Colunistas > Fotografia em viagens > Victor Andrade >A Foto que eu não fizO fotógrafo sempre tem de estar atento e carregar sua camera consigo29 de Junho de 2009. Publicado por Victor Andrade Definitivamente o fotografo deve andar com sua câmera, principalmente em viagens e não vacilar se há uma vontade irresistível de fazer uma foto. Certa vez na Patagônia Argentina eu estava deixando uma cidade de ônibus bem cedo rumo ao Chile, quando a beira de um lago eu vejo uma lua se pondo. Era por volta de 5 horas da manhã, a lua cheia estava no alto das cordilheiras e refletida no lago, o céu estava num tom entre azul e cor de rosa, pois o sol ia nascer, pensei em parar o ônibus, mas o meu tripé estava na mala no bagageiro e com certeza os outros passageiros não iam gostar muito da uma parada demorada. Enquanto eu me debatia entre parar ou seguir, o ônibus se distanciava da cena maravilhosa que eu só podia observar da janela e guardar na minha memória. Jurei que nunca mais iria vacilar, mas dois anos depois, na Serra da Capivara, no Piauí, eu estava numa Kombi voltando do Parque para a cidade, já entardecia e ao longe umas nuvens carregadas evidenciava uma tempestade. O guia e o motorista estavam ansiosos por chegar e evitar a chuva naquela estrada de terra no meio do nada, mas ainda pararam para dar carona a um morador local. Ao chegarmos ao sitio daquele senhor simples que carregava um saco e uma galinha, o motorista parou apressado e abriu a porta para ele sair. A cena que eu vi foi uma casinha no meio do sertão com alguns cactos mandacaru em volta, um céu azul escuro e carregado pela chuva que ia cair, a janela da casa iluminada por uma luz amarelada que vinha de um velho lampião e uma moça que se debruçou no parapeito. Seria uma foto linda se o motorista não tivesse arrancado rapidamente com a Kombi, enquanto eu ainda estava pensando em pedir alguns minutos para montar o tripé, a câmera e o flash e captar a cena. Quando eu comentei com outra pessoa que eu queria ter feito a foto, o motorista perguntou, “por que não pediu? Eu teria esperado”, ele disse. Daí para frente eu fiquei mais esperto e dificilmente perdi ou deixei de fazer uma foto, registrar uma cena que mexesse com meu interior e alguma emoção. O trabalho do fotógrafo envolve registros às vezes comuns, de fatos, lugares e pessoas, principalmente em viagens, quando tudo é novo e estamos mais abertos e atentos, mas em geral as fotos que eu faço tem uma motivação interna muito forte é como uma poesia, uma emoção, conteúdos que eu capto vindos de uma voz interna que sussurra pedindo para que eu aperte o botão da câmera. Mas recentemente de novo na Argentina, eu estava fazendo uma reportagem para uma revista, estava com mais duas jornalistas percorrendo a rota dos sete lagos, entre Bariloche e San Martin de Los Andes. Em San Martin a programação incluía uma vivência na natureza, um pequeno trekking perto de um rio e a beira de um lago fazendo uma série de exercícios que levam a uma conexão interior e espiritual e nos colocam em contato com a natureza, esses exercícios remetem a uma conexão com os princípios naturais para nos ajudar na vida cotidiana e a busca de nossos valores mais puros. Para isto rumamos para uma região mais afastada da cidade, pela região do Rio Hermoso, dentro do parque nacional Lanin, num extraordinário e muito charmoso hotel a beira do rio. Lá tivemos uma palestra explicando o que eles chamam de turismo de experiências ou turismo espiritual, depois rumamos para a margem do lago Meliquina para iniciarmos as atividades. Como o tempo estava frio e chuvoso hesitei em levar o equipamento fotográfico. “Ele só vai te atrapalhar e vai distraí-lo” me disse o guia, “é melhor deixa-lo”. Pensei em levar só a câmera com uma lente, mas acabei entrando no clima da viagem espiritual e com medo de molha-la, deixei-a no hotel. O resto da manhã permaneceu nublado e chuvoso, nada que um saco plástico na minha pequena mochila não resolvesse com a câmera, mas certamente não havia fotos a fazer com aquele céu cinza, a despeito de estamos numa região linda. Na parte final sentamos na beira do lago para trocarmos impressões e comermos um lanche enquanto o tempo se abria e foi então que eu vi uma das cenas mais lindas da minha vida. Do outro lado do lago as colinas rochosas estavam envolvidas por muitas nuvens e chuva, mas de repente as nuvens começaram a abrir e surgiu um sol que começou a iluminar e caminhar pelo topo das montanhas. Era como um balé de luzes que abria caminho pela névoa e em determinados momentos formava faixos de luzes douradas, como spotlighs, que iluminavam determinadas partes da vegetação e do lago. Chamei a atenção dos outros e comecei a lamentar não ter trazido a câmera, todos paramos para ficar olhando e ninguém tinha uma câmera para registrar aquilo. Ainda estonteado pela beleza da cena comentei que aquilo nunca mais vai se repetir, uma coisa destas não acontece duas vezes, são os caprichos com que a natureza nos brinda de vez em quando, é só estar atento e preparado para perceber olhar e se possível registrar. Todos admitiram que se não fosse por mim, talvez não tivessem olhado para a cena, eu estava sentado de frente para ela, minha mente está sempre atenta, treinada e preparada para enxergar, mas que adianta ter a mente preparada se não estamos com a câmera? Se valer o conselho, leve sempre sua câmera, mesmo que as condições pareçam adversas e nenhuma foto aparentemente possa ser feita. Nunca se sabe quando seremos brindados com uma cena excepcional, muitas vezes é antes ou depois das chuvas que elas acontecem, as vezes até durante. Da próxima vez eu levo minha câmera. |
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