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Carlos Zaith

O EcoViagem entrevista Carlos Zaith, pioneiro do canyoning e proprietário da H2Ome

24 de Janeiro de 2001.
Publicado por Equipe EcoViagem  

O EcoViagem entrevista Carlos Zaith, pioneiro do canyoning e proprietário da H2Omem.

CANYONING: PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Um pioneiro do canyoning no Brasil e proprietário de uma das mais conceituadas agências especializadas neste esporte responde perguntas sobre modalidades, segurança, mercado e outras relacionadas a esta prática que tem atraído tanta atenção.

EcoViagem: O que é canyoning e quais suas modalidades?
C. Zaith: O canyoning, como agora está mais conhecido, é a exploração de rios acidentados. Tem de haver essa característica de serem rios muito acidentados. Não necessariamente só com cachoeiras. Todos os tipos de obstáculos. Porém o canyoning tem a característica da exploração não embarcada. São trechos do rio onde ele é tão acidentado, e o volume d`água é tão baixo, que não comporta uma embarcação. O teu veículo é o teu corpo. Você pode fazer a pé, nadando, fazendo rapel ou mesmo praticando o slide, que é descer as pedras escorregando. Pode-se usar uma série de técnicas que vão depender do seu objetivo ou do obstáculo que você encontrar.

EcoViagem: Como você começou neste esporte?
C. Zaith: Eu já explorava cavernas desde 1981 com uma equipe de São Paulo. O ambiente de caverna tem muitas características encontradas nos canyons. Em ambos existem frio e rios vivos, com bastante correnteza. Existe também, mesmo nos canyons, ambientes escuros. Não que os dois sejam iguais. Hoje luta-se para ter o canyoning não como uma derivação da espeleologia. Cada ambiente é separado. Existe a escalada, onde se sobe por paredes secas e a intenção é subir; em espeleologia você entra em ambientes fechados e escuros que formam um ecossistema a parte; e no canyoning você explora vales muito fechados com todos os tipos de obstáculos. Algumas vezes você têm que escalar, outras usar técnicas de espeleologia, e até de rafting e canoagem devido às corredeiras. Enfim, é um esporte totalmente singular e ditado pelo espaço.

EcoViagem: O canyoning que envolve as práticas de caminhada e nado, por exemplo, é menos praticado que o rapel em cachoeiras?
C. Zaith: Sim, muito menos. Na verdade a maioria das pessoas prefere o caminho mais curto para tudo. Então elas preferem ir a um lugar conhecido, onde pode-se chegar de carro sem ter de carregar a mochila por quilômetros e fazer a prática ali mesmo, apenas por divertimento. Não há nada de errado nisto. Então nós resolvemos adotar um nome que já é adotado lá fora, o cascading, que traduzido seria algo como cachoeirismo. Isto justamente para definir este pessoas. Não é preconceito, é apenas dar nome aos bois. Então adotamos o nome de canyonismo para descrever todo o conjunto, envolvendo o canyoning. Este é mais esportivo, envolvendo caminhadas e outras técnicas em ambientes molhados. O canyoninsmo seria mais abrangente. No Brasil temos canyons dos mais variados. Temos por exemplo o Rio Iapó, que, além de ser um canyon, permite a prática de rafting e canoagem. Não é um lugar para se fazer o canyoning. Não dá para o sujeito ir a pé com um mochila. Lá, você tem 30 ou 40 Km de um rio largo, com grande volume d`água e que permite embarcação. Mas não deixa de ser um canyon, e se você está percorrendo um canyon, você está fazendo canyonismo. Assim como você pode ter um canyon, como é o caso do Raso da Catarina, na Bahia, que é um lugar desértico, porém um canyon. Então é um lugar para a prática apenas do trekking, mas não deixa de ser canyonismo. Esse termo é adotado pelos americanos. Eles usam canyoniring para englobar tudo e depois fazem uma distinção entre canyon seco e molhado, com altos e baixos gradientes. É importante a relação da distância e do desnível do rio. Na Serra do Mar, por exemplo, existem rios que correm de 700m ou 800m para quase zero. Isto é um gradiente muito alto. Um prato cheio para quem gosta do canyoning. Você tem grandes cachoeiras e uma grande inclinação. E existem rios de baixo gradiente, com grandes distâncias e pequenos desníveis. Isso não permite que você use, por exemplo, o neoprene, pois não há necessidade. Aí já seria trekking, watertrekking, etc... Lá no Rio Grande do Sul existem grandes canyons, porém, que não exigem a utilização de cordas em todo o percurso. Na verdade são grandes travessias de fundo, que não deixam de ser canyonismo, mas não chega a ser canyoning. O cascading seria o canyoning pontual. A pessoa fica numa cachoeira só, só para se divertir. Ela fica ali o dia todo, com uma trilha que a leva rapidamente ao topo da cachoeira para repetir o rapel. Isso vem sendo utilizado pelo turismo de aventura, o ecoturismo. O ecoturismo tem se utilizado dessa atividade para atrair pessoas para terem um contato maior com a natureza. Isso tem causado problemas como muita gente despreparada, muito operador despreparado por não ter nenhuma história de envolvimento com a coisa. Isso nos levou a fundar no final do ano passado a associação brasileira de canyonismo. Lá nós discutimos assuntos como o esporte, o turismo e o meio ambiente, afinal os representantes dessas três áreas têm interesse pelas mesmas localidades. E aí o esporte ficou meio por baixo do turismo que veio atropelando, colocando muita gente. Eu não me isento disso, afinal eu tenho uma agência também. Esta foi uma forma de viabilizar nossos projetos de exploração de canyons.

EcoViagem: Como foi o desenvolvimento desse esporte no Brasil?
C. Zaith: Ele chegou em 1989 e como eu praticava espeleologia desde 81, eu tinha subsídios suficientes para desenvolver essa nova modalidade. É claro que fizemos algumas adaptações. Mas hoje o esporte é uma coisa à parte. Montanhismo é uma coisa, espeleologia outra e canyonismo outra. Pela leitura de boletins de grupos de espeleologia nós tomamos contato com essa modalidade. Mas eles não usavam o nome canyoning. Para eles era uma forma de atingir certas cavernas, pois muitas delas estão no fundo de canyons. Os primeiros canyonistas são espeleólogos e daí essa junção tão forte. No Brasil também, fomos nós quem iniciou esta prática. Com o conhecimento que tínhamos foi tranqüilo introduzir o novo esporte. De lá para cá a coisa foi tomando rumo próprio. Em 1994 começamos com os cursos e não paramos mais. Brotas se tornou então um dos lugares mais conhecidos do país nessa área. Não é um lugar complicado. Na verdade, nós sempre soubemos que era fácil.

EcoViagem: O Canyoning é seguro?
C. Zaith: Não. O canyoning pra valer, aquele de exploração não é seguro. Você tem todas as técnicas e equipamentos seguros e mesmo assim não se pode afirmar que seja seguro.

EcoViagem: E o cascading?
C. Zaith: É mais seguro por ser um ambiente mais controlado. Mas por ser fácil, o cachoeirista começa a inventar moda ao contrário do canyonista que quer facilitar ao máximo. É como fazer rapel em viadutos. Fazer rapel é a coisa mais fácil que existe, qualquer pessoa é capaz. Então o cara começa a prender a cadeirinha nas costas, a saltar e dar trancos. E assim a coisa começa a se tornar uma outra vertente.

EcoViagem: Como que é a relação do esporte com o meio ambiente?
C. Zaith: A gente tenta fazer a coisa do modo mais amistoso possível. Reconhecemos que interagimos no meio ambiente. Existe impacto como em tudo. Mas lutamos pelo mínimo impacto possível. Existe toda uma ética para deixar o mínimo de vestígio possível. Às vezes você é obrigado a deixar uma fita de ancoragem ou um grampo, mas só em último caso. Mas como você submerge completamente no ambiente, se, por exemplo, a água estiver contaminada, você estará recebendo aquilo diretamente. Nosso contato com os elementos do meio ambiente é muito grande e temos todo o interesse que aqueles elementos sejam preservados. Queremos que a coisa se preserve para podermos ter a continuidade do esporte.

EcoViagem: Então não pode ser um esporte de massa?
C. Zaith: Não. Alguns pontos acabam sendo sacrificados para receberem um número maior de pessoas. Mesmo assim, esse número deve ser limitado. Em Brotas foi estabelecido um número de 20 pessoas por cachoeira ao mesmo tempo. Pode ser que esse número deveria ser menor, mas, pelo menos estabeleceu-se um teto. Os excedentes são redistribuídos.

EcoViagem: Existe algum tipo de competição de canyoning?
C. Zaith: Em termos, o Brasil, ainda não. Existiram algumas, digamos, brincadeiras envolvendo promoção de agências e outras empresas ligadas ao turismo de aventura. Agora, com a criação da associação, competição é uma coisa que acabará vindo, apesar de ainda não estar previsto nada nesse sentido. Mas eu acho necessário, pois a partir daí pode-se conseguir patrocínio e outros benefícios para outros fins. Vai ter gente que não vai concordar, com sempre tem. E outros vão trabalhar em cima. É inevitável que se promova competições. È uma forma de agregar pessoas. Lá fora existe alguma coisa, quase sempre ligada a campanhas, como de prevenção a acidentes. Mas nada extremamente competitivo

EcoViagem: Existem informações sobre os melhores lugares do mundo para a prática do canyoning?
C. Zaith: Existem muitos já publicados. Um dos principais é os Alpes. Os países que mais praticam são França, Espanha, Itálita, Alemanha, Áustria, Eslovênia. Depois tem os norte-americanos que estão organizando a coisa bastante bem. Há ainda países da América Central explorando o esporte de uma forma mais comercial. Na América do Sul destacam-se Venezuela, Chile, Argentina e Brasil, que é sem dúvida um dos maiores praticantes.

EcoViagem: E no Brasil, quais são os principais locais?
C. Zaith: Serra Geral no Rio Grande do Sul; Serra do Mar em Santa Catarina, Paraná e São Paulo; as Cuestas Basálticas, no Estado de São Paulo; Serra dos Órgãos e Itatiaia no Rio de Janeiro; Chapada Diamentina, na Bahia, Chapada de Ibiapaba no Ceará; e ainda Chapada dos Veadeiros e Chapada dos Guimarães na região Centro-Oeste. Existem muitos lugares.

EcoViagem: Como é o mercado de agências especializadas no esporte?
C. Zaith: Existem muitas empresas sem nenhuma história no assunto. Não há nada de errado nisso, desde que se faça as coisas direito. Elas começaram a surgir há cerca de quatro anos e hoje estão por todo o Brasil.

EcoViagem: Existem empresas "pouco confiáveis"?
C. Zaith: Sim, com certeza.

EcoViagem: A prática no canyoning deveria ser mais controlada?
C. Zaith: Em áreas que de alguma forma existe um gestor deveria haver uma troca direta, um controle um pouquinho mais rígido. O problema é que as pessoas não estão preparadas para exercer esse controle. Aí mais uma vez a importância de uma associação brasileira que tenta fazer essa ponte. Para isso ela deve ser reconhecida e respaldada.

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