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Henrique Ruas

O Secretário Municipal de Turismo de Bonito (MS) conta ao EcoViagem como se iniciou o turismo na região, as dificuldades enfrentadas e providências tomadas para que a cidade fosse considerada o exemplo em organização do turismo em áreas preservadas.

9 de Janeiro de 2002.
Publicado por Marcelo Maestrelli  

O Secretário Municipal de Turismo de Bonito (MS) conta ao EcoViagem como se iniciou o turismo na região, as dificuldades enfrentadas e providências tomadas para que a cidade fosse considerada o exemplo do Brasil em organização do turismo em áreas preservadas.

EcoViagem: Como e quando foi o inicio do turismo em Bonito?
Henrique Ruas: O turismo organizado em Bonito começou em 93, com a organização do primeiro curso de guia de turismo especializado em atrativo natural. A partir desta data começaram a se criar as primeiras regras e as primeiras práticas de visitação ordenada aos lugares turísticos do município. Nessa época nós não tínhamos ainda nenhuma regulamentação específica, mas esses guias com a formação que tiveram, começaram a perceber a fragilidade do ecossistema de Bonito, a necessidade de criar algumas regras e práticas para visitação, e começaram a divulgar na própria comunidade a importância da preservação, também como a sobrevivência econômica de muitas famílias.
Então a partir desta data, o turismo passou a ser visto não mais como um “bando de ecologistas, ou pessoas passeando”; passou a ser visto como uma atividade econômica muito mais rentável do que atividade profissional rural do município.
Para mim esse é um momento muito importante, quando entra o guia local, formado aqui em bonito, e começa a transformar idéia que se fazia de turismo dentro da comunidade de Bonito.

EcoViagem: Onde e por quais instituições foram realizados os cursos de formação dos guias locais?
Henrique Ruas: O curso foi realizado em Bonito. Fruto de um convenio Senac, Sebrae e Prefeitura Municipal, sob coordenação da UFMS – Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, lembrando que foi um curso homologado pela Embratur, dentro das características estipuladas pela Embratur.

EcoViagem: Quais foram as dificuldades iniciais enfrentadas pela cidade depois do credenciamento destes guias e o real crescimento do turismo. Que impacto isto causou na cidade ?
Henrique Ruas: Até hoje existe uma parcela da população que não aceita muito bem o turismo ainda, claro que esta porcentagem está diminuindo ao longo dos anos. Porém inicialmente havia uma resistência muito grande, principalmente dos proprietários das áreas rurais, que não viam o turismo com bons olhos, porque o turismo defendia uma série de medidas preservacionistas, e eles entendiam como um intervenção numa área privada, em assuntos que não diziam respeito à comunidade porque era intervenção na área privada. Isso foi mudando com o tempo quando os primeiros proprietários rurais que investiram em áreas turísticas começaram também a ganhar dinheiro com isto. O mais importante ou o mais interessante é que o turismo vai utilizar dentro das áreas rurais, exatamente aquelas áreas que não eram aproveitadas nem pela agricultura nem pela pecuária, ou seja as áreas que estão preservadas de mato, de morros, de rios, cachoeiras, nascentes, grutas, são essas áreas exatamente que estão sendo aproveitadas. Então o proprietário rural aos poucos começa a ver que o turismo não vem contra nada, e que ele pode somar novas atividades sem deixar de fazer a sua atividade habitual seja agrícola ou pecuária, apenas tomando certos cuidados para não estragar mais com sua atividade profissional os redutos que eles ainda tinha bem preservados. Então a partir deste momento que você junta a viabilidade econômica com a vantagem econômica, ficou mais fácil propagar toda parte de preservação e a necessidade de uma regulamentação, mesmo que não transformadas em lei, mas regras muito rígidas para a visitação dos pontos turísticos. E essas regras começam a ser feitas exatamente pelos guias de turismo que, fazendo os passeios, começaram a perceber que era necessário limitar o número de pessoas para os acompanhar, quando o guia sabia até quantas pessoas podia controlar de uma maneira razoável e até quantas pessoas podia aquele lugar aceitar por dia, então todas as limitações que temos hoje em termos de números de visitantes por dia e número de turistas por guia, foram fruto de uma prática dos guias de turismo.

EcoViagem: E hoje quais são as associações ou organizações que coordenam, dão manutenção e criam novas regras para a visitação dos passeios?
Henrique Ruas: Todos os setores do trade turísticos têm suas associações, e todas elas têm um representante no Conselho Municipal de Turismo, o qual tem como um dos objetivos formular as regras do sistema turístico de Bonito. Na verdade nós temos hoje pouquíssima regulamentação; quase toda ela feita em 1995 foi quando surgiu o COMTUR e se criou a primeira lei que obrigou o acompanhamento do guia de turismo em todos os passeios. Também em 1995 foi criado o Voucher Único e de lá pra cá nós não tivemos praticamente mais nada além de algumas resoluções normativas do COMTUR. A partir de 2001 eu assumi a Secretaria de Turismo e comecei a regulamentar algumas coisas por portaria, que era uma prática que também não havia no município por parte dos secretários municipais; então essas portarias são feitas depois de discussões, ou com o COMTUR ou com as instituições específicas a que se referem essa regulamentação, sempre depois de um debate grande, que aliás é uma das características de Bonito, desde longa data é a conversa permanente e a troca de idéias permanente entre o trade turístico, e desses debates e reuniões é que tem saído e evoluído a nossa pratica turística que levou ao sistema que temos hoje.

EcoViagem: De onde surgiu essa idéia do Voucher Único e de que forma isso contribui na organização do turismo?
Henrique Ruas: O Voucher Único surgiu de uma troca de opiniões e idéias entre a Prefeitura Municipal de Bonito, na administração de 1995 e o Conselho Municipal de Turismo; e saiu como uma resolução normativa do COMTUR. Por um lado nós precisávamos de estatísticas sobre o número de visitantes no município, pois não havia como ter estas estatísticas; por outro lado o poder público precisava tributar passeios, guias e agências que estavam tendo uma atividade econômica que não havia muito como tributar porque nenhuma delas emitia notas fiscais, pois nesse tipo de turismo é muito raro o turista pedir nota fiscal. Então através desse acordo a iniciativa privada acabou aceitando que todo seu movimento fosse registrado nesse Voucher Único.

EcoViagem: E como funciona este Voucher Único?
Henrique Ruas: As agências locais se dispuseram a deixar de usar seu próprio Voucher, e usar um Voucher que era emitido e controlado pela Prefeitura Municipal, que fornece um bloco para cada agência. A agência preenche um Voucher Único com a descriminação do passeio que está sendo feito, do guia de turismo que esta acompanhando esse grupo, o número de pessoas, o valor que está sendo cobrado e a última via desse Voucher retorna para a Prefeitura para que a agência possa pegar outro bloco do Voucher Único. Então todo o movimento é lançado num software que foi desenvolvido aqui em Bonito também para tratamento desses dados e, com isso, nós sabemos exatamente quanto o guia está trabalhando, que passeios estão sendo mais visitados e quais as agências que estão trabalhando mais.

EcoViagem: Falando em dados, como são os dados estatísticos de turismo em Bonito?
Henrique Ruas: Nós tivemos em 2000 cerca de 190.000 passeios vendidos - isso não significa número de turista, já que cada turista faz em média 3 passeios. Dentro desse número sabemos que há alguns setores que não estão usando Voucher Único, mas sim o Voucher Interno, e não há fiscalização disto; portanto esse número de passeios na verdade é maior, e temos também um outro tipo de passeio em que não é usado o Voucher, que é o Balneário Municipal, que não é considerado um passeio porque não é exigido um guia, não há necessidade de reserva de horário, não há ainda uma limitação do número de visitantes, então está fora do nosso Voucher Único. Eu acredito que nós temos, uns 100.000 ou 120.000 turistas/ano em Bonito. Em termos de leitos, nós temos hoje cerca 3.200 leitos, mais de 60 meios de hospedagem - esse número cresce quase que diariamente; temos cerca de 35 passeios; temos 5 turmas de guia de turismo formados em Bonito, sendo cerca de 90 guias de turismo ativos, eu fui um deles desde a primeira turma de guias, sou um daqueles que já não exercem mais a atividade.

EcoViagem: Como a cidade encara este crescimento e conseqüentemente a vinda de grandes investidores, grandes redes de hotéis, aeroporto internacional, anel viário de passeios, enfim uma grande massificação de exploração de turismo aqui?
Henrique Ruas: As opiniões se dividem, algumas pessoas são totalmente contrárias à vinda de empreendimentos desse porte. Na verdade a cidade não está preparada para esse tipo de crescimento essencialmente pela ausência do plano diretor. Nós hoje por exemplo tivemos logo no início desta administração em 2001, um problema com um alvará que tinha sido dado para a construção de um edifício de 5 andares, nós tentamos evitar isso, chamamos o dono do empreendimento mas na verdade estava totalmente dentro da lei, pois nosso código de obras municipal não estabelecia limitações. No final de 1999 a prefeitura e o COMTUR fizeram um convênio com a universidade Brás Cubas de Mogi das Cruzes, para a elaboração do plano diretor que foi entregue agora no final do ano e vai entrar em discussão na Câmara Municipal. Eu acho que esse fator é importantíssimo para pelo menos nós regulamentarmos o crescimento da cidade daqui pra frente, e é claro que nessa regulamentação entram uma série de limitações de ordem urbana, construção, arquitetura, definição de expansão urbana... todas estas questões estão abordadas no plano diretor, que de certa forma, embora não sejam questões diretamente ligadas ao turismo, vão estabelecer algumas limitações para o crescimento de qualquer atividade econômica.

EcoViagem: Com grandes redes de hotéis, a cidade não corre o risco de ter uma quantidade significativa de turistas reclusos aos hotéis, deixando de consumir nos pequenos comércios da cidade?
Henrique Ruas: Sinceramente não acredito que isto ocorra, primeiro porque o tipo de público que eles vão trazer é um público específico que eles mesmos vão atrair, ou seja, acho que nós não teremos turistas que vão estar deixando de ir para outros meios de hospedagem e restaurantes - vamos ter mais turistas. Vamos ter um outro tipo de turista, que vai vir em função do nome do Resort. O primeiro empreendimento mais avançado que foi bastante discutido a nível de comunidade em uma série de apresentações e reuniões, optou claramente por aproveitar toda a estrutura turística desenvolvida em Bonito a nível de passeios, e não criar nada próprio nessa área, não ter agência própria, não ter nenhum passeio próprio e deixar o turista livre pra fazer os passeios em Bonito, porque eles acreditam que a grande atração de Bonito é a natureza, nunca vai ser o Resort em si, que existe em qualquer lugar do mundo, às vezes até muito mais acessível. Então eles contam com a estrutura que foi desenvolvida na cidade, que eles acham que é bastante boa e é isso que atrai as pessoas aqui.

EcoViagem: Existe uma previsão de que os grandes resorts bloqueiem todos os horários nos melhores passeios de Bonito na alta temporada, obrigando o turista a se hospedar nestes resorts para poder visitar os passeios mais disputados?
Henrique Ruas: Nós temos uma regra deste tipo na Gruta do Lago Azul, que é administrada pela Secretaria de Turismo, onde cada agência pode fazer no máximo 45 reservas por dia na alta temporada; tratando-se de passeios da iniciativa privada eu não vejo como estabelecer esta limitação, o dono do empreendimento tem total liberdade de vender para quem melhor entender, assim como hoje funciona uma operadora que tem reserva nos hotéis, um certo número de apartamentos bloqueados. Acho que é uma prática do mercado que tem vantagens e desvantagens. Não acho que da parte desse empreendimento haja algum interesse em fazer algum acordo deste tipo, aliás, não vejo interesse nem comercial em fazer isso; mas se ocorrer acho que é uma prática que existe habitualmente no turismo de haver uma reserva de um certo número de vagas para uma determinada operadora ou um determinado pool de operadoras, e cabe a cada empreendimento ou proprietário decidir os prós e os contras desse tipo de acordo.

EcoViagem: Para finalizar como Bonito se vê sendo cidade como modelo de organização na exploração do ecoturismo a nível Brasil?
Henrique Ruas: Com muita preocupação, pois sabemos que ainda há uma série de defeitos em nosso sistema, uma série de problemas não resolvidos. Bonito recebeu em 2001 o troféu do guia 4 rodas como município de melhor planejamento turístico, e é preocupante saber que apesar de todos os nossos problemas ainda somos um modelo; é mau sinal, sinal de que o resto do país está em muito pior situação. De qualquer maneira para nós esse prêmio nos trás mais responsabilidade de termos uma prática desde o inicio do turismo em Bonito, que é manter sempre o processo de discussão e de participação muito ampla das associações de cada setor de atividade econômica na discussão deste modelo, ou seja, não é uma situação estável, têm sido alteradas constantemente as regras e os detalhes da operação vão continuar sendo alterados, e isso é muito importante em Bonito, nós não podemos chegar num momento e dizer “nós fizemos o sistema perfeito que funciona e acabou”. Não, isso não existe em Bonito e espero que nunca vá existir; o que seria um péssimo sinal de termos parado no tempo, e estarmos adormecidos em cima de um modelo perfeito e acabado, portanto temos a plena consciência que este modelo não pode ser imutável, tem que ser constantemente adaptado a novas situações para poder sobreviver como modelo que realmente funciona.

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