Manoel Morgado

O EcoViagem conversa com Manoel Morgado, guia de viagens na Ásia.

  
  

O EcoViagem conversa com Manoel Morgado, guia de viagens na Ásia.

ONDE A VASSOURA NÃO TEM CABO!

EcoViagem: É preciso coragem para largar a profissão, a família e ir embora. Como foi a experiência de ter ido viajar sem rumo certo?
M. Morgado: Desde os 14 anos eu viajo aqui pelo Brasil. Depois, quando entrei na faculdade, fui para a América do Sul: Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Argentina e Chile, um monte de vezes. Sempre ficou aquela vontade de viajar por um tempo maior. Eu viajava 1 ou 2 meses, encontrava os travellers viajando por 1 ano e ficava com esse desejo. Então, quando acabei a Residência (eu fiz Medicina e Pediatria na Escola Paulista), antes de começar a trabalhar, já era um sonho muito antigo parar um tempo e ir viajar. E foi isso o que fiz. Em 83, eu saí, fiquei 1 ano na Europa e 1 ano na Ásia. O ano na Ásia foi muito importante na minha vida, porque foi o que marcou e me deu vontade de voltar. Eu voltei para o Brasil, trabalhei 5 anos como médico e daí aconteceu uma conjunção de fatores: de um lado, tinha a vida aqui de São Paulo, que eu não gostava, de cidade grande, estresse, a vida de médico, também estressante, sempre muitas horas de trabalho por semana e também, profissionalmente, eu não estava fazendo uma coisa que me satisfazia muito; de outro lado, havia a grande vontade de repetir aquela história por mais tempo. Em 89, eu achei que tinha chegado a hora. E foi difícil, porque não é uma coisa esperada de um médico. A família perguntava “O que está acontecendo? Para onde você vai?O que você vai fazer?” e, realmente, eu não sabia. Eu só sabia que queria voltar para a Ásia. Saí daqui e fui direto para o Nepal e acabei ficando quase 2 anos e meio antes de voltar para o Brasil: 1 ano entre Índia e Nepal e depois, Tailândia, Malásia, Indonésia, Singapura e Austrália.

EcoViagem: Por que a Ásia? O que o levou para lá?
M. Morgado: O primeiro país que me “pegou” mais foi o Nepal, que é muito especial, o lugar que eu mais gosto nesse planeta! Acho que o ponto maior foram as pessoas. Os asiáticos, de um modo geral, são extremamente receptivos, simpáticos e calmos. Têm um outro estilo de vida, um outro jeito de enxergá-la, os nepaleses mais ainda. É um lugar em que eu me sinto em casa. O engraçado é que a maior parte das pessoas que eu levo para lá, agora como guia, relata a mesma coisa. Não conheço ninguém que não tenha amado o Nepal e não queira voltar. Índia, por exemplo, tem gente que ama e tem gente que odeia, mas o Nepal é unanimidade. E o fator da aventura: eu sempre fui fascinado por montanhas e no Nepal, é o que tem.

EcoViagem: Como é que você se encaixou na sociedade desses países, organizada de outra maneira e com uma cultura completamente diferente?
M. Morgado: Há um longo caminho e esse “mistério” foi uma das grandes coisas que me atraiu. Entender um país como a Índia é um processo que leva tempo. Você tem que ficar lá muito tempo mesmo para começar a sacar como as coisas funcionam, que é de uma maneira diferente. Mesmo que você vá viajar por pouco tempo, tem que ser com a cabeça aberta. Se começa a tentar colocar o seu padrão lá, você “dança”. Por exemplo, lá a vassoura não tem cabo; todo mundo varre agachado. Pode-se pensar: “Mas por que não põem um cabo? É tão mais inteligente!”. Eu fiquei pensando, “Bom, tem 1 bilhão de pessoas na Índia. Para 1 bilhão de pessoas não usarem cabo na vassoura tem que haver alguma razão!”. Em vez de achar que eles são burros, você tem que pensar que você é burro por não saber essa razão e ir atrás da resposta. Estar aberto a tudo o que é muito diferente é um dos grandes aprendizados antes de você ir viajar. Existem várias maneiras de se fazer as coisas. A Índia é o lugar que eu vou e mais aprendo até hoje.

EcoViagem: Você acha que incorporou bastante os costumes de lá na sua própria vida, no seu dia-a-dia?
M. Morgado: Eu não sei se bastante, mas minha vida é muito diferente e influenciada pelo que aprendi lá. Eu nunca tive um caminho espiritual, por exemplo. Eu era e continuo sendo ateu, eu acho! Mas eu era convictamente ateu. E o budismo ( às vezes, você pode pensar nele só como uma filosofia) foi marcante na minha vida, me fez mudar muito. Eu vejo que sou muito diferente do que quando saí daqui. Estou mais tranqüilo, muito menos estressado, conseguindo lidar com a vida de uma maneira melhor e tudo isso eu aprendi lá. Eu não sou um indiano, não sou um nepalês. Continuo sendo brasileiro, mas a Ásia me influenciou de uma maneira bastante marcante.

EcoViagem: Como os asiáticos te aceitaram? Você conseguiu fazer amigos e ter uma vida, teoricamente, como a que você tinha aqui?
M. Morgado: Não, porque eu nunca morei em nenhum lugar, nesses 11 anos, eu nunca parei. Eu rodo o tempo inteiro. Ou estou trabalhando, guiando ou eu estou escalando, praticando kayaking, rafting, trekking...eu nunca tive uma casa, uma vida normal. Mas eu tenho amigos lá, principalmente no Nepal. Eu me sinto muito em casa em Kathmandu. Na Índia, também tenho alguns amigos, mas é um pouco mais difícil.

EcoViagem: Como é a experiência de não ter casa, não se fixar em um só lugar?
M. Morgado: Ela tem sido fantástica nesses muitos anos. De casa, espaço físico, eu não sinto falta. Mas eu tenho sentido vontade de ter amigos mais fixos. Por isso é que estou planejando uma volta para o Brasil, ficando metade do ano aqui e metade lá. Até profissionalmente é mais legal ficar um tempo aqui. Nesse tempo todo, eu senti falta de amigos, mas o tipo de vida que eu levava tinha outras coisas muito legais que acabavam favorecendo essa troca. A liberdade de fazer o que eu quero e a possibilidade de estar encontrando muita gente que tem uma vida parecida com a minha são muito boas. E tem um monte de coisas que quando você tem casa não rolam. Eu gasto muito pouco na Ásia, o que eu ganho vai para o banco, não preciso pensar muito em grana, não tenho chave, quer dizer, não tenho um monte das preocupações que as pessoas normalmente têm. Mas vou voltar a ter!

EcoViagem: Como é a experiência de guiar pessoas para conhecer culturas tão diferentes?
M. Morgado: Existe uma coisa que se chama choque cultural, e isso é extremamente forte na Ásia, muito mais do que na Europa, que é uma cultura mais conhecida para a gente. A Ásia é um “outro planeta” e você precisa ter um tempo de adaptação. Quanto mais você ler e se informar, mais rápida será essa adaptação. Por isso, nós damos dicas, informações quando a pessoa chega, para aliviar o choque cultural. Meu maior conselho para quem vai para lá é que tenha tempo e pouca ambição em relação ao número de lugares que vai visitar. Dá para fazer, por exemplo, 15 países em 20 dias na Europa e ter uma vaga idéia pelo que você viu. Na Ásia, é impossível fazer isso. Você não vai entender e conhecer absolutamente nada. A maior parte das viagens da gente é em um país só ou ainda numa região dentro de um país. Você vê gente que vai passar 5 dias na Índia, odeia e nunca mais quer voltar, e tem gente que passa 20 dias e ama.

EcoViagem: O Tibet é um país que sofreu um grande “massacre” cultural. Quem vai para lá hoje, consegue ter a real noção do que é a cultura tibetana?
M. Morgado: Talvez o Tibet nem seja o melhor lugar para você ver a cultura tibetana hoje em dia, mas é um lugar extremamente forte e bonito. O Tibet foi mesmo culturalmente massacrado. Não só culturalmente, mas também fisicamente. Calcula-se que 1/6 da população foi assassinada (1 milhão de pessoas); 100.000 pessoas fugiram do Tibet; dos 2.000 monastérios que existiam, restam 10 ativos e todo monastério tem um espião chinês. Então, a presença chinesa no Tibet é muito marcante. É uma viagem muito forte. Você vai ver a realidade do Tibet muito clara, vai entrar em contato com os tibetanos, um pouco pelo menos, e vai ver um país maravilhoso. Na viagem, a gente voa para Lhasa e volta por terra para Kathmandu, atravessando o Himalaia. A gente passa por vilarejos, passa por outras cidades que não Lhasa, onde a influência chinesa é menor e passa por vários monastérios. Agora, se você está em busca de ter um contato mais intenso com a cultura budista tibetana, talvez o melhor lugar seja Ladakh, no norte da Índia, do lado de Kashmir, porque esta parte da Índia era um reino independente até a metade do século XIX e a primeira estrada só foi construída a 25 anos atrás. Turismo mesmo só começou há 20 anos, mas mesmo assim, as duas estradas que ligam a Índia ao Ladakh ficam abertas 2 meses e meio por ano, quando não estão cobertas de neve. É um lugar com pouca influência externa, que nunca teve perseguição, onde os monastérios são super ativos e a cultura tibetana é extremamente tradicional.

EcoViagem: Nas viagens que você guia, procura fazer com que os visitantes conheçam de perto a cultura local, vivendo, por uns dias, a vida das pessoas locais. Isso é muito importante para o ecoturismo e é o que falta no Brasil. Você acha que é possível trazer essa maneira de viajar para dentro do nosso país?
M. Morgado: Com certeza. O que eu fiz basicamente quando comecei a guiar, foi tentar levar as coisas que eu aprendi com a minha viagem. Entre ter ido para a Ásia e começar a guiar, passei 4 anos viajando e aprendendo um monte de coisas e era isso que eu queria que as pessoas vivessem quando fossem para lá. Procuro levar um estilo de viagem para lá. Uma das coisas que eu acho fundamental é um grupo pequeno. Se você tem um grupo de 30 pessoas, é impossível estar entrando em contato com a cultura local. Se você tem um grupo de 10 pessoas, fica muito mais fácil. Deixamos o ônibus parado e vamos caminhar pela cidade. Se passa uma procissão de casamento e estamos em um grupo pequeno, existe uma chance boa deles nos convidarem para participar do casamento; acabamos indo para a casa das pessoas e sendo hóspedes de honra, pois eles se sentem super honrados de ter estrangeiros nos casamentos. Isso se aplica aqui também. Se você vai fazer uma viagem de ecoturismo, onde exista a proposta das pessoas entrarem em contato com a cultura local, talvez uma das condições seja realmente restringir o número e tentar expor as pessoas a esse tipo de coisa. Por exemplo, a gente faz uma aula de culinário em Pushkar, que é uma maneira de colocar as pessoas dentro da casa de uma família de classe média indiana. Normalmente você não tem acesso a isso. Tem um recital de música clássica indiana para o grupo, na casa de uns amigos meus em Pushkar. O Brasil é super rico. Quando eu assisti “Central do Brasil”, fiquei pensando “poxa, eu não tenho a mínima idéia do que existe nesse Brasil”. Aquelas festas que aparecem, o sertão, os vilarejos são fantásticos para você visitar. É legal que tenham esses destinos de ecoturismo que existem e que quando eu saí do Brasil nem existiam, mas de repente, um turismo que leve as pessoas para esse tipo de lugar, como no filme, é demais.

  
  

Publicado por em

NUBIA

NUBIA

26/4/2009 22:34:27
.........ufaaaaaaa, perdi o folego. Gostaria de comentar o seguinte, hoje com 45 anos...PQ PERDI....NÃO FUI A NEPAL NAQUELA ÉPOCA QUE ESTAVA COMEÇANDO MINHA CARREIRA DE MÉDICA!!!! Tive a satisfação de conhecer o Manoel, em 1988, fomos amigos de hospital e me encantei com a coragem sabedoria daquele cara, um cara que não tinha medo de se entregar a vida, vivia todos os dias com o seguinte propósito....um dia aquilo tudo seria passado, o projeto era viver, viajar....que coisa ..estou feliz por saber que esse homem buscou intensamente por algo que estava dentro dele, a sabedoria de estar vivo. A plenitude .....perdi a carona...