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Coxini Karajá

Coxini é líder indígena além de ser o chefe de sua tribo, os Karajá. Ele falou ao EcoViagem qual é o esforço que seu povo faz para manter acesa a cultura dos índios mesmo após o contato com o homem branco.

17 de Abril de 2002.
Publicado por Equipe EcoViagem  

Coxini é líder indígena além de ser o chefe de sua tribo, os Karajá. Ele falou ao EcoViagem qual é o esforço que seu povo faz para manter acesa a cultura dos índios mesmo após o contato com o homem branco.

Cesar Greco

Cesar Greco

EcoViagem: Como o contato com o homem branco afetou a continuidade da cultura do seu povo?
Coxini Karajá: O contato alterou muito, principalmente o nosso povo Karajá. Afetou de forma que o meu povo deixou de falar Karajá, as principais festas comemorativas como Itorocã, Aruanã deixaram de ser realizadas. O desenvolvimento chegou rápido demais. Hoje a aldeia de Fontoura, na Ilha do Bananal, é a de maior preservação, as outras aldeias têm mais contatos e isso facilita o aprendizado do uso da tecnologia, isso faz com que acabe rapidamente com a nossa cultura, inclusive a língua.

EcoViagem: A partir de quando isso começou a acontecer?
Coxini Karajá: De meados de 70 para cá o desenvolvimento chegou muito rápido. A Funai tinha preocupação com isso. Nós índios temos a preocupação de nos mantermos como povos diferenciados, por exemplo, o índio pode usar a tecnologia atual, pode ter televisão, carro, freqüentar escolas, universidades, se formarem profissionais liberais, mas isso não deve substituir a cultura da raiz do índio.

EcoViagem: Como você analisa a questão da política indiginista no Brasil?
Coxini Karajá: A política indiginista no Brasil quer a integração total da comunidade indígena, o que isso quer dizer? Querem que nós não falemos nossas línguas, que não usemos mais nossas festas, nossos costumes, só que isso é impossível de acontecer. Um exemplo vivo que temos somos nós Karajás, eu sou um exemplo. Estudei em Campinas durante nove anos, em Brasília durante seis, eu tinha um emprego bom no governo Federal, só que voltei para o meu povo, para minha aldeia, a maioria que sai, como eu, volta.

EcoViagem: Qual é o trabalho que vocês fazem para manter a tradição do seu povo já que isso ocorre, as pessoas vão e depois voltam?
Coxini Karajá: Bem, a prioridade para nós, povos indígenas, é o estudo, isso é fundamental. Quanto ao trabalho para mantermos a tradição é difícil de controlar, por exemplo, se uma criança de sete a nove anos fizer os nossos rituais, ela pode até ir embora, mas certamente retornará, agora se ela vai embora e não faz nossos rituais, não convive com sua família, esse índio não retornará. Casam com brancas e não voltam para aldeia. O que quero dizer com isso, nós temos as nossas terras, temos a nossa cultura, temos tudo o que nos proporciona condição de sobrevivência, porque nós viemos antes de vocês, não precisávamos de vocês.

EcoViagem: Que crítica você tem sobre esse assunto?
Coxini Karajá: Tudo começou com o colonizador. O que aconteceu? O colonizador chegou, trouxe presentes para nós, e qual foi o presente? Nos trouxeram religião, nos escravizaram colocando todo mundo para trabalhar como se não soubéssemos nada. Eles não entendiam que nós sim preservávamos o meio ambiente, porque nós pescamos e caçamos alternadamente, no período certo, não como o homem branco que lançam redes e matam milhares de peixes na piracema, inclusive aqueles fecundados, com isso, no próximo ano já não dá a mesma quantia de peixes. Essa consciência nós temos desde pequenos, eu com sete anos já tinha essa consciência, o que quero dizer com tudo isso. É que nós, índios, conservamos o meio ambiente, derrubamos a mata para fazer roça, mas só para o nosso sustento, para plantar mandioca, banana, cana, essas coisas que nós indígenas costumamos usar. Agora não, todo mundo fala em desenvolvimento, querem desmatar milhares e milhares hectares de terras, daqui a pouco tudo vai virar deserto, como São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, e ai começam a querer ir pra Amazônia, querem fazer a mesma coisa que fizeram com esses locais. A maior parte dos fazendeiros não tem dinheiro, deixa a terra improdutiva, porque o custo para se produzir acaba ficando muito alto, a terra necessita de calcário, agrotóxicos caríssimos. Já nós, povos indígenas, produzimos para a manutenção da nossa população, por isso defendemos a preservação do verde.

EcoViagem: Diga um exemplo da luta do seu povo para a preservação do meio ambiente?
Coxini Karajá: O Rio Araguaia é um ótimo exemplo. Nós o usamos primeiro porque temos nossa mitologia e segundo porque a natureza tem que ficar do jeito que está, mas estão querendo trazer a hidrovia, se vier desenvolvimento e fizerem a hidrovia devem usar o rio em época de cheia. Devem estocar a soja, o arroz e então quando chegar dezembro e janeiro é que devem realizar o transporte. Agora eles não querem agir assim, querem destruir cachoeira, alterar toda natureza, vão matar peixes, tartaruga, animais e mudar totalmente o leito do rio e, nosso caso como exemplo, a Ilha do Bananal, que é de formação de pântano, ficaria seca, morreriam peixes, animais, a natureza ressecaria toda e em pouco tempo tudo ficaria deserto. Estamos lutando para que não venha a hidrovia.

EcoViagem: Como está sendo a luta para impedir a hidrovia que passa nas terras indígenas? Vocês vão conseguir impedir?
Coxini Karajá: Nós vamos conseguir, até agora nós conseguimos parar, promovemos ações na Procuradoria da República A proposta do governo é de R$ 300 por mês de salário para cada índio, mas qual é a garantia? Um ano, dois? Eles fizeram isso, porque impedimos a hidrovia, nós não queremos hidrovia, ela afeta todas as zonas indígenas até o sul do Pará, Maranhão, os mais afetados seremos nós os Karajás, Javaer, Xavante, isso fora a invasão que pode ocorrer.

EcoViagem: Você preferiria nunca ter tido contato com o homem branco?
Coxini Karajá: Eu preferiria! A maior parte da minha vida eu só estudei, até hoje estudo, então eu acho que a maior dificuldade na sociedade de vocês vem da busca de aperfeiçoamento que acaba chegando a tal ponto que ultrapassa o conhecimento do próximo, ou seja, na medida em que se desenvolvem uns, outros ficam pelo meio do caminho causando desigualdade. Agora, com nós indígenas isso não acontece, nós aprendemos a preservar a natureza, como viver e sobreviver da terra, cuidar da família, por exemplo, meu pai me criou com os recursos da terra, ele nunca trabalhou em empresas ou mesmo em cargos públicos, meu pai me criou sobre a terra, com a produção de plantios. Outra coisa, o povo indígena tem inteligência igual a de qualquer ser humano tanto que vários primos meus são advogados, outro está fazendo bioquímica, outro administração, e ainda outro fazendo letras. O que tudo isso quer dizer? Prova que o índio não é como as pessoa pensam, que não raciocina, não está com nada, que não está vivendo com nada.

EcoViagem: Os índios se dão bem com o governo?
Coxini Karajá: Nós temos ideais, em primeiro lugar vem a educação, ensinar como cuidar da terra e ser um profissional. Em segundo precisamos organizar entendimentos entre o governo e as lideranças indígenas, o problema é que o governo elabora projetos pensando de cima para baixo, como por exemplo, criação de gado, mas o gado não faz parte da nossa cultura, nós não queremos ser fazendeiros, nós não queremos desmatar para poder criar esse tipo de animal. O índio não gosta disso, qual é a nossa cultura? Peixe. Então o governo deveria incentivar projetos de piscicultura e nos apoiar na cultura de roças de touca (roça que cultiva alimentos orgânicos sem uso de agrotóxicos), só que o governo, a sociedade e ONGs dizem para o índio - Isso aqui é bom para o índio. Traz tudo prontinho. O índio muitas vezes não fala porque não sabe; a nossa cultura é diferente, o pensamento de vocês é diferente, vocês pensam no consumismo, o que quer dizer consumismo? As pessoas só vão até as nossas aldeias por interesse.

EcoViagem: A modernidade afeta a cultura do índio?
Coxini Karajá: Com o tempo as coisas vão se confundindo, por exemplo, eu tenho blusa, tenho relógio, celular porque acho que nós indígenas temos que acompanhar a modernidade, mas isso tudo não tira a minha cultura, o que tira a cultura é bebida alcoólica, drogas, mau costume, falta de ética, é isso que tira a cultura, o restante não tira não, o índio pode ter carro, dinheiro, avião, pode ter sua própria terra. Muita gente questiona isso, em minhas palestras, que já dei em grandes universidades como Unicamp, Universidade Federal do Rio de Janeiro, vem aquela história; Porque o índio usa avião? Então eu respondo: “Meu amigo se seu bisavó ressuscitasse ele iria querer andar de cavalo?”. Não, ele iria querer andar de carro. A modernidade não altera a cultura indígena. Na nossa aldeia nós preservamos nossa cultura, desde pequenos aprendemos a falar nossa língua.

EcoViagem: Vocês têm televisão na sua aldeia? Ela trás algum tipo de influência?
Coxini Karajá: A televisão influência sim, as coisas ruins que tem, só que nós agimos assim: não substituímos nossos rituais para ver televisão, se for dia de festa vamos fazer nossas festas, pode ser até dia de jogo da seleção brasileira, a gente vai para nossas festas, para nossos rituais, dançamos a noite toda, então quer dizer, isso que é manter a cultura viva. Agora, tem muita gente que fala que tem que acabar com a cultura do índio, na verdade temos que acabar com a cultura do índio que não é benéfica para o próprio índio, por exemplo, o Karajá rapaz não trabalha, ele fica sem fazer nada, isso temos que eliminar, estamos sempre precisando de alguma coisa, limpeza, escola, transporte, segurança então temos que usar essa mão-de-obra para nos atualizarmos, senão vamos viver como era antigamente.

EcoViagem: Você acha que o brasileiro preserva a sua cultura?
Coxini Karajá: O brasileiro não preserva a sua cultura, sabe por que? Ocorreu uma grande mistura de raças, africano, americano, francês, português, inglês, e assim uma infinidade de raças, então o que acontece, não há vínculos entre as raças, ou seja, o homem branco é corrupto porque não é nacionalista, agora nós índios não somos corruptos, porque pensamos em nossas aldeias, em nossas famílias, nas nossas coisas, e o brasileiro não tem tradição. Essa é uma diferença muito grande que nós temos, infelizmente. Tem outra coisa também que é a questão da colonização, a do Brasil não foi como a Americana, Canadense, os colonizadores vieram aqui para explorar e arcamos até hoje com a conseqüência. Escravizaram o negro e o índio também... agora vai ter eleição para governador e o político está pensando como roubar, e porque isso ocorre, ele foi massacrado e humilhado no passado (referindo-se aos antepassados brasileiros), e acabam descontando quando ocupam cargos importantes, infelizmente tem acontecido isso.

EcoViagem: O dia do Índio significa alguma coisa para vocês?
Coxini Karajá: Não, para nós o dia do índio não é muito importante. Esse dia foi inventado pelo homem branco, é bom apenas para lembrar a situação atual do índio, mas para nós índios todo dia é dia do índio. O que interessa é dar continuidade ao movimento indígena ensinando a luta, conscientizando o nosso povo, acho interessante isso, primeiro nós passamos pela fase de demarcação, depois nós lutamos por escola e saúde, agora nos estamos lutando por resgates culturais e depois projetos, a gente começa por fases, todo ano temos planos, nós vamos fazer isso em todas as reuniões de liderança do Brasil.

EcoViagem: A funai atende bem aos índios?
Coxini Karajá: Para mim a Funai é assim: antes o governo Federal tinha recursos, por conseqüência a funai tinha dinheiro e nos atendiam melhor, hoje em dia houve uma enfraquecimento da instituição, mas queremos o fortalecimento da Funai para que volte a cuidar da saúde, educação, hoje ela cuida apenas da questão fundiária, meio ambiente, jurídica e a demarcação. Ela ainda é uma saída pra nós.

EcoViagem: O que o povo Karajá gostaria de dizer ao homem branco?
Coxini Karajá: Bom, queria dizer à sociedade brasileira, que em primeiro lugar tem de respeitar as terras indígenas, que estão demarcadas. Segundo, respeitar os povos indígenas, porque nós respeitamos a cultura de vocês, a terra de vocês, nós respeitamos a família de vocês e assim também eu gostaria que a sociedade respeitasse nossa cultura, nossas terras, nossas famílias e que todos trabalhassem em prol do desenvolvimento, nosso povo quer o desenvolvimento do Brasil também, mas um desenvolvimento que seja adequado, sem destruir o meio ambiente nem destruir a natureza, nós queremos união.

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