Alexandre Freitas

O EcoViagem conversa com Alexandre Freitas, criador e organizador da Expedição Mata Atlântica, a maior corrida de aventura do Brasil.

  
  

O EcoViagem conversa com Alexandre Freitas, criador e organizador da Expedição Mata Atlântica, a maior corrida de aventura do Brasil.

CORRIDAS DE AVENTURA - UMA EXPERIÊNCIA ÚNICA.

EcoViagem: Como as corridas de aventura chegaram ao Brasil?
A. Freitas: Em 97, eu fui participar de uma corrida de aventura na Nova Zelândia. Gostei, filmei mais de 30 horas de prova e em 98 lancei a Expedição Mata Atlântica aqui no Brasil.

EcoViagem: E por que a Mata Atlântica?
A. Freitas: Porque é uma área de mata fechada que apresenta dificuldade para os atletas. Também é uma bandeira de preservação, porque restou uma faixa muito pequena no Sudeste do Brasil, sendo um ecossistema único, que não existe em nenhum outro lugar do mundo. Queremos mostrar para o próprio brasileiro uma mata tão bonita, cheia de diversidade e que ninguém vê.

EcoViagem: Por que, no último ano, as corridas de aventura tiveram um crescimento tão grande?
A. Freitas: Porque nós (Sociedade Brasileira de Corridas de Aventura - SBCA) fomentamos todas elas, injetamos recursos, equipamentos, subsidiamos equipes e inscrições, em relação ao preço normal e, com isso, o esporte cresceu. Também aumentou o interesse das pessoas em fazer esportes junto à natureza. Mas eu creio que o mais importante foi a organização do Circuito Brasileiro de Corridas de Aventura. Conseguimos montar um modelo que barateou muito para as equipes o custa de participação. Apesar de ainda ser caro, é muito barato em relação a fora do Brasil. Uma corrida de um fim de semana nos EUA custa em torno de 1.200 dólares por equipe, enquanto aqui custa 600 reais, menos de um terço do valor.

EcoViagem: O Circuito teve uma boa receptividade por parte do público?
A. Freitas: Sim. Eu acho que já passou essa fase das pessoas verem as corridas de aventura como esportes radicais. Radical é sair na rua e morrer atropelado ou tomar um tiro num assalto. Agora se você vai para o mato, sabe o que está fazendo, leva todos os equipamentos exigidos pela organização e faz todos os cursos obrigatórios, não tem nada de radical. Você pode até se machucar, mas está sabendo o que está passando.

EcoViagem: A EMA - Expedição Mata Atlântica - é voltada para profissionais da área?
A. Freitas: Eu diria que a Expedição Mata Atlântica desse ano é uma prova difícil, para equipes que já tenham uma qualificação, mas não profissionais, pois não existe profissional de corrida de aventura no mundo ainda. É para pessoas que já participaram das provas do circuito, têm uma certa familiaridade com os esportes que serão praticados, têm uma noção do que é ficar 3, 4, 5 dias sentindo frio e uma série de dificuldades. O que vai valer para eles é, depois de uma semana, as lembranças de tudo aquilo, que só eles vão ter. Mesmo o público que está vendo através da televisão ou internet, não consegue sentir isso. O cara sofre, sofre, sofre e quando termina a prova diz "Nossa! Nunca mais vou fazer!". Depois de uma semana, ele fala "Quando é a próxima?". Entra no sangue e é por isso que o número de participantes está aumentando tanto.

EcoViagem: Você acha que é essa sensação que leva as pessoas a participarem desse tipo de prova tão desgastante tanto física quanto psicologicamente?
A. Freitas: Tem muita gente contra, falando que é algo muito radical no sentido de desgaste. Desgaste é ficar na frente da televisão. Pode ser ruim ficar uma semana dormindo e comendo mal, mas tem o outro lado. O que você vai passar é único, estando em lugares onde nunca mais estará. Muita gente só olha o outro lado, "Pó, mas você vai dormir 2 horas por noite?". Vou, e daí? Quantas vezes as pessoas já ficaram sem dormir para sair à noite, em uma balada? E quanto você ganhou? Uma dor de cabeça no dia seguinte. Só quem sente o melhor lado é o cara que corre. E é por isso que o número de participantes está aumentando. Se fosse tão ruim, não iria aumentar tanto.

EcoViagem: Para começar a participar de corridas de aventura é preciso ter praticado as modalidades esportivas envolvidas?
A. Freitas: Nós organizamos uma escola de corrida de aventura, a EMA Escola, a única do Brasil. Já levamos pessoas sedentárias para percorrer 80km em um fim de semana. É o início, onde as pessoas percebem que precisam treinar se quiserem continuar. As pessoas têm mais dificuldade na mountaim bike, por isso temos pouco deste esporte na EMA Escola. Todos remam e andam (damos uma série de técnicas para não machucar o pé, etc). Aí elas arrumam um motivo para treinar e não só ir a uma academia e ficar lá puxando ferro.

EcoViagem: Quem determina a segurança das provas da EMA?
A. Freitas: Existe uma série de protocolos internacionais que devem ser cumpridos. Nós estamos há 3 anos realizando corridas de aventura e, mesmo nesse ano, tivemos provas que não cumpriram uma série de exigências e por isso não estarão no circuito no ano que vem. Existe uma linha de segurança universal. A equipe tem que ter certificados, equipamentos. Tem que haver equipe médica, de resgate, helicóptero... Na EMA, temos 2 para segurança e que também são utilizados para filmagens. Só existem 4, 5 provas no mundo que utilizam um aparelho chamado beacon, que emite um sinal por satélite para a Força Aérea Brasileira, que nos informa se há uma equipe perdida na mata. As equipes também levam um GPS. Se precisarem, elas abrem o GPS e localizam-se, perdendo tempo de prova e caindo de categoria ou na classificação. A prova deste ano tem 350 pessoas envolvidas na organização.

EcoViagem: Se algum competidor sofrer um acidente grave ele terá socorro?
A. Freitas: Sim. Mas pense em algo: você pode morrer atropelado em frente ao Hospital das Clínicas ou morrer do coração em frente ao Hospital do Coração. Existe um tempo médio mundial para buscar uma pessoa na mata. Se por acaso o que ela teve demandou menos tempo, será uma fatalidade. Hoje eu coloco a Expedição Mata Atlântica como a terceira ou quarta prova do mundo em questão de segurança. Existe uma central ou base, que pode ser acionada automaticamente caso haja um problema; pessoas qualificadas para uma varredura, por exemplo, caso o helicóptero não possa subir. Tudo está de acordo com os protocolos.

EcoViagem: Como a corrida é lucrativa para os patrocinadores, principalmente para os patrocinadores das equipes?
A. Fretas: Nós temos muitos patrocinadores em equipes esse ano. No ano passado tínhamos 2 ou 3 equipes com patrocinador e agora temos 27 das 33. O nome das equipes é o do patrocinador, geralmente. Hoje, tem equipes sendo superavitárias, ou seja, ganharam mais dinheiro do que eles precisam para participar da prova. Já virou um negócio lucrativo para elas. O patrocinador no Brasil ainda não enxergou o mercado.
O patrocinador de esportes de aventura tem que estar dentro da EMA. As corridas de aventura são marca registrada da SBCA. É uma oportunidade que estamos dando aos patrocinadores e que ele não terão em outro lugar. A EMA 2000 terá a presença de 70 repórteres! E é barato patrocinar uma equipe. Mas a crise no país dificulta. Se eu tivesse uma empresa, entraria nesse negócio, pois a marca vai aparecer muito.

EcoViagem: Qual o principal objetivo da EMA?
A. Freitas: Eu trabalhei 16 anos no mercado financeiro e hoje estou fazendo isso por prazer. Quero mostrar para a população brasileira e internacional esse mercado que ninguém enxerga. A gente desce a Serra do Mar e só olha para frente, sem reparar no que está atrás, na mata litorânea. Estamos divulgando isso profissionalmente, com regras e segurança. Por exemplo, muita gente tem medo de fazer lipoaspiração por causa de problemas com 2 ou 3 médicos. Isso queima o filme da lipoaspiração. Por isso temos uma preocupação com regras e segurança, para que qualquer um não chegue e fale "Vou fazer uma corrida de aventura".

EcoViagem: Qual é o papel ambiental da EMA?
A. Freitas: Fazemos um projeto sócio-ambiental. Metade do valor das inscrições vão para as áreas envolvidas em cobertor, galocha, caderno, rádio HT, GPS, barco, etc. A idéia é fazer com que as pessoas que estão naquela região não realizem êxodo. Qual é um dos grandes problemas hoje de desmatamento? O cara que mora na beira da praia, em uma casinha de pescador é assediado e vende a casa para um paulista ou carioca. Aí ele vem para São Paulo e o dinheiro que ele recebeu dura 3 meses, porque ele compra geladeira, televisão, etc. Então, ele volta para sua terra. Se ele morava a 100m do mar, ele vai 30m para cima e desmata tudo para construir a casinha dele. E é difícil tirar ele dali, pois ele é morador local. A nossa idéia é conscientizá-lo para ele não vender mais as casas para turistas e dar condições para ele morar lá: ter medicamento no posto de saúde, material escolar, etc. Não queremos só dar uma consciência ambiental, precisamos fazer com que o morador local não saia dali e entenda que aquele lugar vale ouro. As equipes têm que doar material escolar, material ambulatorial e limpar uma estrada, além de fazer mutirão de limpeza em áreas de transição que têm uma visitação constante. As equipes de apoio também. Quando uma equipe de apoio sai, a que fica é responsável pela que saiu, fortalecendo a fiscalização entre elas. Em 98, depois da prova, tive que passar limpando as trilhas. Em 99, ninguém jogou lixo e, nesse ano, vamos fazer com que limpem lixo local.

EcoViagem: O que mudou para a edição 2000?
A. Freitas: A quantidade de equipes estrangeiras pulou de 6 para 11. O nível das equipes subiu muito com a realização do circuito. A EMA hoje não é mais uma simples corrida de aventura. É um megaevento que está vendendo o Brasil lá fora. A idéia é mostrar para o estrangeiro que o Brasil também é um país sério e não só cheio de corrupção, que nós fazemos as coisas direito. A corrida de aventura é uma forma de turismo, principalmente para as equipes estrangeiras, que vão conhecer um país de uma maneira totalmente diferente do que indo para uma cidade.

EcoViagem: Então, as expectativas são boas?
A. Freitas: Está tudo positivo, tudo fluindo bem. As pessoas estão envolvidas. Pode acontecer uma fatalidade e ter que mudar alguma coisa na prova? Pode, mas isso é decorrência de uma corrida de aventura mesmo.

  
  

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