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Dener Giovanini

Dener Giovanini, 36 anos, Empreendedor Social, Ambientalista e Coordenador Geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS), foi o ganhador do prêmio UNEP - Sasakawa de Meio Ambiente 2003.

17 de Fevereiro de 2004.
Publicado por Equipe EcoViagem  

Dener Giovanini, 36 anos, Empreendedor Social, Ambientalista e Coordenador Geral da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS), foi o ganhador do prêmio UNEP - Sasakawa de Meio Ambiente 2003, um dos mais importantes do planeta, considerado o Nobel da área. O único brasileiro a receber essa distinção anteriormente foi Chico Mendes. Nessa entrevista, o ambientalista fala sobre a premiação, biopirataria e a delicada situação da fauna silvestre brasileira.
www.RENCTAS.org.br

EcoViagem: Há quanto tempo trabalha com a RENCTAS e por que a preocupação com o tráfico de animais silvestres?
Dener: Fui o fundador da Renctas há cerca de 05 anos atrás, e a crueldade dos traficantes de animais me levou a desenvolver um trabalho voltado ao combate a essa atividade criminosa. Eu estou ligado ao movimento ambientalista desde os 16 anos de idade, quando ajudei a fundar o Partido Verde no Brasil.

EcoViagem: Sabemos de toda a alegria, orgulho e satisfação em receber esse reconhecimento internacional pelo seu trabalho. Mas nos diga, em suas palavras, o que se passa emocional e profissionalmente ao receber esse prêmio? O que muda com ele, no seu trabalho e na visão da sociedade e do governo brasileiros?
Dener: É muito gratificante receber um reconhecimento dessa importância. Nunca imaginei um dia estar sentado ao lado do Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, num jantar. Pessoalmente a ficha demora a cair. É o tipo de notícia que você leva um tempo para assimilar e entender o seu significado. Mas logo você percebe que as mudanças são grandes. A sua responsabilidade aumenta muito e todos esperam que você faça cada vez mais. Com certeza esse prêmio trará uma maior visibilidade ao nosso trabalho e fortalecerá a luta contra o tráfico de animais no Brasil.

EcoViagem: Como funciona o ciclo da biopirataria desde a captura dos animais até seu comprador final? Quem lucra mais nesse processo?
Dener: O tráfico da vida selvagem movimenta entre 10 a 20 bilhões de dólares por ano, sendo a terceira maior atividade ilícita do planeta, superada apenas pelo tráfico de armas e de drogas. O Brasil participa com cerca de 10% desse mercado. A lógica do tráfico é cruel: quanto mais ameaçado de extinção for o animal, maior será o valor que ele alcançará no mercado ilegal. Além de aumentar o risco de extinção das espécies ameaçadas, esse comércio pode trazer grandes danos para a saúde pública. Quem lucra são as quadrilhas organizadas, os grandes traficantes. Os fornecedores, que geralmente são pessoas pobres, acabam sendo explorados também. Da mata até a jaula de um colecionador particular, os animais sofrem um verdadeiro matírio, que no final acaba provocando a morte de 09 entre cada 10 animais capturados.

EcoViagem: O que o Brasil perde, em termos ambientais e econômicos, com a biopirataria?
Dener: O país perde muito, principalmente em termos econômicos. Quando uma nova substância é descoberta, logo é patenteada no exterior e o Brasil nada recebe por isso. Em termos ambientais nem se fala, muitas espécies estão ameaçadas de extinção em função do tráfico. Essa atividade ilegal é responsável pela retirada anual de aproximadamente 38 milhões de espécimes das florestas brasileiras.

EcoViagem: Sabemos que o buraco na questão do tráfico de animais é mais embaixo, envolve toda uma complexidade sócio econômica que também deve ser levada em consideração. Que outras alternativas econômicas poderiam ser exploradas pelas comunidades mais humildes, que têm a caça como única alternativa de renda?
Dener: É preciso que o estado se faça presente, que promova o desenvolvimento social oferecendo alternativas de renda para essas comunidades carentes. Só proibir não adianta.

EcoViagem: Qual o papel do Ecoturismo nesse processo?
Dener: O Ecoturismo é fundamental. Áreas de grande ocorrência de espécies raras são alvos prioritários dos traficantes de animais. Essas áreas deveriam ser utilizadas pelos órgãos públicos para promover o ecoturismo, o que traria recursos para as comunidades que ali vivem e ajudaria a preservar a biodiversidade.

EcoViagem: Na sua visão, quais os resultados concretos da CPI da Biopirataria? Quais as falhas? O governo procurou a sociedade, inclusive a RENCTAS, durante o processo?
Dener: A CPI foi um grande passo. O Legislativo cumpriu o seu papel, resta agora o governo fazer alguma coisa. A RENCTAS teve a oportunidade de colaborar com os trabalhos da CPI.

EcoViagem: A maior parte dos animais é enviada ao exterior. Existe algum trabalho conjunto com entidades e governos de outros países para combater o tráfico de animais brasileiros?
Dener: Muito pouco. Ainda temos que avançar muito neste setor para termos um combate efetivo contra essa atividade criminosa.

EcoViagem: Estive agora na Bahia e é incrível como as pessoas expoem e vendem os animais escancaradamente, em plena luz do dia, nos acostamentos da BR 101. Nessas horas, o que fazer, como e a quem recorrer?
Dener: O correto é denunciar aos órgãos competentes como o Ibama ou a Polícia. Essa é uma cena comum nas estradas basileiras, por isso temos que exigir uma maior ação por parte do governo federal, que infelizmente está deixando muito a desejar neste aspecto.

EcoViagem: O que você acha que ainda falta, por parte do governo e da sociedade civil, no combate ao tráfico de animais silvestres?
Dener: Falta, por parte do governo, principalmente do Ministério do Meio Ambiente, vontade de resolver o problema. Hoje estamos vendo a instalação do caos. Se nada mudar, o nosso futuro ambiental será muito ruim, e os atuais ocupantes do MMA deverão ser responsabilizados.

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