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Equipe Canoar Master

O EcoViagem entrevista a equipe Canoar Master de Rafting.

27 de Dezembro de 2000.
Publicado por Equipe EcoViagem  

O EcoViagem entrevista a equipe Canoar Master de Rafting.

A EQUIPE CANOAR MASTER APOSTA NO PANAMERICANO DE RAFTING.

Integrantes: Leonardo de Barros ( Leo ); Ricardo Farani ( Kako ); Maurício Borsari ( Alemão ); Frederico Perez ( Fred ); João Carlos ( Juneca ); Washington Testa ( Xitão ) e Sérgio Pietro ( Serginho ).

Títulos: 7º lugar Campeonato Mundial/Camel ( Africa do Sul 1999 ); 3º lugar Jogos Mundiais da Natureza ( Foz do Iguaçu 1997 ); Tetra Campeã Brasileira (1996,1997,1999 e 2000 ); Vice - Campeã Brasileira ( 1998 ); Bi - Campeã Paulista ( 1999 e 2000 )

O primeiro Campeonato Panamericano de Rafting será realizado no Brasil, em Itajaí (SC), entre os dias 7 e 11 de fevereiro. A equipe Canoar Master, que em 5 anos de existência vem reunindo os principais títulos nacionais e expressivos resultados internacionis, está treinando forte para tentar faturar o campeonato e garantir uma vaga nos Jogos Mundiais da Natureza e no Campeonato Mundial. Leonardo de Barros, o Léo, e Washington Testa, o Xitão, dois dos integrantes da Master, contam ao EcoViagem um pouco sobre a equipe, os campeonatos e a velha dificuldade de se conseguir um patrocinador.

EcoViagem: Como surgiu a Canoar Master?
Léo: A Canoar Master existe há 5 anos e vem no topo do cenário nacional durante todo esse tempo. A formação mais antiga era o Alemão, o Zé Pupo, da Canoar, o Quinzinho, o Tatu, o Fábio Paiva e o Lindinho. Essa foi a primeira formação da Master, que veio ganhando todos os títulos. Agora, a Master passou por uma reformulação, com a saída do Tatu, que remava na frente, e o Quinzinho, que remava atrás. Entramos eu, no lugar do Tatu, e o Xitão, no do Quinzinho. Nós vamos estrear no Panamericano com essa formação.

EcoViagem: Cada um tem uma posição fixa na equipe?
Léo: Cada um tem sua posição no bote. Temos as duas posições da frente, os próas, que dão o ritmo do bote; se eles erram uma remada, todo mundo vai errar também. O meio do bote é o que chamamos de trator; eles estão o tempo inteiro remando frente-forte. Os popas, os de trás, são os que dão a linha do bote, dando toda a direção, além de enxergar todo mundo, podendo dar os comandos.

EcoViagem: Como é o treinamento de vocês?
Léo: O treinamento deveria ser mais constante do que é. Mas a gente treina bastante. Costumamos acordar às 5 horas da manhã para estar às 5 e meia na raia da USP. Remamos até às 7 horas e aí cada um vai para o trabalho, pois infelizmente não dá para viver só do rafting, apesar de 90% da equipe ser de instrutores; o ideal seria viver só disso!
A parte de slalom, treinamos em Juquitiba, no Rio Juquiá. Também treinamos na praia, como hoje, que estamos indo para Santos. Também temos um treinamento individual, através de um apoio bem legal da Academia Fórmula. Temos crédito total para treinar lá o que quisermos. Assim estamos investindo bastante na parte aeróbica, em musculação, com acompanha de gente da área, fisiologistas.

EcoViagem: E o patrocínio?
Léo: Você tocou em um ponto difícil. Hoje em dia, com as novas leis, até para o futebol está difícil. Imagine para o rafting! Só para ter uma idéia, no Panamericano, a inscrição da equipe está em torno de 500 reias. Somando mais passagem, hospedagem, alimentação e equipamento, esse valor sobe para uns 5 mil reais. A gente consegue um apoio aqui, outro ali. A Canoar ajuda muito, mas patrocínio é algo que não temos tido muito retorno, apesar de corrermos atrás. Apoio conseguimos bastante, mas financeiro está difícil.

EcoViagem: Vocês acabam tirando dinheiro do próprio bolso?
Léo: Com certeza. Acho que o que sustenta nossa equipe, como todas as outras, é nossa irmandade e o amor pelo esporte. Nós gastamos dinheiro com alimentação, gasolina, transporte, etc. Graças aos 5 anos de experiência da Master, geralmente conseguimos as inscrições; temos conseguido uniforme também.

EcoViagem: O Panamericano é muito importante para a Canoar Master?
É o primeiro Campeonato Panamericano. Vai ser mais Panamericano pela participação dos Estados Unidos, do México e do Canadá. Até então, só foi realizado um Latino-americano, na Costa Rica, que inclusive, por falta de patrocínio, o Brasil ficou prejudicado; A Master e a Ativa Rafting, do Sul, estavam classificadas, mas na última hora, por falta de dinheiro, só deu para participar com uma equipe mesclada; mesmo assim ficamos em terceiro lugar. Para esse Panamericano, que vai acontecer no Brasil, estamos indo com uma equipe formada e estamos fazendo um treinamento bem específico. Esse campeonato é muito importante, pois, independente da classificação geral, a melhor equipe classificada entre a Master e a Ativa, ganha automaticamente uma vaga para os Jogos Mundiais da Natureza, em setembro. Juntamente com os Jogos, acontece um Campeonato Mundial. Para a participação neste mundial, valem as quatro primeiras colocações no Panamericano, sendo que não pode haver duas equipes de um mesmo país. Em março tem o Campeonato Paulista e, em junho, o Brasileiro. O campeão brasileiro ganha uma vaga para o Camel, na África do Sul, no Rio Zambeze, o maior da modalidade em termos comerciais.
A importância desse Panamericano também é que, além de ser o primeiro, ele está sendo realizado no Brasil. Por isso, temos um nome a zelar.

EcoViagem: O Camel é o campeonato mais importante?
Léo: O Camel é muito tradicional e o mais importante. A única equipe sul-americana que conseguiu participar foi a Master, no ano retrasado. E por falta de recursos e toda a correria, não conseguimos um resultado muito expressivo. Mesmo assim, conseguimos arrancar um sétimo lugar, estando à frente de excelentes equipes, como Estados Unidos, Itália, que eram duas vezes maiores que a gente. Para uma equipe estreante foi ótimo.

EcoViagem: Quais são os países mais fortes no rafting?
Léo e Xitão: Em primeiro lugar, a Eslovênia, que é muito tradicional. Depois a Alemanha. Em terceiro estão os russos; os tchecos também são muito fortes. Depois, estão os da nossa categoria: Estados Unidos, Canadá,... Para o Panamericano, nossos maiores rivais serão os americanos, os costa riquenhos e os mexicanos, além dos canadenses.

EcoViagem: Como o rafting está organizado no Brasil?
Xitão: O rafting está organizado pela Confederação Brasileira de Canoagem - CBCa. Não existe ainda uma confederação específica para o rafting, mas dentro da CBCa temos um espaço, pois é uma modalidade muito parecida com a canoagem. Também existem as associações estaduais que já se organizam.

EcoViagem: O que acontece no caso de alguém se machucar no campeonato.
Xitão: Temos um reserva, fora os seis, que está preparado para remar em qualquer uma das posições.

EcoViagem: Vocês têm técnico?
Léo: Bem, o "pai" do rafting no Brasil é o Zé Pupo, que foi técnico da Seleção Brasileira de Canoagem nas Olimpíadas de Barcelona, em 92. Ao nosso ver, ele é a pessoa mais experiente no Brasil. Apesar de no momento ele estar ocupado com outras coisas profissionais, sempre que possível ele nos acompanha nos campeonatos. Depois das provas, ele mostra o vídeo, conversa e estuda estratégia. É uma grande vantagem ter uma pessoa com a cabeça fria na hora do campeonato para orientar a equipe. Confiamos muito nele.

EcoViagem: Como alguém pode se tornar um atleta do rafting?
Para se tornar um atleta do rafting, não basta só querer, porque o rafting não é um esporte individual. Eu cito o exemplo do jiu-jitso, onde o cara fala "vou ser campeão" , começa a batalhar e sozinho chega lá. Mas no rafting, são seis cabeças em um bote. Então não adianta um ser mais forte ou querer mais que o outro. Todo mundo tem que pensar junto, querer as mesmas coisas e batalhar para isso; você tem que subir degraus. Eu e o Xitão, começamos com a equipe Cascuda, que é uma excelente equipe, e viemos crescendo aos poucos para chegar no nível técnico de hoje. A Master tem 5 anos e até hoje não teve um conjunto 100%. Influi muito o aspecto psicológico, principalmente nas provas. O aspecto físico também é muito importante. O atleta tem que conciliar família, namorada, filhos, trabalho, com um treinamento que é muito intenso para fazer umas provas, como por exemplo, sprint ou tiro de velocidade que duram de 2 a 3 minutos; a prova mais longa é o descenso. Por isso é preciso muita concentração e trabalho em conjunto. Nosso lema é "uma só cabeça no bote".

EcoViagem: Um bom caminho seria se tornar instrutor?
Léo: Acho que é um bom caminho, apesar de existirem vários atletas que não são instrutores. A Canoar oferece o melhor curso. E a partir daí, você vai adquirindo técnicas, conhecimentos, experiência nos rios. Isso também abre portas. As equipes vão estar observando e chamando instrutores.

EcoViagem: O rafting é um dos esportes de aventura que mais tem se popularizado. Isso contribui para o surgimento de novos atletas?
Estávamos até conversando sobre isso outro dia. No primeiro Campeonato Brasileiro, em 96, havia 3 ou 4 equipes, na categoria principal. Em 2000, em Piraju, eram 20 equipes profissionais, fora a categoria feminina. O número de empresas também cresceu nos últimos 5 anos; hoje, existem mais de 30, nem todas bem preparadas. Em alguns finais de semana, na Canoar, temos a passagem de 500 pessoas em todas as nossas bases. A mídia tem divulgado bastante e o público dos campeonatos tem crescido. Houve até comentários de que haveria uma descida de apresentação nas Olimpíadas de Sydnei, mas não aconteceu.

EcoViagem: Existe algum rio que a equipe gostaria muito de descer?
Léo e Xitão: A unanimidade é o Zambeze, no Zimbabwe. Por isso é tão importante a vaga para o Camel. Também tem o Futalefu, na Patagônia chilena. O Tatu e o Zé Pupo já desceram o Zambeze de caiaque. Ele tem uma lenda: o Inhame Inhame é o Deus do Zambeze e dizem que todos que forem descê-lo têm que ter o Inhame Inhame no pescoço, senão o rio dá um caldo. Quando a gente for, vamos colocar o nosso Inhame Inhame no pescoço.

EcoViagem: O que está faltando para vocês?
Léo e Xitão: Nosso grande problema tem sido encontrar o patrocínio mesmo. No Brasil, o esporte está mais voltado para o futebol. Existem campos em qualquer esquina. De uns anos para cá, outros esportes olímpicos, como volei e basquete, têm recebido atenção. Sabe qual é o segundo esporte mais praticado no país, depois do futebol? O surf! Falta um pouco de apoio para os esportes em água, que não fazem muito parte da nossa cultura. Esperamos que as pessoas percebam esse potencial. O Brasil tem grande potencial para o ecoturismo e o rafting é a modalidade que mais está aparecendo. Só dando um exemplo, a cada anos de descidas comerciais, a gente descobre de dois a três rios. Ainda temos muitos lugares para explorar. Existem grandes empresas, como uma Fiat, uma Bayer, ou a marca Ruffles, que já mostraram interesse por esportes de aventura, mas na hora H...
Essas provas internacionais terão uma grande mídia envolvida e, a partir daí, tentaremos um apoio mais concreto e lucrativo. O lucro não é salário; é a gente não gastar nosso dinheiro, poder fazer uma viagem para treinar, não gastar com passagem. Parece que é pouco, mas colocando no papel, em um ano de temporada competitiva, chegamos a 30 mil reais facilmente .

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