João Meirelles Filho

Especialista em ecoturismo, presidente do Instituto de Ecoturismo do Brasil (IEB) e da ONG Peabiru, instituição que mantém o Parque Ecoturístico da Bodoquena, em Bonito (MS), João Meirelles fala sobre aspectos importantes sobre o ecoturismo no Brasil

  
  

Especialista em ecoturismo, presidente do Instituto de Ecoturismo do Brasil (IEB) e da ONG Peabiru, instituição que mantém o Parque Ecoturístico da Bodoquena, em Bonito (MS), João Meirelles fala ao EcoViagem aspectos importantes sobre o ecoturismo no Brasil.

João Meirelles

João Meirelles
Foto: Cesar Greco

EcoViagem: Qual é a definição de ecoturismo, o que isso significa?
João Meirelles: O ecoturismo é um fenômeno recente e para defini-lo de uma maneira super simples ele seria o reencontro do homem com a natureza. Obviamente existe uma definição mais ampla. Mas o compreendo dentro de três critérios básicos: o primeiro é que a gente respeite a própria natureza, respeite a sua capacidade de carga, que a galinha de ovos de ouro não se estrague, que cada um entenda o ambiente e sua capacidade de uso pelo homem - o que parece obvio mas na prática não é. O segundo é que o envolvimento das comunidades locais seja efetivo, não seja só show folclórico, venda de artesanato ou uma coisa superficial, é preciso que haja uma participação dessa comunidade em termos de renda de uma forma efetiva e não só cultural. E terceiro, o que é fundamental, que haja um crescimento pessoal para quem é ecoturista. Se o visitante não acrescenta algo à vida dele, aquilo não é ecoturismo, pode ser espetáculo, pode ser divertido, pode ser até uma aventura, mas não aconteceu o ecoturismo, ele acontece quando você percebe: – Poxa o mundo é maior, mais complicado. Poxa como a natureza é bonita. Como eu sou pequeno dentro do mundo. Então, quando a gente passa a entender as coisas diferentes aí acontece o ecoturismo. É um aprendizado, um crescimento interior para a vida das pessoas.

EcoViagem: Com a promulgação, por parte da Organização das Nações Unidas (ONU), de que 2002 é o Ano Internacional do Ecoturismo, isso pode representar perigo no caso de acontecer um aumento desenfreado da exploração dessa modalidade de turismo?
João Meirelles: Este fato é bom, está se reconhecendo uma atividade recente importante, isto é positivo de um lado, agora não é o Ano Internacional do Ecoturismo que vai mudar a pressão sobre os ambientes ou que vai trazer mais pessoas, isso afeta muito mais o nível técnico de quem está no meio profissionalmente. O que realmente acontece no ecoturismo, como em qualquer setor novo, é uma grande informalidade, não tenho números exatos mas acredito que 90% do setor talvez seja informal, os guias não são propriamente guias com carteira da Embratur, as empresas não são propriamente empresas, agências e operadoras, os atrativos, quer dizer, os locais onde são feitas as visitações não estão 100% regularizados, mesmo porque as vezes não existe um sistema de regularização, então como setor novo ainda é um setor altamente pirata, um setor altamente informal. A tendência, com o tempo, é de buscar uma formalização, critérios, certificações e tudo o mais, mas ainda estamos na pré-história do ecoturismo e ainda estamos sofrendo com tudo isso.

EcoViagem: Mas isso não pode ser perigoso?
João Meirelles: Bom, na verdade em todo setor isso ocorre, você tem gente que só está visando lucro ou não está buscando uma ética própria para o setor, esse risco a gente corre e está correndo todo dia. Como o setor é novo a imprensa acaba ouvindo aquela agência informal assim como ouve aquela tradicional, ela mesma não tem muito parâmetro de saber diferenciar e o consumidor também não, e o que está se buscando são mecanismos para conseguir diferenciar isso.

EcoViagem: A questão dos guias e monitores é bastante discutida atualmente, no caso, os profissionais que trabalham com ecoturismo no Brasil estão bem direcionados quanto ao assunto?
João Meirelles: Acho que não existe ainda nada muito claro; o que esta acontecendo é um debate em função dos problemas que vêm ocorrendo que, talvez, há cinco ou dez anos quando começou esse processo não tivesse tanta clareza disso. Hoje já é claro que é preciso discutir essa questão de guia, porque o ecoturismo como um todo é a única profissão formal como especialidade. Então porque não formalizar também o monitor? Isso está num debate que a sociedade está promovendo, e que provavelmente isso vai desembocar em legislações, sistemas de certificações; só precisamos dar um tempo para isso ocorrer. Acho que cabe aos profissionais, aos interessados, às associações e às ONGs começar a pressionar pelo que interessa mais aos profissionais.

EcoViagem: Você acha que o setor tem força para levar essa causa com intuito de observar o que seria certo e errado e se chegar a uma regra comum para o ecoturismo?
João Meirelles: Não, isso é muito difícil. Acho que o setor está ainda muito desestruturado, como exemplo posso citar a experiência do IEB (Instituto de Ecoturismo do Brasil) que em seis anos teve uma grande dificuldade de juntar o setor, unir o setor, por esse lado acho que o problema não é do ecoturismo, é um problema do Brasil como um todo porque as pessoas não valorizam esse fato de se unirem em entidades associativas, é um problema da cultura brasileira que nós estamos enfrentando no ecoturismo.

EcoViagem: Os esportes de aventura podem, de alguma forma, fomentar o ecoturismo?
João Meirelles: Quanto a isso acho que a gente volta à questão de definição de ecoturismo. Por exemplo, se você leva um pessoal para fazer ecoturismo e para fazer rafting e não passa nenhuma informação, não se preocupa em colocar: - Olha, percebam o meio em que vocês estão andando... a natureza e tal. Se eles estiverem olhando só pelo prazer de estarem lá, então tanto faz se estão em um rio altamente poluído ou se estão em um ambiente natural intocado. O que se tem que buscar é que esses esportes ajudem na conservação do meio ambiente. A idéia seria levar esses esportes para garantir o prazer e o desafio pessoal, mas também que eles contribuam para preservação ambiental, que passem mensagens, que se apresentem: - Cuide disso ou daquilo, porque mesmo sendo uma bicicleta, mesmo sendo rafting tem um impacto... Acho que há como resolver isso e a gente tem trabalhado nisso um pouco, no Peabiru trabalho numa competição, o Triathlon Ecológico que busca trazer um esporte totalmente urbano que é o triathlon para um meio natural onde são passadas informações para os atletas e para o público, é uma forma de mostrar: - Olha, é importante preservar os ambientes naturais porque você também pode usar.

EcoViagem: É possível, de alguma forma, observar o homem “dentro” da natureza sem que haja algum tipo de prejuízo?
João Meirelles: Aí nós vamos ver a grande diferença que existe entre o turismo tradicional e o ecoturismo. Primeiro que o ecoturismo não considera grande volume de pessoas em um mesmo espaço, mesmo que tenha suporte como uma praia, o ecoturismo sempre considera que a experiência do ecoturismo só é possível ser alcançada por grupos pequenos, que se conheçam, que possam dialogar, que possam se ver e até sentir o que o outro está sentindo. Depois, realmente, se o homem pisou na natureza, desde que encostou na natureza já está causando impacto. A questão é: qual é a capacidade dessa natureza, desse ambiente de se inteirar e não haver prejuízos permanentes para ele? O ecoturismo leva isso muito a sério até em função de que o turismo mostrou-se altamente prejudicial, Porto Seguro, Litoral Norte Paulista, não precisamos ir muito longe para buscarmos exemplos, então o ecoturismo busca regras mais restritivas e tem se mostrado como um grande aliado para a conservação da natureza, porque áreas de Unidades de Conservação, ou mesmo áreas privadas, pedaços de mata... na verdade se você tem o ecoturismo como atividade, com critério, no fundo, você está dando uma justificativa para preservar. Para a maioria das pessoas é difícil entender que aquilo é importante por causa do bichinho, por causa da água e tal; então no ecoturismo uma vez que você ganha benefícios com ele, como visitar um local, ter prazer em participar das atividades desse lugar, conviver com cada situação oferecida, o resultado se destaca mais facilmente e pode ser analisado melhor por nós. Na prática o que tem acontecido é que, nós temos lá o parque da Intervales com uma área grande, não me lembro agora, 30 ou 40 mil hectares, a área que você usa para o ecoturismo não chega a 1% disso, e qual é o impacto? Uma, duas, três trilhas, quatro trilhas, uma pousada aqui, então o impacto do ecoturismo perante à necessidade de conservação é muito pequena; ele é grande quando há uma concentração muito grande. Se você tivesse uma praia com uma ocupação imobiliária com certeza seria muito mais impactante do que uma mera visitação de ecoturismo. Acho que é uma evolução, a estrutura para o ecoturismo sempre se preocupa em ser pequena, bom esse material de onde veio, essa madeira que vai construir vem da onde, é um monte de questionamento que o turismo até então não fazia, é uma evolução, o ecoturismo é realmente um passo para frente.

EcoViagem: Em quanto tempo nós podemos ter uma boa estrutura de ecoturismo para o Brasil?
João Meirelles: Para mim a estrutura de ecoturismo quer dizer gente qualificada. É claro que precisa de pousada, de veículos, de barcos, é obvio, mas tudo isso é muito barato perto do que custam as estruturas no turismo profissional; então a preocupação do ecoturismo é com a qualificação profissionalizante, tanto com os gerentes e barqueiros como com os guias e monitores. Essa é a preocupação principal que, na verdade você pode ver o poder público absorvendo o discurso do ecoturismo, que é um discurso fácil de absorver mesmo o empresariado; mas há muita dificuldade de absorver, na prática, a necessidade de treinar, de pagar treinamento, de ensinar, de produzir materiais, de produzir pesquisas; essa é que é a grande dificuldade, de investir na qualificação, na educação. Esse é o nosso grande desafio a coisa mais importante para ser feito no ecoturismo é o treinamento, a capacitação.

EcoViagem: O ecoturismo pode conter o êxodo?
João Meirelles: Existem experiências que demonstram que isso pode ajudar, por exemplo lá em Bonito (MS) o ecoturismo criou cerca de 1800 empregos nos últimos cinco, seis anos. A pecuária que era a atividade principal, na verdade, não foi substituída; houve uma nova atividade que convive com ela e que é maior em termos de emprego e tem uma garantia de renda maior agregando valor a região, eu diria que nesse caso ajudou bastante. No caso da Amazônia pode vir a ajudar muito, lá nós temos comunidades isoladas, jovens com pouca alternativa de trabalho e de repente o ecoturismo pode ser uma grande solução e isso já está começando acontecer no Vale do Ribeira, no Litoral Sul de São Paulo, no próprio Litoral Norte. Acho que ele não vai resolver o emprego de dezenas de milhares de pessoas mas aos poucos ele consegue dar perspectivas àquelas gerações que estão vindo de que é possível ter um emprego local onde o indivíduo seja respeitado enquanto pessoa e cultura e que tenha uma renda que, apesar de não deixá-lo rico, seja razoável e o mantenha lá; isso já evita a migração, isso faz sentido para a Amazônia e para as grandes áreas naturais.

EcoViagem: Por fim, mande um recado para os nossos leitores...
João Meirelles: Gostaria de dizer que, para quem como eu, que veio do movimento ambientalista e encontrou no ecoturismo uma forma profissional de realizar essa união entre o lado do turismo, da visitação e do encantamento com a natureza, com o lado da proteção e do técnico, que é a parte ambiental; o ecoturismo é um setor altamente apaixonante e fácil de você começar com uma atividade porque está se estruturando, está começando; e com pouquíssimos recursos você pode iniciar uma atividade de ecoturismo seja para montar uma pequena agência, uma pequena pousada, um pequeno atrativo ou um serviço, não é um setor que depende de grande capital, de grande conhecimento, então isso é o lado encantador do ecoturismo: - Vou mudar minha vida, vou me dedicar ao ecoturismo. Isso é possível, não é só um sonho, pode ser uma realidade.

Serviço
Instituto de Ecoturismo do Brasil (IEB)
www.ecoturismo.org.br

Peabiru
www.peabiru.org.br

Parque Ecoturístico da Bodoquena
Rodovia Bonito-Bodoquena Km 33

  
  

Publicado por em

Lara

Lara

11/09/2008 12:09:36
eu acho que o ecoturismo é de grande inportancia pra nossa região.