Carlos Alberto Tavares

Carlos Alberto Tavares é presidente da Associação Paulista Pró Turismo de Aventura (APPTA), que tem como objetivo buscar formas de regulamentar e aperfeiçoar a prática do turismo de aventura.

  
  

Carlos Alberto Tavares é presidente da Associação Paulista Pró Turismo de Aventura (APPTA), que tem como objetivo buscar formas de regulamentar e aperfeiçoar a prática do turismo de aventura, para garantir a sustentabilidade, a preservação do meio ambiente e a segurança dos ecoturistas.

Carlos Alberto Tavares

Carlos Alberto Tavares
Foto: Divulgação

EcoViagem: Como e de quem surgiu a iniciativa de fundar essa associação?
Carlos: A associação surgiu numa oficina da Embratur de janeiro de 2002, que foi realizada junto com a Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo, na cidade de Socorro. O objetivo dessa oficina era levantar subsídios pra planejar o Turismo de Aventura no Estado de São Paulo e foi aí que a Embratur e a Secretaria de Turismo falaram sobre a dificuldade que eles têm em criar normas nos esportes de aventura. Então, eles sugeriram que fosse criado no estado de São Paulo, uma Associação que fizesse todo esse movimento. Porque não existe nenhuma norma sobre turismo de aventura.

EcoViagem: Como está sendo realizado o trabalho de vocês?
Carlos: A associação hoje tem 23 cidades envolvidas no processo e alguns parceiros da iniciativa privada. Sabemos que existem outras ONGs que já caminharam nesse sentido, então estamos fazendo um levantamento de todas as normas que existem. Nós simplesmente vamos pegar os trabalhos que já existem e, depois, um advogado vai colocar isso perante a lei de meio ambiente, direitos do consumidor, etc, e, daí sim, soltaremos uma cartilha que vai falar um pouquinho de cada esporte pro turista, e orientaremos tanto o turista quanto as empresas, porque tem muita gente fazendo loucura no mercado. É um trabalho mto difícil, não tem nada financeiro no meio. A gente simplesmente quer defender o setor. A gente batalha para que isso desenvolva, porque se não for bem feito, não tem sustentabilidade, vai ser feito por um período muito curto, muita gente vai investir e vai perder muito dinheiro. Nossa idéia é que isso proporcione muito emprego e muita renda pras pessoas e muito lazer pro turista com segurança, proteção do meio-ambiente, envolvimento da comunidade, etc.

EcoViagem: Deste levantamento que o senhor citou, o que já está sendo feito, como está sendo feito e por quem?
Carlos: Nós temos vários órgãos dentro da associação. Temos a diretora do meio-ambiente, que coleta as informações relativas ao meio-ambiente e temos uma diretoria técnica, onde temos três conselheiros: do ar, da terra e da água. Então cada um está cuidando de uma parte. A gente já tem bastante experiência de mercado, são pessoas que estão envolvidas há algum tempo neste mercado. São aquelas pessoas que tem aquela vontade de fazer bem feito. É um trabalho de leão, mas se a gente conseguir - e acredito que vamos conseguir - nós vamos contribuir muito pra sustentabilidade do turismo de aventura no estado de São Paulo.

EcoViagem: E após esse levantamento?
Carlos: Num segundo momento, iremos reunir em oficinas pessoas respeitadas das modalidades de aventura que não encontramos dados, pessoal do corpo de bombeiros, membros da polícia que estão nos apoiando, para que eles contem suas experiências. E, assim, chegaremos a algumas conclusões do que deve ser feito.

EcoViagem: Como está sendo praticado o turismo de aventura atualmente no Brasil?
Carlos: Sem nenhum critério. Hoje o direito do consumidor é muito forte e o esporte de aventura não é como o turismo convencional. No turismo convencional, você pode comer uma comida que não é muito boa, e vai ter um problema no intestino que amanhã você já estará bem. Mas turismo de aventura se não for bem feito, mata. Então nossa preocupação é muito grande. Casos simples hoje de perdas e danos do consumidor por exemplo, gera uma ação de pelo menos 250 mil reais. Agora imagina essas empresas, que em geral são micro empresas do interior com uma ação dessas nas costas, ou ainda danos maiores como alguém perder uma perna, ou até o extremo de mortes? É muito sério o assunto. E não existe regra pra nada. Por exemplo, se uma prefeitura quer apoio da Embratur para construir uma rampa de vôo livre, a Embratur não pode dar apoio. Por que? Como deve ser uma rampa de vôo livre? Tem que ser de madeira? De concreto? Quantos metros tem que ter? Que lado que tem que bater o vento? Então não existe resposta pra nenhuma questão desse tipo legalmente.

EcoViagem: Como uma cidade pode se agregar ao projeto?
Carlos: Existe um site da associação que é o www.appta.tur.br e lá existe uma página com todas as instruções de como se associar.

EcoViagem: Como você está enxergando o desenvolvimento do Ecoturismo até agora e como você acha que vai ser depois que a Associação conseguir concretizar o trabalho?
Carlos: Vai sair do amadorismo pro profissionalismo. Hoje existe uma briga muito grande entre as empresas. Nós temos, na mesma cidade, empresas operando rafting, por exemplo, que cobram R$27, R$33. Outras, cobram R$70. Nós sabemos que isso é amadorismo. São pessoas que não têm planilha de custo, não sabem quanto custa, estão olhando só o lado da concorrência, sabe? Então a gente acredita que depois de todo o trabalho feito, ele sabendo quanto pode custar, o seguro que ele tem que pagar, o equipamento que ele vai ter que usar, então vamos levar o esporte de aventura do amadorismo pro profissionalismo. Então quem vai ganhar? A empresa que estiver mais protegida e, com certeza, o turista que vai ter um serviço bem melhor.

EcoViagem:Depois desse levantamento de dados, vocês pretendem atuar com cursos práticos de capacitação ou algo nesse sentido?
Carlos: Sim, a associação, paralelamente a isso, já está começando a se mexer nesse aspecto. Porque hoje existe já muita técnica moderna, só que no Brasil ainda são usadas técnicas da guerra de 42, coisas desse tipo. As pessoas não estão preparadas. Então nossa idéia é tornar o Brasil apto a competir com Nova zelândia e outros países, que hoje estão muito mais adiantados que a gente no turismo de aventura. Nós temos que adotar essas normas internacionais. Mas isso não é fácil, custa muito treinar pessoas.

EcoViagem: E como você vê a importância da Adventure Fair num projeto como esse?
Carlos: A feira tem vários aspectos. Não acho que seja só para divulgar que existe um destino, ou um equipamento. Mas o mais importante, é divulgar que existe um segmento do mercado muito forte, que gera muito emprego, muita renda - principalmente na zona rural, interior - e muita coisa que pode ser transformada em produto. E que o estado de São Paulo não é aquele buraco negro no turismo. Matéria-prima é o que não falta. O que é o produto? Você tem que ter uma embalagem, tem que respeitar o direito do consumidor, o meio ambiente. Transformar essa matéria em um produto com segurança e sustentabilidade, é uma tarefa árdua de todos nós.

EcoViagem: Como você encara a atuação do governo no setor do ecoturismo?
Carlos: Olhando pelo aspecto de meio ambiente, já foi feito alguma coisa, mas no turismo ainda não tinha sido feito. Mas temos recebido apoio deles, e estão plenamente conscientes e pedindo, inclusive, ajuda pra se fazer. Tenho conhecimento pessoal que a Embratur está plenamente consciente das necessidades e estão, sim, preocupados.

EcoViagem: Você acha que a criação de outras associações pró-turismo de aventura em outros estados ajudaria nessa regulamentação?
Carlos: Seria muito interessante. A gente já sabe que no Rio Grande do Sul já esta sendo feito um trabalho muito bom. Mas muita coisa que é aplicável em uma cidade, pode não ser em outra. O que serve para um estado, nem sempre serve pra outro. Porque depende muito das condições. Uma coisa é você fazer rafting em Brotas, outra é fazer em Socorro, onde o rio do Peixe é um rio maravilhoso, mas proporciona um nível muito alto de adrenalina, que chega a atingir nível 6, enquanto em Brotas atinge-se nível 3 ou 3,5. Então o nível técnico do operador que opera em Brotas não é o mesmo que opera em Socorro. É a mesma coisa do motorista. Não estou dizendo que um motorista de carro não seja bom, mas ele não está preparado pra dirigir um ônibus, um caminhão. Porque são outras informações, outras técnicas. Em Socorro, para preparar um técnico em rafting, leva-se 2 anos e meio. De olho nisso, já estamos separando todas as informações e, quando soltarmos a cartilha pro consumidor, estaremos com isso em mente também. Existem mil e um detalhes, sobre cordas, coletes, cabos... É uma loucura.

EcoViagem: Qual o papel das populações locais nesse projeto?
Carlos: É super importante, nós já estamos orientando as 23 cidades para que comecem a falar pra suas comunidades que levem em consideração todas as leis do Ibama, etc. Sabe o que acontece muito? Tem muita empresa de São Paulo, que leva grupos para destinos de ecoturismo, leva lanche de trilha, uma maleta com coisas muito básicas como se fosse primeiros-socorros, não têm nenhum cuidado nas trilhas, pisa de qualquer jeito, sobe uma pedra sem critério, vai com facão e abre a mata de qualquer jeito, vem embora e não deixa nenhum centavo na cidade, não empregou nenhuma pessoa e ainda agrediu o meio ambiente. Isso é comum acontecer. E as pessoas locais, tendo consciência da importância de se praticar turismo sustentável, elas mesmas passam a fiscalizar para que isso não aconteça. Já avisam o Comtur, a prefeitura.

EcoViagem: E quais os procedimentos tomados?
Carlos: Aí a gente pega essa pessoa, orienta e faz com que ela opere através de uma operadora da cidade. Se a comunidade não estiver a favor, não rola. E ela percebendo que está sendo valorizada e ganhando com isso, ela apóia e apóia muito bem.

EcoViagem: No seu modo de ver, há alguma diferenciação entre turismo de aventura, turismo ecológico e turismo rural?
Carlos: O Turismo de Aventura é aquele que envolve alguma das modalidades do turismo de aventura, onde a pessoa não apenas admira uma cachoeira, por exemplo, mas também interage com ela. Diferente do Turismo Ecológico, onde a pessoa está lá para admirar. E o Turismo Rural acontece quando há um envolvimento com a cultura e os produtos de uma comunidade local. Mas apesar de diferentes, os três estão interligados, porque ocorrem no mesmo local, em meio à natureza. Então, eu diria, que o Ecoturismo é o carro-chefe.

  
  

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