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Magrão

O EcoViagem conversa com um dos precursores do bumerangue no Brasil, Carlos Martini Filho, o Magrão.

2 de Janeiro de 2002.
Publicado por Equipe EcoViagem  

O EcoViagem conversa com um dos precursores do bumerangue no Brasil, Carlos Martini Filho, o Magrão.

Cesar Greco

Cesar Greco

EcoViagem: Como foi que surgiu o seu interesse pelo bumerangue?
Magrão: Na verdade sempre estive envolvido com atividades aéreas. Voei de planador, depois de balão, mas o meu primeiro contato com o bumerangue foi por meio de um acidente. Na época eu treinava uma cachorra no parque do Ibirapuera chamada Fly, e então vi uma menina jogando o tal do bumerangue. Pedi que me deixasse dar um arremesso e logo na primeira tentativa quebrei o bumerangue dela. Eu fiquei muito chateado e a partir dali comecei a fazer amizade e com o relacionamento fiquei sabendo que era amiga do Dr. Renato, que por sua vez era aluno do Dr. Carlos de Campos Pagliuchi, o homem que foi o mestre dos bumerangues no Brasil. Construí um bumerangue para devolver para essa menina. Com o passar do tempo eu comecei a produzir os bumerangues e acabei gostando da história e nunca mais parei. Depois de algum tempo conheci o Dr. Carlos de Campos Pagliuchi. Ele tinha intenção de fundar um clube mais já estava com uma certa idade e então em 1983 eu fundei o Bumerangue Clube do Brasil para poder divulgar o esporte. Até aquele momento não se tinha internet, ninguém sabia de nada o que acontecia no mundo, então comecei a fazer um trabalho de divulgação aqui no Brasil. Ia todo dia no parque do Ibirapuera e com isso acabei ficando desempregado foi quando iniciei a produção dos bumerangues para vender. Participei de uma feira de artesanato no Anhembi e acabei dando uma entrevista para o programa “Vença a Crise com Criatividade”, do apresentador Flavio Cavalcante. Isso permitiu que fosse visto pelo João Dória Junior, que era presidente da Paulistur na época. Ele me convidou para participar da primeira feira de hobbie e lazer em 1985. O que aconteceu foi que acabei vendendo 1000 bumerangues enquanto achava que venderia 100 durante toda a feira. A partir daí eu montei uma fábrica e comecei a vender bumerangue para o Brasil inteiro.

EcoViagem: O bumerangue é um esporte bem difundido no mundo?
Magrão: Não, não, o bumerangue é meio mito até hoje no mundo inteiro. Na Austrália, por exemplo, fiquei meio decepcionado, o campeonato mundial de bumerangue foi realizado durante uma semana em um parque enorme e se estiveram presentes quinhentas pessoas para assistir foi muito. Se pensar que houve um campeonato mundial dentro da Austrália e não teve notoriedade nenhuma, quer dizer, nenhuma entre aspas, mas foi muito pouco repercutido. Aqui no Brasil eu já promovi campeonato, sem desmerecer o mundial, que obtive 240 participantes, que na realidade não foi nem um campeonato foi uma brincadeira porque ninguém era profissional, as pessoas aprendiam na hora e acabavam participando, e teve uma repercussão muito grande a nível nacional.

EcoViagem: O seu trabalho de divulgação quer quebrar com esse mito, pelo menos aqui no Brasil?
Magrão: Só para se ter uma idéia o que esta acontecendo hoje, acabei de entregar 130 mil bumerangues que serão distribuídos nas praias brasileiras. Até hoje eu não tenho conhecimento de alguém que tenha feito uma quantidade tão grande de bumerangues para serem distribuídos. A gente tem hoje no Brasil uma situação bastante privilegiada, teremos esse número de pessoas vendo e conhecendo o bumerangue de perto, de uma única vez em um período curto de tempo, no caso nessas férias de verão. Além disso, já organizei durante 3 anos o campeonato paulista de bumerangue, que viajava de cidade em cidade. Por exemplo, começava em Santos, depois fazíamos Jundiaí, Campinas, Americana, Piracicaba e voltávamos para a final em Santos, porque o bumerangue a idéia é de ir e voltar. Teve um ano que foi muito interessante, a molecada que participou de algumas etapas faziam com que os pais os levassem para participar das outras etapas, de forma que, o pessoal que foi para Jundiaí fazia com que o pai levasse para Campinas, o pessoal de Campinas fez com que o pai levasse para Americana. Então tivemos um circuito bem interessante em que os participantes de cada etapa acabavam correndo todo o campeonato.

EcoViagem: Você acha que o bumerangue é um esporte sério a ponto de entrar para as olimpíadas?
Magrão: Não, não porque se perdeu a maior chance de todos os tempos que se teve até hoje. Eu falei sobre isso há bastante tempo, fiz um trabalho desde 1996 em colégios, em 14 escolas aqui em São Paulo levando a cultura do bumerangue, toda a história da Austrália, contando a história e a evolução do bumerangue no mundo. O objetivo era tentar mobilizar as pessoas para colocar o bumerangue como esporte olímpico na Austrália em 2000. O que acabou acontecendo é que as pessoas do mundo inteiro que praticam o bumerangue não se uniram para poder fazer com que isso acontecesse, não houve um lobby para colocar o bumerangue como esporte olímpico. Então o que aconteceu, passou a olimpíada da Austrália, que é a terra do bumerangue entre aspas (os egípcios já conheciam o bumerangue, por isso a referência das aspas), e ninguém trabalhou para isso. O que eu observo é que existe uma grande vaidade entre as pessoas que jogam bumerangue, se preocupam em mostrar que fazem uma coisa diferente e não querem divulgar o esporte. Ao contrário disso venho divulgando o esporte nos meus 21 anos de trabalho. Em 1996 promovi o challenger day, o dia do desafio, esse evento acontece no mundo inteiro. É um dia em que algumas entidades motivam pessoas a praticar esporte. Neste dia, em Santos, nós fizemos 32 mil pessoas jogarem bumerangue em um único dia. Uma equipe de 200 escoteiros tinha a função de distribuir os bumerangues e ensinar as pessoas como jogar. Desconheço quem tenha feito isso. Nós íamos tentar o Guinness Book, mas 3 dias depois roubaram o meu carro com todas as fotos, equipamentos, documentação e registro do evento que provaria o feito, na época fiquei tão transtornado que acabei deixando isso de lado.

EcoViagem: Você já venceu algum campeonato de bumerangue?
Magrão: Sim, dos seis campeonatos norte-americanos que participei e um mundial eu venci em segundo lugar em um norte-americano na modalidade “precisão”, foi o primeiro e único título até hoje trazido para o Brasil. No mundial da Austrália tive que mostrar o que sabia para completar o time da suíça, acabamos na 5a. colocação. No individual fiquei com o 48o. lugar entre 114 participantes do mundo inteiro, foi a minha primeira participação em um mundial.

EcoViagem: Quantas modalidades são disputadas em um campeonato?
Magrão: São 8. Pegada rápida: o atleta tem 5 arremessos para jogar e pegar o bumerangue em menor tempo. Precisão: arremessa-se o bumerangue e ele tem de voltar e pousar em um ponto que tem uma pontuação, conta-se 5 arremessos e quem pontuar mais ganha. Enduro: a pessoa tem 5 ou 2 minutos para jogar e pegar, quem conseguir pegar mais vezes na mão ganha nessa modalidade. Distância: quem arremessar mais longe e fazer voltar mais próximo do ponto vence. Doblin: são dois bumerangues que devem ser arremessados simultaneamente e pegar de maneira diferente. Jogging: são também dois bumerangues que tem de jogar e pegar outro e depois fazer tipo um malabarismo com o bumerangue. MTA e MTA100: tem de arremessar e ficar mais tempo no ar numa distância de 100 metros, esse bumerangue não volta para a mão o vento carrega, você tem de fazer ele voar por mais tempo. MTA Super: o atleta arremessa e onde ele cair tem de pegar.

EcoViagem: O bumerangue é perigoso?
Magrão: É muito perigoso. Temos que pensar que o bumerangue nasceu como uma arma de caça e guerra. Hoje, os bumerangues são fabricados para serem leves são feitos com madeiras de 4 milímetros, se você bater na cabeça de uma pessoa ele pode até quebrar, pode até cortar, vai machucar um pouco mais não vai matar ninguém. O que faz o bumerangue machucar é o seu peso. Imagine uma hélice de helicóptero, ela não é tão pesada, mas se atingir uma pessoa em rotação vai bater e machucar, no caso do bumerangue é a mesma coisa, tudo em rotação machuca.

EcoViagem: Qual o resultado que você conseguiu trabalhando o bumerangue com os deficientes físicos?
Magrão: Isso até me arrepia. Eu fiz um trabalho com 18 garotos do Lar Escola São Francisco, que é uma entidade assistencial aqui do Ibirapuera. Esses garotos passeavam de cadeira de rodas no parque no sábado. Em um belo dia, num desses passeios deles, a Cristina, que é uma psicóloga, me viu jogando bumerangue e pediu para que eu mostrasse para a molecada. Aí eu falei – Não, eles podem jogar também, não é porque são deficientes que não vão jogar bumerangue. E o que aconteceu é que acabei fazendo um trabalho de quase um ano e meio. Por fim quem é paraplégico, que tem problema de atrofia nos braços, pode com certeza jogar bumerangue e isso ajuda na coordenação motora e como fisioterapia também, porque vai fazer movimentos. Eu tive uma experiência muito interessante também com um cego, em Campinas. A gente fez um bumerangue com um guiso e ele conseguia jogar o bumerangue e pegar de volta.

EcoViagem: Para você é gratificante o resultado do seu trabalho?
Magrão: O gostoso é encontrar as pessoas que ensinou, que te viram na televisão, em fim, que acompanham o trabalho da gente e que reconhecem esse trabalho. Por outro lado tem algumas decepções também. Pessoas que aprenderam um pouco com a gente e hoje fazem ai um trabalho que julgam ser parecido com o meu, mas que na realidade tem somente a intenção de vender bumerangue e nada mais, e ainda se coloca como uma pessoa super entendida em bumerangue. E o pior, nunca, nunca, nem se quer participou de um campeonato para poder falar é isso ou aquilo sobre o assunto.

EcoViagem: Você acha que essa luta de levar o bumerangue a frente foi uma briga muito difícil, ou ainda é?
Magrão: Hoje é muito mais fácil, a internet pode resumir tudo, basta ter uma cadeira, um computador e uma linha telefônica que você divulga o bumerangue para todo o mundo. É uma pena, infelizmente, pelos meus afazeres, eu acabei me descuidando dessa parte da internet e não coloquei 1% do material que tenho disponível sobre bumerangue. Quando alguém consulta o meu site, ele está muito, muito, pobre. Por exemplo, eu dei aula dentro do ITA, introduzi o bumerangue como matéria de física e aerodinâmica, ninguém sabe disso. Se a gente for pensar que o bumerangue era uma coisa totalmente obsoleta da forma que sempre imaginamos, uma arma do povo mais primitivo do planeta que são os aborígines. Ele acabou indo para um banco de universidade onde se estuda a aerodinâmica e a física, então é uma coisa bastante gratificante fazer um trabalho como esse.

EcoViagem: Quem quer aprender a jogar bumerangue o que deve fazer, você ministra cursos?
Magrão: Durante o ano faço muita coisa, dou aula, dou curso, faço workshop, palestras para empresas. Já fiz muita coisa, inclusive lembro de algumas que me marcou muito e trago com muito carinho. Fiz a abertura dos jogos operários do Sesi e no dia estava o João do Pulo e o Pelé, inclusive mostrei para o Pelé como jogar bumerangue. E o João do Pulo, ele me viu fazendo demonstração da abertura dos jogos, e depois no coquetel que aconteceu, ele me conheceu, aliás, eu tive o prazer conhecê-lo. Ele virou para mim e disse: – Magrão quero um autógrafo teu. Eu disse: – Você está brincando comigo! O cara que foi para as olimpíadas, recordista mundial veio me pedir um autógrafo. Isso foi uma coisa que me marcou muito porque quem sou eu em relação ao João do Pulo, um atleta fenomenal. Tenho um bumerangue com a dedicatória dele. Outra coisa que também me marcou muito foi o Ayrton Senna. Na época a Willians corria com um aerofólio traseiro no formato de um bumerangue, então me deu na cabeça de entregar ao Senna um bumerangue. Foi aqui em Interlagos. Consegui entrar nos boxes e enquanto ele dava entrevista olhei para ele e falei: - Senna vim trazer um presente. Ele não me olhou, claro estava dando entrevista, continuei – É um bumerangue especial. Ele parou olho para o meu rosto e disse: - Um bumerangue? É. Eu disse: – Um bumerangue de canhoto, porque eu sei que você é canhoto. Entreguei o bumerangue para ele e fui embora. No dia seguinte, de manhã, para minha surpresa, saiu uma foto no jornal, ele indo para o helicóptero com o bumerangue na mão, foi muito legal.

EcoViagem: Você gostaria de enviar um recado para os nossos leitores?
Magrão: O recado é que o bumerangue é um esporte extremamente solitário, isso para as pessoas que o vêem pela primeira vez, mas eu sempre digo que, nunca em lugar nenhum do planeta você vai conseguir ficar sozinho, nem que esteja em um campo onde não tenha ninguém. A partir do momento que arremessar uma vez, quem experimentar vai entender e vai saber, o bumerangue é um negócio fascinante e quem vê um bumerangue voando, como eu lembro pela primeira vez quando eu vi, é um negócio tão vibrante que você quer se aproximar, e você se aproxima do bumerangue a da pessoa que esta jogando. Outra coisa importante é que se fala muito em bumerangues importados, se coloca que são melhores. Na verdade quem está por traz do bumerangue é que faz ele funcionar ou não. Hoje, a gente não deixa a desejar em nada, em nada em nenhum requisito para nenhum outro bumerangue fabricado no planeta, nem o de plástico que fabrico.

Serviço
Bahadara Sports
Bumerangues, pipas, eventos e promoções
Avenida Moaci, 315 - Ibirapuera
(0xx11) 5542-3370
www.bumerangue.com.br

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