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João Allievi

O EcoViagem conversa com João Allievi, Diretor de Capacitação em Recursos Humanos do IEB.

18 de Setembro de 2000.
Publicado por Equipe EcoViagem  

O EcoViagem conversa com João Allievi, Diretor de Capacitação em Recursos Humanos do IEB.

ECOTURISMO NA ESSÊNCIA

EcoViagem: Como é a formação de um espeleólogo?
J. Allievi: No Brasil não há nenhum curso oficial de espeleologia. Hoje o espeleólogo é um prático. No meu caso, eu comecei quando já freqüentava o CEU - Centro Excursionista Universitário - e íamos a cavernas, montanhas e eu acabei me especializando naquilo que eu gostava, que era a fotografia. A minha formação de espeleólogo vem da prática. A isso eu acrescentei minha formação acadêmica que é a de Direito e comecei a trabalhar com preservação do meio ambiente e com as cavernas amarradas nisso tudo. Foi uma época em que tinha grande briga no PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira) em defesa das cavernas. Com a constituição de 88 houve a necessidade de se colocar as cavernas na lei.

EcoViagem: Muita gente nem sabe o que significa espeleologia. Por que está prática é tão pouco difundida?
J. Allievi: Acho que a culpada disso é a caverna, porque ela é escondida e tem em cima de si uma aureola de perigosa, difícil, escura, com bicho, etc. Mas na verdade é exatamente o contrário. A 20 anos atrás, quando eu comecei a fazer isso, era diferente. Hoje eu não acho que seja tão escondido assim. Você vai ao parque das cavernas, tem muita gente todo fim de semana. A SBE (Sociedade Brasileira de Espeleologia) também está com bastante gente. Mudou um pouquinho, já é bem mais divulgada. Lógico que é menos do que alpinismo, por exemplo, pois a montanha está exposta e a caverna não. Não é em todo lugar que tem caverna.

EcoViagem: Você acha que as pessoas estão preparadas para freqüentar um ambiente tão delicado quanto o das cavernas?
J. Allievi: É uma faca de dois gumes. As cavernas são frágeis, precisam de uma atenção especial. A caverna é muito mais frágil do que uma mata, do que uma rocha, pelo clima, pelo ambiente, pela própria segurança, já que é um lugar escuro, etc. Mas, por outro lado, se a gente continuar tendo as cavernas apartadas das pessoas, nós não vamos resolver essa questão. Então é preciso que as pessoas visitem-nas, só que façam isso com educação, com preocupação ambiental. Aí sim a gente tem chance de manter as cavernas preservadas. Não adianta preservar tirando as pessoas delas. O que pode acontecer, neste caso, é que quem vai, vai mal educado, e um mal educado destrói muito mais do que cem pessoas visitando educadamente.

EcoViagem: Qual a avaliação que você faz hoje do ecoturismo no Brasil?
J. Allievi: Sou totalmente favorável e acho que, copiando aquilo que já ouvi de outras pessoas, o ecoturismo é o lado econômico do ambientalismo. É importante que as pessoas visitem a natureza. Mas visitar os parques, por exemplo, sem nenhuma infra-estrutura, abandonados, não adianta. Então, é preciso que os parques tenham estrutura, e é o ecoturista que leva essa estrutura, pelo menos econômica. Por isso é que os parques devem cobrar ingresso e as pessoas devem contribuir para que a natureza seja conservada. E o ecoturismo faz parte disso. Mas para mim, ecoturismo, usando um conceito teórico que a gente tem, não é simplesmente uma atividade. É uma filosofia que envolve quatro itens. Primeiro é uma atividade que deve ser sustentável: usar sem estragar. Segundo, deve ser feito de uma maneira profissional, envolvendo lucro. Uma coisa é eu ser excursionista de fim de semana e ir viajar com a minha turma. Outra é ser uma agência de viagens e vender excursões. Eu preciso de estrutura e preciso visar lucro com isso. Um lucro dentro do respeito ao consumidor, às regras da concorrência, que não é fazer sem pagar imposto, de qualquer maneira. O terceiro é que o ecoturismo deve ser usado como um instrumento de conscientização das pessoas. Não é o ir por ir. É o ir e aprender alguma coisa. Às vezes, esse aprender é você sair do ambiente urbano, sufocante, estressante. Você vai ver o pôr-do-sol e pensar "Que bacana!". Isso também é aprendizado. O outro é uma educação, não só do turista, que deve aprender a não estragar a caverna, por exemplo, mas educação de quem recebe. As pessoas saberem tratar melhor os turistas, guiá-los com segurança, etc. O quarto ingrediente é que deve ser uma atividade em consonância com os anfitriões. Eu não posso falar em ecoturismo, indo para um lugar, não deixando lixo, mas não tendo contato com as pessoas da região e com as unidades de conservação que estou visitando, ou seja, devem haver benefícios, e benefício não é só dinheiro, é educação, para as comunidades receptoras, a comunidade local. Esse ecoturismo conceitual é fantástico, importantíssimo. As pessoas têm a chance de conhecer a natureza e respeitá-la de uma maneira sustentável e organizada.

EcoViagem: Por traz desse boom do ecoturismo pode estar um turismo convencional?
J. Allievi: Nós temos um turismo convencional que é predatório, egoísta, consumista... Sabemos que essa atitude, não só no turismo mas em outras atividades, está levando o planeta a ser o que é: falta água, há poluição, desigualdade, etc. Se nós não pensarmos em uma situação diferente, em outro modelo, as coisas ficam sem saída. Por isso, eu não acho que o ecoturismo seja um modismo. Acho que é a consciência do ser humano falando "se nós não mudarmos esta prática do dia-a-dia, o mundo vai acabar num buraco. Precisamos pensar de uma outra maneira.". Que maneira? A sustentabilidade. Se não fizermos o turismo sustentável, a indústria sustentável, a agricultura sustentável, nada vai mudar. Isso é uma preocupação com o futuro e está em todas as áreas. É salutar que façamos isso, senão o barco afunda.

EcoViagem: Qual é o papel do IEB - Instituto de Ecoturismo do Brasil - na prática?
J. Allievi: O IEB é uma ONG, sem fins lucrativos, que se preocupa em trabalhar com o empresário, o empreendedor do ecoturismo: o dono do hotel, o dono da pousada, o guia...Ou seja, é um instrumento de informação e capacitação para o empreendedor do ecoturismo. Eu acho que ele precisa muito disso. Vai mexer com toda essa questão, precisa saber o que está fazendo.

EcoViagem: Os profissionais do ecoturismo são bem capacitados?
J. Allievi: Não. Nós estamos muito longe disso ainda. Por exemplo, para cada 10 profissionais, tem um capacitado. Daí a importância do IEB. É uma tarefa difícil. Estou terminando um programa de cursos para os hoteleiros, os operadores, para as pessoas que estão mexendo com isso, sejam saídas das faculdades ou porque querem mexer com isso (tem muita gente procurando parar uma atividade e buscando o ecoturismo como opção profissional).

EcoViagem: Você acha que o terceiro setor, que é quem tem atuado social e ambientalmente, tem força para derrubar os antigos sistemas exploratórios sociais e econômicos?
J. Allievi: As ONGs, o chamado terceiro setor, têm feito muitas coisas. Primeiro, quem está ligado a uma ONG, realiza um trabalho voluntário, então, dedicando parte do seu tempo para trabalhar em cima de uma ideologia, naquilo que acredito. Quem está no IEB, na SOS Mata Atlântica, etc, as pessoas que trabalham de uma maneira indireta nisso, estão fazendo com altruísmo. O próprio exercício desse altruísmo é positivo. Segundo, com essa burocracia estatal que nós temos e com a deficiência que o setor privado tem, o terceiro setor tem sido a saída. Vou dar o exemplo do Pólo Ecoturístico do Lagamar, da SOS Mata Atlântica, na região de Iguape, Cananéia. A empresa privada não conseguiria fazer isso, não é função dela. O governo também não faz, porque tem tanta burocracia, tanto impedimento que para fazer um folhetinho ou alugar um ônibus tem que ficar fazendo licitação. Essas coisas não funcionam! Então a ONG entra como um intermediário entre o financiador e o cliente. No caso do Lagamar, a SOS captou dinheiro da EMBRATUR, contratou os profissionais, os consultores, implantou um projeto que foi levar curso e treinamento para 800 pessoas. É perfeito? Não, falta muita coisa. Mas hoje as ONGs viabilizam esses projetos. Primeiro porque trabalham com um contingente muito grande de pessoas altruístas e segundo porque viabiliza economicamente um monte de projetos. Uma ONG, por definição jurídica é uma instituição privada que faz a função do poder público, o que o governo não pode fazer, uma ONG acaba fazendo.

EcoViagem: Que relação o IEB tem com o governo?
J. Allievi: Nenhuma. Nós somos críticos do governo quando é preciso, mas nós trabalhamos com ele. No ano passado, o IEB fez um levantamento que se chama Pólos de Desenvolvimento de Ecoturismo no Brasil, um levantamento da potencialidade dos municípios que têm interesse ecoturístico. Foi feito no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e agora está terminando nas regiões Sudeste e Norte. O IEB também está trabalhando com a Secretaria do Esporte e do Turismo de São Paulo, fazendo um guia de ecoturismo. Como o IEB tem um corpo de técnicos que entendem do assunto, eles podem tanto dar cursos quanto fazer consultorias. Nossa relação é em cima de projetos. Nós apresentamos o projeto e o poder público decide se faz ou não.

EcoViagem: E o seu envolvimento com a Pedra do Baú (SP)?
J. Allievi: A Fundação da Pedra do Baú foi criada por um médico japonês, o Doutor Hossoi, mas passou por muitas dificuldades depois que ele morreu. A região é uma APA - Área de Proteção Ambiental - e o nosso objetivo é fazer o seu manejo. Estamos assustados com a quantidade de gente que está indo lá e não há nenhuma estrutura de banheiro, de atendimento, de nada. Estamos tentando, via Fundação Pedra do Baú, com a ajuda do IEB e do Instituto Peabiru, transformar aquilo em um parque modelo. Não só controlar a visitação, mas também dar um exemplo de utilização de energia sustentável, o envolvimento das pessoas da comunidade local, enfim, colocar em prática toda essa teoria sobre a qual estávamos falando.

EcoViagem: Essa tentativa de controlar a visitação pode criar um conflito com a prefeitura do município de São Bento do Sapucaí, onde se localiza a Pedra do Baú, ou com as pessoas que estão acostumadas a visitar a região sem nenhum controle?
J. Allievi: Com certeza é briga. A idéia deles de turismo é a tradicional, aquele monte de gente chegando lá e as barraquinhas vendendo churros e churrasquinho. Para eles isso é bom. Mas dentro da sustentabilidade, isso é a pior coisa que pode acontecer. No outro extremo, você tem os proprietários particulares cercando suas terras, colocando muros e privatizando a paisagem. E assim conservam o que? Nada, pois se conservam é para eles. Isso também a gente não quer.
Estou fazendo uma assessoria jurídica para Brotas, que hoje é o maior pólo receptor de ecoturismo do Estado de São Paulo, recebendo quase 6.000 mil pessoas por fim de semana. Eles têm lá as atividades radicais, como rafting e canyoning. O trabalho do planejamento de Brotas surgiu há 6 anos, de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) do Senac. Uma das alunas, Daniela Nascimento, entregou o estudo para a prefeitura, que acabou contratando-a para ser secretária de turismo. Tudo que ela fez deu certo, mas agora eles recebem muita gente. Eu estive lá conversando com os donos de agências. Ao todo, são 150 botes e eles não podem ser colocados ao mesmo tempo no rio, por questão de segurança, conforto, etc. Como é que se vai restringir a livre iniciativa do empreendedor? Se ele não tiver um pouquinho de consciência, pensando em usar tudo hoje, vai acabar amanhã. Um exemplo de detonação do turismo é Porto Seguro. Hoje, a grande atração lá é encher a cara na Passarela do Álcool. Quem tem empreendimento lá, está desesperado, pois o retorno é baixo. Tem muita gente, mas popularizou demais. É preciso mostrar para o empreendedor que quantidade não significa nada. Ganha-se hoje e amanhã não ganha mais. Brotas está nessa situação, mas o pessoal está disposto a controlar. Decidiram que vão controlar a quantidade de barcos no rio: serão no máximo 50 por dia. Tem empresa que vai ficar com botes fora d`água, mas é melhor não colocar todos agora do que não poder colocar nenhum daqui a 6 meses.
Outro exemplo interessante é Bonito. Eles estipularam um número de visitantes por dia para cada atração, sempre com guia. Ou se disciplina as atividades, contentando ou descontentando alguém, ou se é irresponsável com relação à natureza. A gente tem a idéia de que o turista não pode esperar, tem que ser atendido na hora, não pode pegar fila, mas não é bem assim. Eu fui para Galápagos, queria visitar 60 ilhas e só pude ir em 12. Mesmo assim vi o lugar mais bonito do mundo! Se a gente tivesse um pouquinho mais de consciência ambiental, iria se contentar com muito mais coisa. Ainda estamos muito preocupados com conforto, consumo. E também não adianta ser ecoturista de fim de semana. Quero ver as pessoas terem os conceitos do ecoturismo durante a semana.

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