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Demetrius A. de Carvalho

O EcoViagem entrevista Demetrius A. de Carvalho, fundador e atual presidente executivo da Ecosistema.

24 de Janeiro de 2001.
Publicado por Equipe EcoViagem  

O EcoViagem entrevista Demetrius A. de Carvalho, fundador e atual presidente executivo da Ecosistema.

O TERCEIRO SETOR: ENTIDADES SEM FINS LUCRATIVOS.

O fundador e atual presidente executivo do grupo Ecosistema, uma organização não-governamental voltada para o desenvolvimento sócio ambiental, fala sobre o atual cenário das entidades sem fins lucrativos.

EcoViagem: Como você criou a Ecosistema?
D. Carvalho: Eu era montanhista de uma certa data e era ligado aos antigos centros excursionistas universitários. Era também ligado ao Centro de Amigos da Natureza, o CAMIN. Lá nós desenvolvíamos várias atividades e projetos dentro de ambientes naturais, mais voltados ao excursionismo. Dentro deste contexto percebi que necessitávamos de uma maior profissionalização na organização. Mas como os veteranos tinham uma visão diferente da minha, essa profissionalização não foi possível. E como a entidade não estava cumprindo com seu objetivo social que era de desenvolvimento social, eu, juntamente com algumas outras pessoas, resolvi sair do CAMIN e fundar a Ecosistema. E então, dentro da Ecosistema, nós procuramos fazer uma administração o mais profissional possível, visando sempre manter a auto sustentabilidade da entidade. Todos os nossos projetos são orientados para programas de educação ao ar livre e ambiental através de atividades de aventura visando fortalecer a relação sociedade e ambientes naturais.

EcoViagem: Quais são os principais problemas que a Ecosistema e outras ONG`s enfrentam?
D. Carvalho: Uma das principais dificuldades é deficiência no que tange a uma gestão mais profissionalizada. Outra dificuldade é de manter a organização viva de uma forma que ela contribua com o desenvolvimento social e gere resultados. Esses resultados são necessários para ter coisas como uma equipe técnica contratada ou um quadro de funcionários, de forma a ter meios para a execução de projetos que vão ao encontro com o objetivo da entidade. Isso não é uma coisa tão simples, principalmente, por não existir, ainda, uma mão-de-obra mais amadurecida dentro deste cenário. São poucas as pessoas que tem uma visão mais clara dentro da administração de entidades sem fins lucrativos. As primeiras literaturas sobre este assunto no Brasil, mesmo no mundo acadêmico, não têm nem dez anos. Já nos Estados Unidos e na Europa algumas entidades são centenárias. Não dizendo que no Brasil as organizações sem fins lucrativos, ou seja, as organizações do terceiro setor, não sejam centenárias também. Existem algumas organizações no país com mais de cem anos. No montanhismo, o Centro Excursionista Carioca tem quase um século. Porém a gestão deste não é auto sustentável. Eles não conseguem ter uma autonomia financeira e um desenvolvimento mais adequado. Já outras organizações mais novas, que tiveram uma abordagem mais técnica e profissional conseguiram estar captalizando recursos financeiros e humanos para cumprir o objetivo da entidade. Creio que as principais dificuldades são ter a missão da organização muito bem estabelecida e analizar que você tem que gerar recursos financeiros, materiais e humanos, além de administrar esses recursos para que poder fazer com que a missão da organização seja atingida. Tudo isso não é fácil, principalmente por não se ter uma cultura no país voltada neste sentido. Nossa cultura acredita que se você trabalha numa organização sem fins lucrativos que você não pode ter dinheiro, que você será um abnegado. Isso é mentira. Você tem contas a pagar; contas de aluguel, de luz, de água, de provedor de site. Enfim, tudo requer recursos financeiros. A grande diferença, que as pessoas não conseguem perceber, é que na organização sem fins lucrativos não existe um dono. Existe sim um colegiado, um grupo de pessoas que mantém a organização viva, dedicando recursos financeiros ou seu próprio tempo para tal. E ninguém lucra com isso, quem lucra é a sociedade. Precisa-se aprender a valorizar as organizações do terceiro setor, mas sem a visão de alguém esta ganhando dinheiro com isso. O quê realmente ocorre é que alguém está se dedicando de uma forma absurda para manter a organização viva, dedicando seu tempo e seu lado profissional em cima de uma causa que vai beneficiar um todo. Outra coisa que está mudando é que a organizações do primeiro (governo) e do segundo (privado) setores estão começando a enxergar as entidades sem fins lucrativos como uma grande fonte de desenvolvimento social. Isso até tem gerado alguma estratégias dentro dessas organizações, principalmente as do segundo setor, como a participação em algumas destas entidades, financiando, desenvolvendo projetos em conjunto. Esse é o tal marketing de responsabilidade social, ou marketing social. Isso já ajuda muito as organizações a terem um novo cenário dentro do mercado.

EcoViagem: Quais são as principais fontes de renda das organizações do terceiro setor?
D. Carvalho: No Brasil a cultura da doação é quase inexistente. Mas a doação deveria ser a principal fonte de renda. No entanto isso não acontece de uma forma expressiva para manter o fluxo de caixa da entidade. Algumas organizações, como por exemplo, a Ecosistema, apelam para os eventos. Os eventos são realizados para ofertar para a sociedade uma proposta de desenvolvimento social, no nosso caso, atividades de aventura com foco educacional ao ar livre. É cobrada uma matrícula, um pagamento para se participar desse serviço prestado pela entidade. Aí você consegue levantar recursos com patrocínio para poder subsidiar toda a organização. Os recursos não são muito expressivos ainda, mas estão crescendo. Há uma mudança de comportamento dentro das empresas que tem permitido que, através de projetos bem elaborados, nós consigamos atrair patrocinadores. Então os eventos são hoje uma das principais fontes de captação de recursos para algumas organizações. Existem outras entidades onde a questão da doação é muito forte, embora a cultura brasileira seja desfavorável. Existem ainda aquelas onde o fundador, ou os fundadores mantém a organização viva. Concluindo são basicamente três as fontes de recursos: as doações de pessoas físicas, os patrocínios de empresas e os serviços que a organização presta à comunidade pelos quais ela recebe um valor agregado. Normalmente esse valor é mais acessível que os das empresas com fins lucrativos.

EcoViagem: Quais os tipos de retorno que têm as empresas que patrocinam entidades sem fins lucrativos?
D. Carvalho: Quando se trata de uma empresa com uma visão mais dinâmica dentro da sua própria estrutura organizacional, ela consegue perceber que a responsabilidade social, a ética e a atuação com o ambiente externo é essencial para manter a própria empresa viva a médio e longo prazo. Então em todas as ações que ela faz, visando o desenvolvimento social ou apoiando instrumentos da sociedade, ela está contribuindo para fidelizar a imagem dela com esse mercado, ou seja, com esse target que é beneficiado por essa organização. As empresas ganham em merchandising, ou seja, a imagem dela se torna uma imagem mais agradável perante o próprio consumidor. O apoio pode ser a um projeto, um evento ou uma organização. Está última seria a mais adequada, apoiar uma organização como um todo. Isso agrega muito valor a própria empresa e a própria imagem perante a sociedade. Se a organização consegue atingir uma parcela da sociedade onde existe um poder aquisitivo significativo e também as classes mais baixas, ou seja, ela consegue atuar tanto para uma classe A quanto para uma classe E, então a empresa vai estar trabalhando com a sua imagem na classes de A, B e C e ainda estar fazendo uma ação social nas classes D e E que são beneficiadas pelo projeto. Isso ajuda muito na imagem da empresa.

EcoViagem: Você acha que existem muitas empresas, que são de fato empresas e que disfarçam-se de organizações sem fins lucrativos para dispor de alguns benefícios a estas destinados?
D. Carvalho: O Brasil é um país muito grande. Outro dia descobrimos que só em Recife existem mais de 20 mil organizações sem fins lucrativos. Logo ligamos este dado com a "indústria da seca", ou seja, a "indústria dos miseráveis". Quanto mais miseráveis melhor para o deputado, para o senador e para o governador desviarem recursos para essas entidades. Qualquer deputado pode chegar e apresentar uma entidades destas e ela já se torna uma entidade de utilidade pública nacional. Pronto, já é o suficiente para o deputado começar a mandar ou desviar recursos para essa organização. Vinte mil organizações sem fins lucrativos em Recife é uma coisa impressionante perto do Estado de São Paulo que provavelmente não tenha tudo isso. Que existem essas organizações, sem sombra de dúvida existem. Agora, também é importante dizer que as organizações em geral, por mais que sejam sem fins lucrativos, elas são organizações. E como tal, elas têm que ser administradas com uma gestão estratégica e profissional. A gestão no terceiro setor é ainda mais importante que no segundo setor. No segundo você tem um fim que é dinheiro. E para ter esse lucro você faz qualquer coisa com a intenção de vender. Você vai a luta para fazer teu produto ou teu serviço gerar um benefício econômico a seu favor. Na gestão das organizações sem fins lucrativos isso não acontece. Estas não visam o lucro, visam o desenvolvimento social. No entanto você tem recursos escassos que devem ser muito bem administrados. Caso contrário, a organização pode entrar numa situação onde ela não consegue mais se reerguer. Então na administração de organizações sem fins lucrativos você tem que ter uma experiência e um comportamento empreendedor muito maior que na empresa normal. Na empresa normal você só tem um objetivo, lucro. Se não estiver vendendo, você fecha e vai para outra. Já nas organizações sem fins lucrativos você não vai para o lucro, você vai para uma missão. E a sua missão social pode ser implementada de várias maneiras. Você pode implementar ela com ou sem dinheiro. Mas você tem que cumprir sua missão social. Então a forma de você gerenciar elas tem que ser como a de qualquer outro tipo de organização: profissionalmente.

EcoViagem: Existe uma legislação adequada às organizações sem fins lucrativos?
D. Carvalho: A legislação já está começando a se modernizar, e começa a existir algumas leis referentes às organizações do terceiro setor. Existe um decreto que ajudou e tem ajudado muitas organizações se desenvolverem que é o decreto do serviço voluntário, normatizando esse tipo de serviço que é a principal fonte de recursos humanos na maioria das organizações. O capital humano é o maior recurso que o terceiro setor tem. Para nós, isso ajudou a deixar uma relação bem clara com a pessoa que trabalha dentro de uma organização de uma forma voluntária. Isso protege as organizações das ações de algumas pessoas que vêm fazer um trabalho e de repente querem se beneficiar de alguma forma através disso. A lei do serviço voluntário foi uma grande ganho para o cenário das organizações sem fins lucrativos.

EcoViagem: Como você analisa a participação da sociedade através do voluntariado?
D. Carvalho: Nós lançamos um programa chamado Programa Voluntariado Ecosistema e a primeira turma me impressionou pela grande demanda. Muitas pessoas ligaram e queriam fazer o curso. Na verdade, era um programa de capacitação, onde nós familiarizamos o voluntário com toda a metodologia educacional da Ecosistema, ou seja, com aquilo que nós acreditamos, com o nossos objetivos sociais e com as técnicas de educação ao ar livre que utilizamos para atingir nossos objetivos sociais. Isso tudo foi muito positivo e percebe-se que a mentalidade do brasileiro está começando a mudar. Agora a sociedade está tendo uma predisposição a fazer algum tipo de trabalho social.

EcoViagem: Qual é o futuro das organizações sem fins lucrativos?
D. Carvalho: É extremamente próspero. Nós percebemos que as organizações do terceiro setor hoje no Brasil têm uma responsabilidade social e uma importância no desenvolvimento do país extremamente significativa. No nosso caso, nós somos os pioneiros do conceito do trekking esportivo, o quê chamam hoje de enduro a pé ou rally a pé. Existem hoje no país algumas dezenas de torneios, ou eventos ou projetos que envolvam esta modalidade desportiva. Nós, quando criamos o trekking, tínhamos o objetivo de fazer com que as pessoas começassem a interagir com ambientes naturais na forma de uma atividade simples que envolve trabalho em equipe. Uma pessoa pega uma planilha, um mapa planejado pelos organizadores e conduz o grupo por uma trilha dentro de uma unidade de conservação. Esse investimento que nós fizemos no início dos anos 90, hoje está gerando algumas dezenas de equipes e empresas que organizam eventos desse tipo. A maioria destas organizações são do segundo setor, com exceção da Ecosistema. Nossa entidade foi quem desenvolveu a metodologia e quem a fomentou pelo país. Essa contribuição que nós demos tem gerado uma quantidade significativa de pessoas que tem se aproximado mais do ambiente natural e ao ar livre. E é nessa relação com a natureza que você consegue construir dentro do indivíduo um cenário mais propício para a mudança de seu próprio comportamento em relação ao meio ambiente. Ninguém vai preservar a floresta atlântica ou a floresta amazônica se esta natureza não tiver valor ou significado para ele. Ele só vai perceber que isso tem significado para ele a partir do momento que tiver um envolvimento mais intrínseco com a natureza, ou seja, quando ele perceber que ele faz parte da natureza e que a natureza está dentro dele si próprio. E ele só vai conseguir perceber isso quando estiver numa alta montanha ou numa floresta, bebendo água de um riacho; quando ele sentir os benefícios que a natureza trás para ele mesmo. Essas atividades do trekking ajudaram milhares de pessoas a estarem se envolvendo com ambientes naturais. Isso graças à iniciativa que a Ecosistema teve para poder estar fomentando o trekking no país, além dos programas de educação ambiental que nós fazíamos e ainda fazemos com escolas e outras organizações. Enfim, acho que toda organização sem fins lucrativos tem uma proposta social específica dela e isso ajuda muito as sociedades a estarem se desenvolvendo. Então o futuro destas entidades é muito próspero, pois existe muito trabalho. Felizmente as empresas também estão percebendo que elas têm uma responsabilidade social muito grande e muitas delas já estão se agregando a algumas destas entidades. É um cenário muito bom em termos de captação de recursos.

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