Antonio Carlos

Sociólogo e doutor em meio ambiente, Antonio é brasileiro e vive na Alemanha há mais de 30 anos. Está a frente de um projeto na mata atlântica na pequena cidade de Itapira (SP).

  
  

Sociólogo e doutor em meio ambiente, Antonio é brasileiro e vive na Alemanha há mais de 30 anos. Está a frente de um projeto na mata atlântica na pequena cidade de Itapira (SP). Ele contou ao EcoViagem um pouco da sua experiência ambiental nos dois países em que vive.

Cesar Greco

Cesar Greco

EcoViagem: Como você se envolveu com as questões ambientais?
Antonio Carlos: Estudei sociologia na Alemanha e terminei o curso em 1978 quando começou a surgir o movimento verde. Em seguida fiz uma pós-graduação e o tema que estava sendo sugerido era planejamento ecológico, com isso percebi que tinha que aprender muito na Alemanha se fosse um dia trabalhar com ecologia no Brasil, principalmente porque os alemães são um dos precursores do tema no mundo. Outro motivo que levou me a aprofundar na área foi a forte presença do partido verde na Alemanha na época.

EcoViagem: A partir do conhecimento que adquiriu na Alemanha em que projetos você os usou no Brasil?
Antonio Carlos: Quando cheguei ao Brasil, em 1983, fui trabalhar para a Eletro Sul, em Florianópolis, que estava em guerra com os atingidos pelas barragens. Eles queriam construir uma barragem e as pessoas iam perder casa, a sua cultura e não receberiam nada. Aí mostrei para eles que nós tínhamos que fazer um resgate de todo o conhecimento popular das cidades onde seriam afetadas e dos rios que estavam sendo estudados para a construção da barragem. Então propus a idéia do desenvolvimento de planejamento integrado, quer dizer, se você faz uma barragem ela tem de ter outras função além de produzir energia, ela tem de ter a função de lazer, de turismo, de pesca, de irrigação, etc. Na época consegui colocar, pelo menos, no papel e nas discussões a idéia de que a ecologia deveria ser parte integral de qualquer planejamento que se fizesse no Brasil.

EcoViagem: Por conta desse fato, a rejeição de algumas empresas na época, até mesmo do governo, você não acha que o Brasil “acordou tarde” para a questão ambiental?
Antonio Carlos: No Brasil temos um grande problema que é justamente muita natureza. Por exemplo, os alemães vêm para cá e ficam impressionados com as nossas belezas, já os brasileiros, em alguns casos, não importam a mínima, estão acostumados, ou seja, temos um excesso de natureza. O que não temos ainda talvez sejam instrumentos de preservação da natureza, e um pouco de capital para utilizar esses mesmos recursos naturais para criar empregos e empreendimentos que possam atrair dinheiro para proteger o ambiente natural. Por exemplo, na Alemanha o estacionamento do parque nacional cabe três mil automóveis, mas a entrada custa US$ 10. Então o parque ganha uma fortuna com os ingressos, tanto que o museu do parque é financiado pelas entradas, no Brasil os parques nacionais são grátis. Nós temos problemas no Brasil com os instrumentos que, através da natureza, possam ajudar a angariar recursos.

EcoViagem: Os brasileiros estão preparados para realizar uma boa administração de dinheiro externo a ser investido em projetos ambientais?
Antonio Carlos: Nós brasileiros temos muito mais preparo do que pensamos, inclusive, temos muita capacitação profissional. Fico espantado com o número de brasileiros capazes que estão fazendo trabalhos fantásticos, os alemães têm inveja, você não pode imaginar o quanto eles sentem quando vêem o que os brasileiros fazem aqui. Mas, no entanto, eles dizem “coitado de vocês, têm a natureza, os animais, capacitação, vocês são espetaculares, têm tudo, o que vocês não tem é dinheiro”. Bem, acredito que os brasileiros possuem sim condições de fazer uma boa administração do dinheiro que recebem para investir nas causas ambientais.

EcoViagem: O alemão tem uma postura mais ecológica que a do brasileiro?
Antonio Carlos: O alemão não é nada diferente do brasileiro, ele está acostumado a assistir o mesmo programa de televisão, ler o mesmo jornal. Na realidade, o alemão não vem para o Brasil só para fazer ecoturismo, ele vem porque quer ver um pouco de natureza, a cultura, as praias, o sol e ir ao Rio de Janeiro, isso seria o pacote, vir para cá só por vir ele não vem. Eles não vêm só para ver a natureza. De forma geral o alemão está consumindo os mesmos produtos e estão tão globalizados quanto o brasileiro.

EcoViagem: De que forma você acha que o seu projeto “Salve Floresta” está ajudando o meio ambiente?
Antonio Carlos: O resultado é prático. Nós estamos aqui há oito anos e com a nossa simples presença conseguimos diminuir ao mínimo o número de palmiteiros e caçadores que colocavam armadilhas para prender animais silvestres. Conseguimos proporcionar sossego na mata que até animais que não apareciam mais por aqui voltaram. Outra coisa é a valorização da floresta por meio de parcerias sem deixar de lado a comunidade local.

EcoViagem: Que tipo de conselho você daria para as pessoas que ainda não aprenderam o real significado da natureza?
Antonio Carlos: Eu diria que se as pessoas começarem a observar melhor a mata brasileira elas vão perceber o quanto ela é infinita, normalmente o brasileiro faz uma caminhada e vai embora, agora quando ele realmente começar a se interessar pela mata e ver os pequenos animais, os diferentes insetos, as flores, as árvores e como é a relação dos pássaros com as cores funcionam, quando ele começar a ver isso, ele realmente vai cair em si de que isso é interminável, é impressionante quando você começa a se ater aos pequenos e maravilhosos detalhes que a natureza possui. Com isso é deixado de lado a parte de fazer trekking só por exercício e vem a parte de observar a natureza, como ela se comporta, simplesmente. O ideal é usar a natureza como uma escola ecológica, porque não é necessário professor, a mata é a escola.

EcoViagem: Você acredita que o Brasil tem jeito? Por exemplo, na Amazônia, normalmente as questões que envolvem essa região estão na “mão” de poderosos e aí surge àquela impressão de que...
Antonio Carlos: Eu sei o que quer dizer, nós vivemos sempre o problema de ter medo do poder e os pequenos, por conseqüência, não tem poder nenhum e por isso ficam deixados de lado. Na verdade o maior problema que vivemos no Brasil é o social, enquanto não resolvermos essa questão não vamos conseguir reduzir o problema do meio ambiente. Enquanto tivermos um monte de gente morrendo de fome não poderemos resolver o problema da preservação ambiental, então temos de começar a resolver o problema social primeiro. A questão da reforma agrária pode decidir muito do que queremos em termos de preservação da Amazônia. Se não tivermos uma resposta para a o problema social brasileiro do Movimento Sem Terra nós não vamos conseguir preservar coisa nenhuma, mais cedo ou mais tarde cai a mata atlântica, cai a Amazônia.

  
  

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