Manoel Morgado - Parte 2

O EcoViagem conversa com Manoel Morgado, guia de viagens na Ásia.

  
  

O EcoViagem conversa com Manoel Morgado, guia de viagens na Ásia.

A INCOMPARÁVEL EXPERIÊNCIA DE VIAJAR

EcoViagem: Muita gente sonha em largar tudo e viajar e não vai por causa do dinheiro.
M. Morgado: Primeiro, acho importante colocar que o brasileiro se comporta de uma maneira muito diferente do europeu e do australiano em relação a viajar. Na Austrália, é quase que uma rotina: você acaba o colegial, trabalha 1 ano e vai viajar. Isso porque eles têm uma estabilidade econômica e uma facilidade de trabalho; qualquer trabalho que você faça, consegue viver. Então, as pessoas arriscam muito mais do que a gente. Aqui, você acaba o colegial e tem que fazer vestibular, começar a trabalhar, você casa, tem filho e acabou! As pessoas ficam com muito medo de parar um tempo. Eu parei 2 anos, voltei e 1 ano depois, eu estava exatamente na mesma situação que meus amigos médicos. Nada tinha acontecido de prejudicial na minha vida profissional. O que precisa é a coragem inicial e a motivação de dizer “eu vou parar”. A vida continua e você volta infinitamente mais rico em termos de experiência. Em termos de grana, viajar como mochileiro na Ásia é muito barato. Hoje em dia, o orçamento de quem está viajando por um longo tempo, deve ser ao redor de 15 dólares por dia, com transporte, hotel e comida, tudo super simples. Se você pensar em 1 ano, com parte aérea, sai uns 7 mil dólares, que é o preço de um carro. Se a pessoa se dispõe a vender o seu carro para viver a experiência de viajar... acho que tem muito mais gente em condições de fazer isso.

EcoViagem: Uma mulher pode ser mochileira na Ásia?
M. Morgado: É um pouquinho mais difícil, mas não há impedimento. Primeiro porque você não vai viajar sozinha. Só viaja sozinho quem quer; tem muita gente fazendo a mesma coisa e as pessoas acabam se juntando naturalmente. Você vai fazer amigos em cada lugar a que for, no trem, no ônibus... Uma das coisas que ajuda para a mulher é se vestir de acordo com a cultura local. Eles consideram uma super agressão estar vestida como as mulheres se vestem aqui: blusa justa, ombros de fora, short. Isso não faz parte da cultura deles. Isso é agressivo para eles e eles reagem com agressão também. Se você usar, por exemplo, uma das roupas tradicionais da Índia, o Punjab suit, que é uma túnica de mangas compridas com uma calça bem solta, extremamente confortável, feita de um algodão bem fininho, leve, não é quente e é bonita, você estará vestida da mesma maneira que as mulheres indianas e eles irão te respeitar mais. Em um país muçulmano, é um pouco mais difícil, sendo melhor viajar com um homem. Depois, tem uns truquezinhos: você nunca fala que é solteira; fala que é casada e teu marido está te esperando na estação de trem, que você tem 2 filhos, mesmo porque eles não entendem alguém de mais de 26, 28 anos, solteiro. Para eles é muito esquisito. Se eu falo que tenho 44, sou solteiro e não tenho filhos, eles vão chorar de pena de mim, achando que eu devo ser a pessoa mais infeliz desse planeta.

EcoViagem: Você trabalha como guia. Há outro meio de sustentação para estrangeiros?
M. Morgado: Não. Você pode arranjar, no Nepal, emprego de guia de trekking, mas é difícil. Se você for um excelente kayaker, pode ser guia de rio, river guide para rafting ou kayaking. Fora isso, é a mesma situação de, alguém que não tem uma profissão, trabalhar aqui no Brasil, de garçom, por exemplo; não vai ganhar nada.O que as pessoas fazem é viajar para a Ásia e, a hora em que acaba a grana, vão reabastecer em algum lugar: na Austrália; em pesqueiros no Alaska; vão plantar árvore no norte do Canadá, enfim, são lugares que o pessoal que está viajando usa para ganhar uma grana e poder voltar a viajar.

EcoViagem: No começo você ficou somente na Ásia e agora você divide um pouco seu tempo?
M. Morgado: Na realidade, o que aconteceu foi que eu conheci uma australiana, em Sumatra, na Indonésia e acabei indo com ela para Austrália. De lá, a gente fez uma viagem de 8.500km de bicicleta pela Nova Zelândia, Tahiti, Ilha de Páscoa, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil. A gente veio pedalando até São Paulo e depois, morou um pouquinho em Cabo Frio; fez mais 6 meses de América do Sul e daí voltou para a Ásia. De 91 até agora, eu tenho passado em torno de 10 meses por ano entre Índia e Nepal. Eu vou também para Tibet, Vietnã, Tailândia e Indonésia. Mas, a partir do ano que vem, estou com vontade de ficar um pouco mais de tempo aqui.

EcoViagem: A Ásia tem grande potencial para a prática de esportes de aventura. Como foi sua experiência nesse sentido?
M. Morgado: Eu gostava muito de trekking. Não escalava, mas tinha a maior vontade de aprender. Eu fazia bastante trekking na América do Sul, então foi a primeira coisa que fui fazer no Nepal. No dia em que cheguei, saí para um trekking de 40 dias e depois fui para o norte da Índia. Daí apareceu a bicicleta, a minha segunda grande paixão. Eu fiz algumas viagens de bicicleta pelo Himalaia: 3 viagens de 3.000km cada uma pelas montanhas e isso foi bárbaro. Acabei fazendo a viagem grande pela América do Sul. Depois, eu fiz um curso de escalada, de guia de montanha, para nepaleses, sherpas. Eram 30 sherpas e eu, o único estrangeiro. Foram 40 dias de curso nas montanhas, na região dos anapurnas e foi outra descoberta: comecei a escalar um pouquinho e me apaixonei também. Outro esporte que é fantástico no Nepal é o rafting. Comecei com rafting e “caí” logo para caiaque, que é demais, uma das coisas de mais adrenalina que existe nesse planeta! E no Nepal, com rios de enorme volume de água, é mais legal ainda, quando você tem rios pós monções, pós período de chuva, como o Sun Kosi, que é um rio de 9 dias de descida com ondas de 2 a 3 metros de altura, no final de setembro. Isso, dentro de um caiaquezinho, é muito legal. Tem um rio a 2 horas de Kathmandu, o Bhoti Kosi; sempre que eu tenho um tempo livre, alugo uma moto, vou para lá com um de meus amigos e fico 2 dias fazendo kayaking.

EcoViagem: Muitas pessoas vão para lá praticar esportes radicais. Como é que os asiáticos encaram isso?
M. Morgado: Para eles é muito esquisito, porque trekking para eles não é trekking. Eles têm que caminhar, é o único jeito na montanha de irem de um lugar para outro. Escalada, com certeza, poucos sherpas gostam. A maior parte faz por profissão, pois dá grana se comparada ao trekking. Se você é guia de trekking, ganha 10 dólares por dia. Se você faz uma expedição ao Everest, você ganha 2 mil dólares em 2 meses e meio, que é muita grana no Nepal. É uma chance de ganhar uma grana boa, que irá possibilitar que a pessoa abra uma pousada ou uma loja de equipamento de camping em Kathmandu, enfim, é um meio para conseguir uma grana para fazer alguma outra coisa. Só alguns sherpas gostam de escalar, mas a grande parte, não. Até porque as montanhas são lugares sagradas, onde eles têm que pedir permissão aos deuses para subir, invadindo um espaço que não foi feito para isso.

EcoViagem: Como foi o projeto “Desafio de Atitude”, em que você e outros guias levaram portadores de deficiência física para o Nepal?
M. Morgado: Foi demais, a experiência profissional mais legal que eu já tive. A história pintou assim: eu estava em Kathmandu, em um hotel onde entrou um grupo de portadores de deficiência física, da Inglaterra. Fiquei curioso e fui conversar com eles e eles me contaram que tinham feito um rafting. Eu achei a idéia bárbara e resolvi trazer para o Brasil. Demorou uns 2 anos para sair por causa de patrocínio. (A Doritos foi a principal patrocinadora.) A gente levou 9 portadores de deficiência física, 7 amputados de perna e 2 paraplégicos, alguns esportistas, outros não. Tinha um médico de 45 anos que não sabia nem nadar. A gente foi fazer um monte de coisas legais: passeou pelo Vale de Kathmandu e pelas cidades, e só isso já foi uma grande aventura, porque se aqui não tem infra-estrutura nenhuma para eles, lá tem zero. Não existe calçamento, não existe calçada, é tudo com escada; a gente tinha que levar os 2 paraplégicos nas costas para ir a um restaurante. Mas eles sempre estavam com uma atitude muito positiva em relação a vencer um desafio. Depois fomos para o Chitwan National Park, onde fizemos safári de elefante. A atividade principal da viagem foi um rafting de 6 dias e classe IV, onde basicamente, todo mundo fez tudo: todo mundo remou, mesmo os paraplégicos, com apoio lateral; tomo mundo ajudou a montar e desmontar o acampamento, a carregar os barcos, a cozinhar e todo mundo aprendeu a andar de caiaque, que é uma coisa que a gente sempre faz nas viagens de rafting. O mais legal da história foi a atitude deles mesmos. Um dos meninos, de 18 anos, tinha perdido a perna 2 meses antes, não estava nem com prótese e para ele essa viagem foi deslumbrante, porque ele viu que a vida não acabava, que ainda dá para fazer um monte de coisas. Participar disso foi muito legal. A idéia do projeto é mostrar que o portador de deficiência física, com apoio, pode fazer muita coisa, porque aqui ele não consegue nem trabalhar. Esse era o choque: pegar o cara que está sentado na frente da televisão vendo um cara paraplégico fazer coisas que ele jamais achou que tivesse coragem de fazer. A proposta é continuar. Estamos atrás de patrocínio para fazer a travessia do Himalaia indiano de bicicleta, pela estrada mais alta do mundo (5.600m), com amputados de perna. Na viagem anterior, alguns deles fizeram 150km de bicicleta, um deles voou de parapente e outros, de balão.

  
  

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