A Natureza não corre riscos

Os seres humanos - considerados, por si mesmos, seres sagrados, ou até divinos - possuem uma espécie de sentimento atávico, contrário à Natureza. De fato, ele foi o primeiro ser a não poder contar com a Natureza para sua própria defesa. Outros animais def

  
  

Os seres humanos - considerados, por si mesmos, seres sagrados, ou até divinos - possuem uma espécie de sentimento atávico, contrário à Natureza. De fato, ele foi o primeiro ser a não poder contar com a Natureza para sua própria defesa. Outros animais defendem-se subindo aos galhos das mais altas árvores; ou possuem cores e formas que lhes permitem confundir-se com as folhagens; alguns refugiam-se graças a órgãos ou deformações que lhes permitem perfurar o solo; ou voam; ou permanecem algum tempo sob a água. Finalmente, há os que foram providos de garras poderosas, dentes ou até venenos fatais que lhes permitem enfrentar toda sorte de inimigos.

Ao Homem, pelo contrário, a Natureza só lhe prodigalizou pequenos detalhes estruturais que lhe facultaram a inteligência. Inteligência essa que lhe permite, para defender-se, destruir a Natureza. Onde vive o ser humano, as florestas são arrasadas, os rios conspurcados e desviados de seus cursos, os solos impermeabilizados pelo asfalto, as substâncias arrancadas ao seio da Terra para transformar-se em materiais e energia para as construções ciclópicas com que mudam a paisagem a seu gosto.

Os artistas foram, provavelmente, os primeiros a reverenciar a Natureza, reconhecendo nela elementos estéticos que o Homem não é capaz de produzir ou substituir. Por isso, os defensores da Natureza são ainda hoje chamados de "sonhadores" e "poetas", pelos pragmáticos... Mesmo assim, as tendências mais modernas, seja na poesia, seja nas artes plásticas, têm cedido àquele atavismo primário, repelindo a Natureza "pura" e original e substituindo-a por sentimentos mais íntimos e subjetivos.

No entanto, esse processo de desnaturação - como qualquer outro processo vigente na Natureza - seguiu um caminho circular em que a própria ciência, em seu antagonismo perseverante, conduziu à descoberta surpreendente de que é a Natureza que conduz nossos passos e que somente obedecendo aos seus critérios podemos ter futuro como espécie viva. Do contrário, seremos dissolvidos num processo inexorável, sem retrocesso, que, ao longo de milhões de anos, tem garantido sempre a sobrevivência do mais viável. Pois a Natureza não corre riscos! Ela não é vingativa: apenas segue o seu curso.

O Dia Internacional do Meio Ambiente não é, pois, uma data de glórias ou comemoração de fatos heróicos. Ao contrário, deve convidar a sérias preocupações para os dias futuros...

  
  

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