Colunistas > Fotografia em viagens > Victor Andrade >São Gonçalo do Rio das Pedras, no coração da estrada RealViagem pela estrada Real e suas pequenas cidades, casas e sua paisagem, um hiato no tempo.29 de Maio de 2009. Publicado por Victor Andrade Estou inaugurando minha coluna de comentarios de fotos de viagem. Para esta coluna eu escolhi um fato pitoresco e não uma foto em si, mas como a vida nos coloca em situações curiosas e que tem a ver com a nossa atividade. Acredito que as coisas não acontecem por acaso em nossa vida e nossas escolhas são direcionadas pelo nosso destino. Nesta ocasião eu estava fazendo uma reportagem para a revista Terra com o jornalista Sergio Tulio Caldas, acompanhavamos um grupo de cavaleiros e aventureiros pela estrada Real em Minas Gerais. Cada curva de estrada pode revelar uma surpresa, principalmente nesta região onde a estrada Real liga Conceição de Mato Dentro, Serro e Diamantina. É um trecho muito bonito, a região atinge as alturas pela a estrada de terra que serpenteia e sobe morro acima, é pura Minas Gerais. Ali a estrada Real fica ainda mais bonita e mais interessante, com lindas formações rochosas a beira da estrada e a serra do espinhaço ao fundo, com o pico do Itambé dominando a paisagem. Entre as cidades de Serro e Diamantina temos Milho Verde e São Gonçalo, distantes apenas sete quilômetros uma da outra, com dezenas de trilhas, cachoeiras e uma bela mata intocada, a expedição Spix e Martius na estrada Real em 1999 parou aqui por dois dias. A tropa chegou na igreja para manter a tradição e rapidamente eu procurei a pousada dos Cinco Amigos em frente a ela para nos hospedar, lá ficou sendo uma espécie de quartel general da expedição. A pousada fica num antigo casarão colonial com varanda, bem na beira da estrada, que neste trecho é apenas uma rua que corta a cidade. Eu e o Sergio ficamos num quarto com janela para a rua, eu fiquei na cama embaixo da janela e ele ao lado da parede. No dia seguinte ao amanhecer percebi que já havia um movimento de gente lá fora e o Sergio ao acordar deparou com uma sombra se mexendo na parede acima de sua cama. O que é isto, ele me perguntou? - É o princípio da fotografia eu falei. O quarto está escuro, só há uma fresta na janela, um pequeno ponto que deixa passar a luz e projeta na parede a cena que está lá fora, ou seja, as pessoas andando parecem estar fazendo isto na parede. E realmente a gente via pessoas andando pela parede. - Foi assim que inventaram a fotografia, eu disse. Primeiro levavam grandes caixas de madeira para onde queriam registrar uma cena, de um lado havia um pequeno furo, do outro um papel fixado na parede da caixa, onde algum artista desenhava a cena refletida lá fora, depois inventaram e aperfeiçoaram as lentes e a ótica, o que facilitou visualizar e desenhar. Daí para inventarem um jeito de captarem e fixarem a imagem no papel foi um pulo e foi inventada então a fotografia, literalmente escrever com a luz. Depois de um breve silêncio ele exclamou: - Andrade, você está dormindo dentro de uma câmera fotográfica, já pensou nisto? Eu ri ao me ver nesta situação, num velho quarto, numa casa colonial de uma cidade antiga. São Gonçalo parece ter parado no tempo por suas casas e pessoas, pelas cachoeiras, rios e matas intocadas e até nas fotografias. Vivemos ali um pequeno hiato na viagem e no tempo. |
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