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Respeito é Bom e todo mundo gosta
Respeitar as pessoas, avisos e os costumes do lugar pode evitar algum aborrecimento
24 de Julho de 2009. Publicado por Victor Andrade
 Nativo me aponta a lança com cara de poucos amigos - Foto: Victor Andrade
 Esta foto foi feita no começo da noite na ilha de páscoa. A câmera era uma Nikon FM2, fixa em um tripé com o obturador aberto em longa exposição de mais ou menos uns 20 minutos. Nela aparecem dois Moais, as famosas estátuas da Ilha, em meio a um céu escuro azulado. O clarão atrás a cabeça do Moai da frente era da lua, estrategicamente colocada ali no visor e ele está iluminado por vários disparos do meu flash na minha mão e bem perto dele. A câmera ficava fixa e eu ia andando no escuro com o flash na mão. O Moai ao fundo também está iluminado pelo meu flash, fui andando no escuro e lá perto disparei-o várias vezes, como fiz com o Moai em primeiro plano. Disparei o flash diversas vezes para ilumina-lo bem. Uma vez que a estátua é de pedra escura, que absorve muita luz, foi preciso usar bastante o flash para ilumina-los. Como eu caminhava no escuro, sem lanterna e o flash estava na minha frente, entre eu e a câmera, não apareci na foto. O tempo de exposição foi entre 15 e 20 minutos, conforme se pode ver pelo grande movimento das estrelas. - Foto: Victor Andrade
Respeito é bom e todo mundo gosta
Quando se viaja encontramos diferentes grupos de pessoas que vivem e pensam de modo diverso do que estamos acostumados no dia a dia. Isto mesmo dentro do Brasil, um país de dimensões continentais, imagine então no meio do oceano Pacifico, mais especificamente na Ilha de Páscoa, onde eles se auto intitulam “o umbigo do mundo”. Visitei a ilha na primeira vez no final dos anos setenta, descobri que não era tão difícil nem tão caro viajar para este território chileno, servido pela Lan Chile, numa escala de seu vôo ao Tahiti.
 Moais na encosta de Ranu Raraku, ao por do sol Foto: Victor Andrade
Naquela época só havia o hotel do governo, e os nativos hospedavam os turistas em suas casas. Tudo era muito simples e confortável, quase não havia carros nem quaisquer conveniências. Todos eram muito hospitaleiros e gentis, viviam do turismo e do artesanato. Se você tivesse um suprimento extra de roupas, sabonetes, sapatos e outras “preciosidades”, sua estadia poderia sair de graça na ilha, tão grande era a carência e a dificuldade, pois tudo vinha de avião do continente. Agora eu voltava depois de dezoito anos para uma reportagem da revista Terra, não sem uma certa expectativa do que poderia encontrar.
 Conjunto de Moais ahu Akivi na ilha, estão longe da praia, mas são os únicos que olham para o mar Foto: Victor Andrade
Quando o Boeing furou as nuvens, fez uma curva para a esquerda, consegui ver a terra lá em baixo, olhei ansioso pela janela para ver se conseguia reconhecer alguma coisa. Após cinco horas de vôo pelo oceano Pacifico era um alívio estar chegando, mas tive a estranha sensação de que não estava voltando ao mesmo lugar. Cheguei na véspera do Tapati, a maior festa local. Fazendo uma grotesca comparação, o Tapati é para eles quase como o carnaval para os brasileiros. O movimento do aeroporto era enorme e tive muita dificuldade para encontrar a família que me hospedaria. Hospedar-se com os nativos continua sendo a melhor opção, mas abriram muitos hotéis novos depois que o ator americano Kevin Costner rodou por lá o filme Rapa Nui alguns anos atrás. Dizem que injetaram mais de oito milhões de dólares na mão dos ilhéus que se viram com uma enorme quantia de dinheiro da noite para o dia. Isto resultou em ruas calçadas, supermercados, restaurantes, vídeo locadoras, lojas de conveniência, locadoras de automóveis, restaurantes, hotéis, etc. Um choque para quem esperava encontrar tudo como antes, quando dependiam exclusivamente da minguada ajuda do governo chileno e dos ainda escassos turistas que se para lá aventuravam. Mas apesar disso, a ilha continua com sua natureza preservada, duas belas praias, vulcões e os silenciosos moais, gigantescos guardiões de pedra que observam e nada revelam dos segredos pascoenses. È nítida a diferença social de quem vive na vila de Hanga Roa da dos nativos que vivem de modo mais selvagem do outro lado da ilha. Estes não se beneficiaram do dinheiro continental, continuam sua vida simples em casas de pedra, vivem no lombo de cavalos selvagens e tem uma atitude de desprezo para com os turistas. Mas na época do Tapati eles se integram e participam dos festejos, levam muito a sério.
 Competidor desce a encosta no tronco de bananeira Foto: Victor Andrade
O Tapati é uma espécie de samba do crioulo doido pascoense, é um festival de comidas e artesanato com eleição de miss, danças típicas polinésias, concurso de pintura corporal, e uma competição de esportes estranhos como, arremesso de bananeira à distância, descida de encosta de vulcão deslizando num tronco de bananeira, travessia de um lago vulcânico num barco de totora e uma competição nas bordas do vulcão Rano Raraku, onde se disputa uma espécie de “triatlon” com a travessia a nado do lago, voltas completas na cratera e uma corrida com pés descalços e dois cachos de bananas nas costas. Em resumo, é uma competição entre duas famílias, que indicam a rainha da festa e todos os envolvidos nas competições estão competindo por uma ou outra família. Ganham os pontos para as familias quem venceu as competições e quem fez a melhor comida ou a melhor dança, etc. A família que ganhar o maior número de pontos coroa a rainha ou a miss da ilha, naquele ano. Mas o ponto alto da festa é a representação teatral da chegada do rei Hotu Matu'a na praia Anakena em duas grandes canoas com vários súditos pascoenses.
 festa da chegada do rei Hotu Matu´a Foto: Victor Andrade
No ano que eu fui esperaram o anoitecer para começar a festa, mas já estávamos todos por lá à tarde, toda a ilha estava convidada, toda a ilha estava lá. Todos estavam se preparando para a festa, os nativos que se enfeitavam e se vestiam a caráter e os turistas que comiam, bebiam e fotografavam tudo. Eu estava lá, fotografando, ansioso por um bom trabalho, estava caprichando mesmo. Aproveitei para fotografar as pessoas fantasiadas, principalmente os ilhéus mais pobres que pareciam mais selvagens e realistas, usando folhas pelo corpo. Eu nem vi direito como aconteceu, mas foi só eu apontar a câmera para um sujeito sentado no chão, ele apontou sua lança de volta para mim e grunhiu algo ininteligível. Eu achei que ele estava brincando, afinal era uma festa e fomos todos convidados a celebrar, nem quando fui advertido por outro sujeito, que ele não queria ser fotografado eu não dei crédito, mirei a câmera e disparei. Ainda com a câmera no rosto percebi quando um outro selvagem levantou correu em minha direção e me agarrou gritando: - Por que no lo respeta, por que? Por que não o respeita? Surpreso, agarrado e preso por aquele sujeito que me empurrava, eu não conseguia me desvencilhar. Comecei a urinar no calção, numa reação involuntária e humilhante, enquanto um monte de gente se juntava a nossa volta tentando em vão que o cara me soltasse. A muito custo o cara me largou sob protestos e eu não entendia a gritaria a minha volta. Um chileno se aproximou perguntando se eu estava bem e inquiriu porque que eu fotografara o sujeito, apesar da advertência. Expliquei que eu não entendi direito, não pensei que a coisa fosse tão séria, fui pego totalmente desprevenido. Para mim, estar ali, era como estar num sambódromo com uma câmera na mão e todos querendo posar para você e afinal, passaram dias anunciando a festa e todos nós deveríamos comparecer, mas pelo jeito não era tão festivo assim. Marquei bobeira, não respeitei aquele nativo, que realmente não queria ser fotografado. Ao revelar o filme, procurei o fotograma e lá está o sujeito sentado me apontando sua lança e me olhando feio, enquanto a ponta da lança do outro que me agarrou, já aparece ameaçadora entrando no quadro. Eu nem pude enquadrar direito, mal havia percebido o outro entrando no quadro, pois na fração de segundo que a foto é disparada o espelho da câmera levanta, o visor escurece e a gente não vê o que está acontecendo, mas sem querer disparei no momento exato. Lição número um, devemos sempre perguntar e pedir permissão quando fotografamos alguém, principalmente quando não conhecemos os costumes. Não duvidar quando alguém diz que não quer ser fotografado. Lembrei que este é um dos conselhos que um fotógrafo sempre ouve, pedir primeiro antes de fotografar e foi o que eu passei a fazer com estranhos, principalmente fora do meu país.
 Nativa nada no mar do pacifico, proximo a caverna da ilha Foto: Victor Andrade
Hoje todo mundo se julga dono da sua própria imagem, as pessoas são mais esclarecidas e a maioria sabe muito bem até fotografar, senão com câmera, com um celular. Mas principalmente temos de respeitar as pessoas, os moradores do lugar em que viajamos, estamos na casa deles. Por mais simples que um lugar aparente, é sempre a casa de alguém. Mas nem sempre as pessoas são arredias, muitos gostam de posar e alguns até cobram por isto, chegam a ter tabelas de preço, nada que uma boa conversa não resolva. Depois que tudo passou procurei refletir e entender o que acontecera, conversei com algumas pessoas e descobri um movimento social separatista na ilha, por parte dos mais pobres é claro, mas cheguei a conclusão de que aquele não foi com a minha cara mesmo e claro, não gosta de turistas. Tudo bem que eles devem se sentir segregados, tudo bem que eles não gostem dos estrangeiros, tudo bem que eles queiram se separar do Chile, mas precisavam descontar em mim? Graças a Deus tudo não passou de um susto.
Estas fotos são do tempo do filme, nos anos 90. Usei uma câmera Nikon FM2, objetivas Nikon 20mm f4, 28mm f2.8, 55mm f 2.8, 105 mm f2.5 e 180mm f2.8, filmes Fujichrome Provia 100.
 Tive a idéia de fazer uma foto noturna dos Moais, as famosas e misteriosas estátuas da ilha. Escolhi para isto o Tahai, este conjunto de Moais que fica bem próximo a vila de Hanga-roa, aproximadamente um quilômetro. Cheguei lá bem no final da tarde, quando ainda tinha bastante gente, é um dos melhores pontos de por do sol da ilha e fiz algumas fotos, pois a luz estava muito boa, mas a medida em que o sol se punha as pessoas iam indo embora. Quando escureceu, eu me vi sozinho ali e foi então que eu comecei a fotografar de verdade. Como era noite da lua cheia, esta me ajudava a enxergar, por que eu não queria acender a lanterna e ao mesmo tempo a lua iluminou o céu. A câmera ficou fixa em um tripé, enquanto eu ia andando no escuro com o flash na mão. O obturador ficou aberto numa longa exposição, nela aparecem cinco Moais, em meio a um céu escuro azulado. A lua está atrás da cabeça do primeiro Moai, o clarão da lua foi estrategicamente colocado ali no visor e o flash ilumina muito suavemente, quase imperceptivelmente as estátuas. A exposição foi de quase 20 minutos, dá para ver pelas estrelas que riscaram bastante o céu. O trabalho foi publicado na revista Terra, que usou uma destas fotos noturnas para a abertura da matéria sobre a Ilha de Páscoa. Câmera Nikon FM2, objetiva Nikon 20 mm F4. Diafragma 5.6, filme Fuji provia Iso 100,Flash Nikon SB 25, tripé slick e cabo disparador para acionar e travar o botão de disparo. - Foto: Victor Andrade
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