à figura do turista como migrante temporário. Mas, se não pensarmos no turista individualmente (o deslocamento de férias de uma família, por exemplo) e considerarmos o todo, pode-se perceber um traço essencial: o turista ciclicamente está viajando para lugares distantes de seu mundo cotidiano, sendo sua rotina anual de férias parte constituinte da `indústria do lazer`.

O turista temporariamente está fora de casa e sua presença, muitas vezes incômoda para os habitantes dos lugares receptores, é socialmente aceita e até estimulada pelo capital, seja ele público ou privado. O turista viaja porque, no passado, trabalhou. Os aposentados do primeiro mundo vivem viajando porque pouparam para conhecer o mundo a partir da terceira idade; o `homem-férias` trabalhou o ano inteiro só para levar a família para algum paraíso bucólico e exótico, etc. Desta forma, é possível considerar o turista como migrante temporário, já que: a) ele se mobiliza para o lazer porque, em algum momento do passado, trabalhou; b) seu movimento é temporário e cíclico (férias). Sua diferença essencial, em relação aos migrantes temporários citados por Martins (1986) é que ele é um possuidor de dinheiro (e aqui não importa a quantidade do mesmo, que define o tipo de turista) e se insere como sujeito atuante no mundo da mercadoria.

3. O trabalhador de verão: trabalho e retorno

Ao investigarmos, para outros fins, a realidade dos vendedores ambulantes no litoral brasileiro durante a temporada de verão, percebemos nitidamente formas de manifestação do retorno, explícitas ou implícitas, nos depoimentos dos nordestinos que percorriam o litoral de Santa Catarina durante a temporada 1994/956.

Esses trabalhadores se sujeitam às condições de existência mais adversas. Extensas e intensas jornadas de trabalho, com horas a fio de sol a sol e com o peso das mercadorias sob os ombros, submetidos ao mundo do trabalho que os afasta do lar. Migram porque foram expulsos do meio rural e das suas cidades de origem no Nordeste pela miséria, imposta pelo domínio capitalista que, neste caso específico, se traduz pela ausência, nos lugares de origem, do capital capaz de usá-los como força de trabalho.

Então viajam para o Sul do Brasil no verão, vendendo redes e utensílios de palha e corda produzidos no próprio Nordeste. Há dois tipos de situação destes migrantes temporários: os contratados e os que vendiam por conta própria. Os trabalhadores contratados se dividiam em duas categorias, por sua vez: os que recebiam um salário fixo e os que deixavam para fazer acertos ao término da temporada. A segunda categoria, os `autônomos`, se reuniam em suas cidades de origem, fretavam um caminhão com as mercadorias e viajavam de ônibus até o litoral catarinense, dividindo as despesas.

Para os contratados, a remuneração fixa (à época oscilante entre 1 e 3 salários mínimos) era pelo menos a garantia de subsistirem até o final da temporada. A situação daqueles que trabalhavam por venda de peças era de semi-escravidão, já que suas despesas de alimentação e moradia eram pagas pelo contratante. Em períodos de vendas baixas, deviam mais do que vendiam e ficavam dependentes de trabalhar em outros lugares ou em outras temporadas no mesmo lugar para pagar as supostas dívidas, sob cuja contabilidade não tinham quaisquer tipo de controle.

De uma forma ou de outra, em todos esses trabalhadores temporários emergia um traço comum: o desejo de retorno à terra natal. Isso, aliás, era o que tornava suportável o cotidiano de atribulações a que eram sujeitos e se sujeitavam. Defrontados com outro tipo de migrante temporário, o turista - para os quais o estar na praia simboliza a fuga do cotidiano, o lazer e o descanso das atividades normais de existência - os vendedores ambulantes reafirmavam a si mesmos que aquele universo de sol, mar e descanso não era para eles:

- O dia está bonito hoje, mas estou triste. Tenho dois filhos lá em Cipó [cidade do Estado da Bahia] e não vejo eles há dois meses. Estou com saudade. Eu sou analfabeto, nunca pude passear não, aqui para mim é só trabalho.

- Nós gostaríamos de conhecer a Amazônia, mas não temos dinheiro. Quem sabe um dia... Essa praia é bonita, mas estamos trabalhando, não dá tempo para aproveitar a natureza.

- Eu queria estar em casa, estou com saudades da minha mãe e do meu pai. Para mim bastava passar o carnaval em Salvador, mas nunca posso ir... O mar aqui é bonito, mas nem vale a pena tomar banho... É muito ruim ficar longe de casa.

Para o trabalhador ambulante, todas as praias que percorre são iguais porque ele não se reconhece enquanto usuário daquele mundo de divertimento e tranqüilidade. Ele está lá para trabalhar, é um apêndice das mercadorias que não circulam por conta própria. Por isso as maravilhas do verão não têm sentido para ele. Por isso sua festa não está lá, seu imaginário de viagens não está lá. A festa, está no passado e no futuro; as viagens, estão no reino da imaginação...

A festa não migra porque essa migração não é definitiva, permanece temporária, `transição inconclusa entre tempos históricos distintos` (Martins, 1986:59). O trabalhador ambulante em questão é um migrante temporário que vive entre o passado e o futuro. O passado como nostalgia, como um tempo que se foi e que se gostaria de manter intacto (a vida no âmbito familiar, nas relações de vizinhança, na comunidade). O futuro como ânsia de retorno ao lugar em que se viveu o passado, como promessa realizada de voltar.

Entre esses dois tempos, ele vive o presente de trabalho e angústia, um presente vivido em função do passado e do futuro. Os poucos momentos de descanso são dedicados ao devaneio com a terra natal do passado e com o desejo de retorno, no futuro, para o reencontro com um mundo que não é mais o mesmo.

4. O turista e o trabalhador de verão: a mediação do trabalho

Destaque-se aqui que a presença desses trabalhadores nas praias do Sul não passa despercebida pelo olhar do turista, esse migrante temporário socialmente aceito e desejado pela economia do lazer. Para uns, os ambulantes trazem a possibilidade de aquisição de mercadorias exóticas e, por isso mesmo, necessárias como lembrança do mês de férias. Para outros, os ambulantes são um incômodo, uma presença que perturba pela freqüência com que atravessam a praia.

Já o trabalhador ambulante vê o turista como aquele que tem dinheiro, o sujeito da boa vida que ele não possui, a afirmação de suas limitações de sujeito inserido de forma inferior, precária, nos mecanismos de reprodução social. A presença do turista confirma sua condição de estranho naquele mundo lúdico que ele não pode usufruir. A presença do turista reforça sua impossibilidade de viver como sujeito consumidor aqueles lugares porque o objeto por excelência, o dinheiro, está ausente de suas mãos.

Portanto, são mundos distintos que se cruzam fugazmente pela mediação monetária. Nada mais que isso. De um lado, um mundo de espetáculos e usufruto mercantil da paisagem e dos objetos, por parte do turista. De outro lado, um mundo de trabalho e nostalgia, por parte do vendedor ambulante. O único traço comum entre eles é o que os faz homens e mulheres modernos: ambos estão ali por causa da categoria universal, abstrata, que une a todos nós: o trabalho, sentido único de ser e estar no espaço. Os percursos só serão mais felizes quando encontrarmos outros sentidos para caminhar por aí...

Bibliografia

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo, Nova Cultural, 1987, 266 p. (Coleção: Os Pensadores).

CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis, Vozes, 1998, 611 p.

GAUDEMAR, Jean P. Mobilidade do trabalho e acumulação de capital. Lisboa, Estampa, 1977, 360 p.

MARTINS, José de Souza. O vôo das andorinhas. In: Não há terra para plantar neste verão. Petrópolis, Vozes, 1986, p. 59.

_____. O problema das migrações no limiar do terceiro milênio. In: O fenômeno migratório no limiar do terceiro milênio. Petrópolis, Vozes, 1998, p. 19-34.

OURIQUES, Helton Ricardo. Turismo em Florianópolis: uma crítica à `indústria pós-moderna`. Florianópolis, Ed. da UFSC, 1998, 150 p.

SAYAD, Abdemalek. O retorno: elemento constitutivo da condição do migrante. In: Travessia, São Paulo, Revista do Centro de Estudos da Migração, número especial, janeiro de 2000, 21 p.

VAINER, Carlos. A violência como fator migratório. In: Travessia. São Paulo, Revista do Centro de Estudos da Migração, maio/ago. de 1996, n. 25, p. 5-9.


  • Professor do Departamento de Economia da UFSC. Correio: helton@cse.ufsc.br

1 A história da criação desta mobilidade se confunde com a própria história do capitalismo, como destacado por Marx no célebre capítulo da acumulação primitiva em O Capital. Isso também é narrado por Castel, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis, Vozes, 1998.
2 Para detalhes, ver Martins, José de S. O problema das migrações no limiar do terceiro milênio. In: o fenômeno migratório no limiar do terceiro milênio. Petrópolis, Vozes, 1998, p. 19-34.
3 Ao discutir os deslocamentos compulsórios, Vainer (1996) chama a atenção para os silêncios da teoria a respeito das relações de poder, coação e violência que determinam grande parte das migrações na atualidade. Portanto, para além da determinação imposta pelo trabalho, há que se considerar, segundo ele, a violência como fator normal na migração moderna, já que `neste mundo liberal da liberdade, muitos milhões são os deslocados compulsórios, os refugiados e repatriados, os expulsos e clandestinos` (Vainer, 1996:9).
4 Para lembrar do clássico livro de Gaston de Bachelard, A poética do espaço: `pois a casa é nosso canto do mundo. Ela é, como se diz, freqüentemente, nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acepção do termo. Até a mais modesta habitação, vista intimamente, é bela` (Bachelard, 1987:112)
Fonte: Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia.
5 O objetivo da pesquisa era compreender o que chamamos, oportunamente, `o outro lado do turismo`, isto é, a realidade dos trabalhadores de verão em Florianópolis, Santa Catarina. Os vendedores ambulantes oriundos do Nordeste brasileiro eram parte dos trabalhadores entrevistados. Para detalhes, ver Ouriques (1998).

Fonte: Caderno Virtual de Turismo-IVT

  
  

Publicado por em

Fabio roberto dos santos

Fabio roberto dos santos

27/11/2008 21:04:10
Eu gostaria de saber se voces sabem qual o numero de mulheres que viajam ao litoral na epoca de fim de ano, ou algo parecido com isso?
Meu nome é fabio e estou fazendo um trabalho e presiso saber este numero aproximadamente. desde ja obrigado