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Délcio Rodrigues

O EcoViagem conversa com Délcio Rodrigues, do Greenpeace Brasil.

16 de Agosto de 2000.
Publicado por Equipe EcoViagem  

O EcoViagem conversa com Délcio Rodrigues, do Greenpeace Brasil.

ALGUNS PROBLEMAS AMBIENTAIS TERÃO SOLUÇÃO?

EcoViagem: Como é atuar em um país onde a sociedade tem pouca consciência ecológica?
D. Rodrigues: Eu nem diria mais que o Brasil é um país que tem uma sociedade com pouca consciência ecológica. Na verdade, o crescimento dessa consciência é uma coisa vertiginosa. O que eu acho é que ela ainda é, como tudo no Brasil, um pouco diferenciada. Tem muita gente com uma gana muito grande de consertar as coisas, de mudar a situação ambiental, mas também há uma gama de pessoas que não está nem aí. O que está acontecendo é que estão aumentando os conflitos em muitas áreas: conflitos econômicos, rurais; conflitos por espaço de lazer versus indústria; urbanização versus mangue; floresta versus agricultura. Essas coisas estão começando a ficar mais intensas, o que abre um campo enorme de trabalho para quem se preocupa com a questão ambiental hoje. Eu acho que o Brasil é um país magnífico nesse sentido, que tem muita transformação a ser realizada e ao mesmo tempo, muito espaço conservado, que a economia ainda não conseguiu atingir. A gente tem muito o que fazer aqui. É bem interessante.

EcoViagem: O que o Greenpeace pensa da atuação governamental em relação às questões ambientais?
D. Rodrigues: Primeiro, a questão ambiental não é, no Brasil, um dos quesitos de formulação de políticas públicas. Embora a gente tenha Ministério do Meio Ambiente, secretarias estaduais e municipais do meio ambiente, na verdade, esses secretários e esse ministro são tidos como os chatos do governo. Então, enquanto a gente não conseguir trazer para as políticas públicas a questão ambiental, não vai adiantar nada. O ministro do meio ambiente vai ser, por um lado, aquele que cuida dos parques e florestas e, por outro, o sujeito que é chato na hora de aprovar os programas. Por exemplo agora o ministro da agricultura quer porque quer enfiar organismos transgênicos na agricultura brasileira e o ministro do meio ambiente diz não, pois é preciso fazer estudos de impacto ambiental. Isso reflete a pouca internalização (CIC) na cabeça do planejador, do gestor do governo na questão ambiental, quer dizer, não adianta a gente só pensar que o ministro do meio ambiente é o único responsável por isso. O ministro dos transportes, na hora em que está optando por investir mais em ferrovia ou em rodovia, está tomando uma decisão ambiental e assim por diante. Então a questão é: o governo não tem, embora até tenha pessoas interessantes dentro dele, a questão ambiental como um dos parâmetros de planejamento. Isso é muito preocupante. Por exemplo, existe esse programa Brasil em Ação, que é um enorme projeto das linhas de investimento macro do governo. Mas na verdade, ele é um plano de cortar a Amazônia para tudo quanto é lado; a hidrovia do Araguaia-Tocantins, a hidrovia do Madeira-Mamoré, terminais de soja no Amazonas, estradas...Isso significa que, embora todo mundo esteja preocupado com a questão ambiental, na prática, ainda estamos fazendo uma atuação na floresta que é antiga, daquela de "vamos rasgar a floresta e ocupar esse espaço", sendo que temos certeza que o maior valor econômico da floresta é com ela em pé.

EcoViagem: Quais são hoje as questões ambientais mais graves no mundo e no Brasil?
D. Rodrigues: Eu acho que, de longe, a questão ambiental mais grave no mundo hoje é a perda de biodiversidade. Existem uma série de fatores que levam a isso, mas o resultado desses fatores é que nós estamos perdendo espécies aos milhares todos os dias. Isso está acontecendo em terra, no mar; em todos os espaços que a gente pode observar. Paleontologistas e pessoas que já estudaram processos de extinção, como o que acabou com os dinossauros, comparam o que está acontecendo hoje com aquela época. Está havendo uma extinção em massa de espécies. Fora isso, há mais dois problemas que estão apontando como questões importantíssimas para o próximo século. Primeiro, as condições climáticas; as alterações climáticas que podem vir e já estão vindo são muito fortes, como conseqüência do aquecimento global e do efeito estufa. Segundo, é o problema da água. A gente está percebendo que em todos os continentes há disputas pela água. Isso não é só em lugares secos. No Brasil, que tem quase 20% das reservas de água doce da Terra, já há problemas desse tipo em certas regiões. A gente também está vivendo uma crise com uma questão que mistura ética e ambiente: os transgênicos. Esse poder de Deus que a humanidade está se dando, de criar espécies, de modificar a vida pode ter conseqüências que a gente desconhece.

EcoViagem: No nível em que as coisas estão, esses problemas, como por exemplo, poluição das águas, podem ainda ser revertidos?
D. Rodrigues: Depende do que você está falando quando diz poluição das águas, por exemplo. Se você pensa na poluição orgânica, de esgoto, eu acho que dá para reverter. É uma questão de vontade política, esforço tecnológico e dinheiro. Porém, há uma outra coisa, que é a poluição industrial. A indústria hoje produz cerca de 100 mil compostos químicos diferentes. Grande parte deles é persistente, no sentido de que duram muito tempo no ambiente, bioacumulativo e tóxico. Mesmo que seja em pequenas quantidades, é arriscado e não é possível de reverter. Esse é um dos fatores que está causando a extinção das espécies. Quando você atinge uma espécie em cheio e a extingue, não há mais reversão. Tem muita coisa que é reversível e precisa de soluções rápidas para mudar. Se não, a gente corre o risco de ser uma das espécies que vai entrar em extinção.

EcoViagem: Como uma pessoa pode se tornar ativista do Greenpeace?
D. Rodrigues: Nós temos 3 tipos de pessoas que contribuem para o Greenpeace. Primeiro o contribuinte, aquele que não tem tempo e não se acha em condições de trabalhar pela causa, mas quer ajudar. Ele pode, por exemplo, contribuir com recursos, porque o Greenpece depende de recursos de pessoas físicas. Ele pode se associar através do 0800-112510 e também na home page (www.greenpeace.org.br).
Temos o voluntariado, que são as pessoas que têm tempo, acham que podem dar uma contribuição e querem se envolver pessoalmente. Essas pessoas também podem usar o 0800-112510 e há uma série de atividades, dependendo a que elas se dispõem, onde estão. E temos o que chamamos de staff, que são os profissionais, em geral pesquisadores, sociólogos ou ecólogos. Pessoa que têm alguma formação e coordenam as campanhas, preparam conteúdo, que elegem as prioridades, etc. São pessoas contratadas; currículos são bem-vindos o tempo todo, nem sempre tem vagas, mas as pessoas podem mandar, pois sempre que preciso nós consultamos.

EcoViagem: Qual é a maior conquista do Greenpeace, em sua opinião?
D. Rodrigues: Foram muitas ao longo do tempo...Uma das que eu considero maiores foi o Tratado de não Proliferação Nuclear e o Tratado Contra os Testes Nucleares. Isso acabou mudando a história nuclear e até a história militar do século XX. Foi extremamente importante.
Existem outras conquistas, como por exemplo, o que a gente chama de Convenção da Basiléia, por uma briga do Greenpeace durante anos pela não comercialização do lixo tóxico, comercialização entre aspas já que os países do primeiro mundo sempre mandaram seu lixo para a África, América Latina e Ásia. Depois de muito tempo conseguimos fazer com que a ONU fechasse a chamada Convenção da Basiléia, acabando com a livre comercialização de lixo tóxico do primeiro mundo para o terceiro.
Outra é o não uso do Mar do Norte como depósito de lixo nuclear pela Inglaterra.

EcoViagem:Qual a posição do Greenpeace frente ao Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo na Amazônia Legal (Proecotur/Turismo Verde)?
D. Rodrigues: São duas as questões. Por um lado, a idéia de desenvolver o ecoturismo na Amazônia é excelente. Tem uma comparação que, logo de cara, demonstra isso. A Costa Rica, com uma floresta muito menor do que a Amazônia, consegue faturar mais com ecoturismo do que o Brasil inteiro com a exploração madeireira. O ecoturismo pode ser uma indústria sustentável e a exploração madeireira tal qual ela é feita, não. A princípio, o programa de ecoturismo é interessante.
O problema é que, muitas vezes, a gente começa assistindo uma proposta de ecoturismo que se transforma num turismo de massa, disfarçado de ecoturismo e que acaba impactando fortemente os sistemas no seu entorno. Isso é muito, muito comum. Você veja o que está acontecendo na região de Bastos, aqui em São Paulo. O prórpio PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira), que ainda não tem um turismo de massa, já sofre impactos importantes. A região do sul da Bahia, nem se fala...Começou com uma proposta de ecoturismo e hoje é um turismo de massa absolutamente inconseqüente, produtor de lixo e sem cuidado nenhum com o meio ambiente. O caso do Pantanal é outro exemplo terrível, onde a gente está tendo um impacto sobre as populações de peixe advindo da caça dita esportiva. Mas, eu acho que se regulamentar e se modelar...o que eu quero dizer com modelar é o seguinte: os empresários do setor têm que ter modelos. Se o governo quer desenvolver um sistema de ecoturismo, também seria importante que se desenvolvessem modelos do que queremos fazer. Seria legal um hotel modelo, trilha modelo, onde quem quisesse investir tivesse onde se espelhar. É absolutamente fundamental isso. E não esperar que exista todo um investimento desregrado até que outro modelo apareça e as pessoas comecem a voltar atrás. Na verdade, as pessoas que realmente praticam o ecoturismo, muitas vezes se chocam ao ver o que se vende como ecoturismo. Na hora em que você vai a um hotel feito o Ariaú, por exemplo, que é um hotel super famoso na Amazônia, e vê a destruição florestal que foi feita para construí-lo, a pessoa realmente praticante do ecoturismo não volta. Mas sempre vai ter gente para ir lá. Por isso é que se deve normatizar, para poder haver fiscalização.

EcoViagem: E o Selo Verde (selo que será dado a certos estabelecimentos que seguirem normas ecológicas)?
D. Rodrigues: O Selo Verde é interessante, mas é voluntário. Muitas vezes se aceita muitas coisas dentro de um parâmetro como esse. Eu acho que tinha que ser radical. Não selo verde e sim normas.

EcoViagem: Tocando em uma questão atual, uma empresa tão poderosa quanto a Petrobrás irá realmente tomar as devidas precauções ambientais e por que não tomou até agora?
D. Rodrigues: Eu acho que ela não tomou até agora por uma questão de cultura. É uma empresa que nasceu num ambiente monopolista, não tinha com quem competir e pode desenvolver suas próprias regras. Eu trabalhei com planejamento energético durante muito tempo. Para nós do setor de planejamento energético, a Petrobrás sempre foi uma caixa preta. A gente conseguia informações do setor elétrico, do setor de álcool, mas informações da Petrobrás nunca conseguia. Essa cultura da Petrobrás de ser fechada em si mesma, de ser uma empresa que não tem que dar satisfação para ninguém e, ao mesmo tempo, poderosa o suficiente para passar por cima das regulamentações ambientais, fez com que ela não se preocupasse com esse assunto. Dando exemplos bastante concretos: a Refinaria de Paulínea não tem licença ambiental de operação. Como é que uma padaria, para funcionar, precisa de licença ambiental da CETESB e uma refinaria não? É uma questão de poder. No começo da Petrobrás, dos anos 40 aos 60, ninguém se preocupava com questões ambientais. Depois houve o período de 20 e tantos anos de ditadura, onde a empresa precisava gerar o petróleo de qualquer jeito e a questão ambiental era tratada como uma coisa sem importância. Nesse momento, o que a gente está percebendo é o resultado dessa história de evolução. Eu acho que a única maneira da empresa mudar é a gente inverter esse processo, que é de longo prazo. Primeiro precisaram acontecer esses acidentes horrorosos e que podem voltar a acontecer a qualquer momento. Nada muda do dia para a noite. Teve que acontecer esse tipo de coisa para haver uma pressão social, que é necessária para que a empresa mude. E também está mudando o contexto econômico-operacional: ela está se abrindo para o exterior; grande parte das ações foi vendida para o exterior nessa pulverização que foi feita e também ela quer operar no exterior. Para isso, terá que mudar seus parâmetros de operação. E uma terceira coisa que está acontecendo é uma certa abertura do governo em relação a isso. Nós fomos chamados, na semana passada, pelo Ministério de Minas e Energia para dar sugestões e palpites sobre o que poderia ser feito. Quer dizer, com a questão da Lei de Crimes Ambientais, das multas que ela tem levado, a crítica social, as coisas tendem a mudar. Mas para isso, a empresa tem que se abrir e perceber que não está sozinha no mundo. As coisas estão mudando em torno dela. A gente também não pode esquecer que esse petróleo que estava indo para a Reduc (RJ) e o que estava indo para a Repar, em Araucária (PR) era o que estava vindo para o seu carro, o seu ônibus, ou seja, por mais que a empresa aumente os graus de controle, enquanto a gente não parar de consumir petróleo, o risco vai existir. Energia solar, por exemplo, não vaza.

EcoViagem: O consumidor também tem que mudar seus hábitos...
D. Rodrigues: Exatamente. A empresa é a primeira responsável, mas o consumo de petróleo é um problema ambiental. Quanto mais a gente usar carro, mais estaremos colocando em risco o meio ambiente.

EcoViagem: E a questão do funcionamento das usinas de Angra I e II?
D. Rodrigues: Isso é o fim, fim da picada. Eu não quero nem falar dos problemas ambientais que isso tem, porque são tão conhecidos...Nós estamos incidindo em um erro. A Alemanha está tentando fechar suas usinas e está com dificuldade e nós estamos abrindo usinas novas, principalmente Angra II. Angra I já é uma tentativa de conserto. E pior, o setor elétrico e o setor nuclear querem fazer Angra III, porque dizem que já enterraram mais de 1 bilhão em obras, já compraram 75% dos equipamentos, ou seja, porque já fizeram um monte de bobagem no passado querem continuar fazendo bobagens no futuro. Tem uma coisa que precisa mudar no Brasil para que isso pare. Uma usina hidrelétrica equivalente a uma usina nuclear de Angra custaria perto de 2 bilhões de dólares. O preço inicial imaginado pelo setor nuclear para Angra II era de 3 e meio, 4 bilhões, ou seja, o dobro do que para a hidroelétrica. A hora em que você computa todos os gastos, custos financeiros, até por causa do atraso, varia de estimativa para estimativa. O setor nuclear diz que ficou em 7 bilhões e as estimativas dos institutos de energia eletrotécnica falam em 10 bilhões. Tem uma diferença enorme, dependendo de quem calcula, entre os 3 iniciais e os 7 ou 10 finais. Tem aí um valor econômico absurdo para poder fazer essa usina. No mundo de hoje, com a questão neoliberal, que não pode ter subsídio, essa coisa toda, por que estão fazendo isso? A resposta é a seguinte: uma lei estapafúrdia que existe no Brasil e diz que a diferença entre o custo da energia gerada por uma hidroelétrica e o custo real da energia gerada por uma usina nuclear é suprida pelo tesouro nacional. É uma lei da época da ditadura, quando eles queriam fazer o setor nuclear a qualquer preço. Essa lei precisa mudar, pois permite, inclusive, delírios de fazer uma Angra III, Angra IV, já que não tem custo, não tem preço. Isso tem que mudar! É uma questão que a gente tem colocado direto para o governo, para os parlamentares. Se a gente conseguisse acabar com essa lei, a gente conseguiria acabar com o setor nuclear no Brasil, porque não tem o menor sentido a população estar subsidiando o consumo de energia. Todos nós estamos pagando por isso.

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