Mario Mantovani

O EcoViagem conversa com Mario Mantovani, Diretor de Relações Institucionais da Fundação SOS Mata Atlântica.

  
  

O EcoViagem conversa com Mario Mantovani, Diretor de Relações Institucionais da Fundação SOS Mata Atlântica.

BRASIL, O PAÍS QUE AINDA NÃO ACORDOU.

EcoViagem: Qual é a principal ameaça à Mata Atlântica hoje?
M. Mantovani: A Mata Atlântica sofre muitos tipos de ameaça. Existem características diferentes, por ter pouquíssima Mata Atlântica. Da mancha original de 1500, que cobria 15% de todo o território brasileiro (1,5 milhão de quilômetros quadrados), restam apenas 7%. A ameaça é muito relativizada pela forma como ela acontece. Por exemplo, na Serra do Mar, pelo difícil acesso, ainda há maior concentração de Mata. Um desmatamento nessa área, devido à especulação imobiliária, tem um impacto razoável. Mas se pegarmos uma mancha isolada, na divisa com o Mato Grosso, no interior do Paraná ou no interior de Santa Catarina, como o único remanescente florestal que já sofre todo tipo de agressão, o impacto passa a ser muito maior. A distribuição de Mata Atlântica é muito desigual, estando concentrada no Rio, no sul da Bahia, em Santa Catarina, no Vale do Ribeira aqui em São Paulo e na divisa com o leste do Paraná.
Hoje a pressão maior ainda é a expansão da agropecuária. Existe um dado interessante que é a volta do crescimento do café, que está sendo plantado onde estava havendo a regeneração natural da floresta e, o que é pior, financiado pelos bancos, que deveriam estar controlando. Isso é muito sério.
Tem uma agressão, que é uma agressão ao país e não só à Mata Atlântica, que é a abertura da Estrada do Colono, no Parque Nacional do Iguaçu (PR). É um tipo de agressão que se faz com o próprio poder público imobilizado. Outros problemas são planos de manejo de floresta na Mata Atlântica, onde não são possíveis os cortes autorizados. Como exemplo, temos o Sul da Bahia.
O que mais nos preocupa é que ainda existem alguns deputados dizendo que queremos imobilizar o país com essa idéia de proteger a Mata Atlântica. Os 7% de Mata Atlântica estão abaixo do previsto no Código Florestal. Quando ele foi feito, em 64, não havia ambientalistas. Se houvesse, talvez o código fosse cumprido e ele prevê 20% de toda propriedade com proteção. Estaríamos hoje, com 20% de Mata Atlântica. Se fossem protegidas as áreas de preservação permanente, como topo de morro, beira de rio, áreas com muita inclinação, teríamos hoje mais 17%. E, no entanto estamos falando de 7%, sendo que, pela lei de 64, deveriam ser 30% a 40% do território. E o pior: essas áreas que estão sendo abertas para a agricultura e pecuária não acrescentam nada do ponto de vista econômico, porque já temos 93% de área devastada, dos quais só 40% são ocupados pela agricultura. Os outros 50% estão se deteriorando, se erodindo, perdendo a fertilidade do solo e não produzem nem floresta.
É um conjunto de situações que faz a Mata Atlântica continuar sendo degradada, inclusive pela questão cultural de ver a floresta como um desafio, um lugar a ser conquistado .

EcoViagem: Como você avalia a atuação da Fundação SOS Mata Atlântica nesses 14 anos de existência?
M. Mantovani: Quando não se falava da Mata Atlântica, nem o poder público sabia direito o que era, o fato da SOS ter conseguido fazer o científico e a mobilização da sociedade andarem juntos foi um grande sucesso. Primeiro porque se juntou os maiores cientistas do Brasil para definir o domínio, a área e conseguir fazer um monitoramento com o que há de mais moderno e técnico, como o uso de satélites. Segundo, porque apresentou para a sociedade a Mata Atlântica, já que 70% da população brasileira moram onde foi a mata, bebem água da Mata Atlântica e isso foi um grande desafio. A mensagem da bandeira, dizendo "Estão tirando o verde da nossa terra", sintetiza muito e foi forte. Ninguém protege o que não conhece. Nesses 14 anos, tivemos que mostrar o que era, fazer com que as pessoas conhecessem, além de todo o processo de demanda ambiental: querer saber de educação ambiental, colocar a legislação no país, fazer com que tivéssemos regras de convivência compatíveis com o século 21 e não regras iguais as de hoje, como esgoto a céu aberto, como na Era Medieval. Era um desafio muito grande, já que muitos falavam "esgoto é mais importante, moradia, transporte...". Não, as duas coisas são importantes.
Nó começamos com o financiamento de entidades que acreditaram no país e hoje vivemos só de sócios. Isso mostra que é possível fazer um trabalho sério em um país como o Brasil, onde não é comum as pessoas se associarem a uma causa.

EcoViagem: Há algum projeto ambiental para o qual você tire o chapéu?
M. Mantovani: Tem muitos. Um deles é o da Fundação Vitória Amazônica, que eu acho o máximo. Você tem projetos com muita grana, de uma Petrobras, por exemplo, que não dá para tirar o chapéu, pois eu não sei até onde vai o projeto e o interesse da empresa de fazer média com seu nome. Eu valorizo muito aqueles projetos de organizações que têm muito da vida de um sujeito ali: enfrenta resistências, valoriza as comunidades; onde os caras estão ameaçados de morte. Ainda se ameaça de morte; tivemos mortes de amigos nossos no Rio de Janeiro, o Álvaro, que foi proteger uma área de mangue na região de Angra e foi assassinado na porta do fórum, há dois anos; outro amigo foi morto, no Espírito Santo, porque foi proteger uma área, que recebeu o nome dele em homenagem, mas continuam sendo devastada.
No caso da Mata Atlântica, hoje temos mais de 170 organizações, cada uma com um trabalho. Todas devem ser valorizadas; eu não gostaria de citar um caso. Falei da Amazônia, porque é fora da Mata Atlântica, é o caso muito específico de uma entidade que cuida do Parque Nacional do Jaú .

EcoViagem: Como você vê a atuação do terceiro setor no Brasil, na área ambiental?
M. Mantovani: O terceiro setor vem se destacando até por uma necessidade muito grande. Não existe política pública no país para a área ambiental. As coisas no Brasil andam de desastre em desastre, de intervenção em intervenção. Essa área é uma reação da sociedade à falta de responsabilidade dos nossos governantes e das empresas. O terceiro setor veio como uma opção a isso e precisa ser valorizado. O fato da SOS viver dos sócios precisava ser escancarado, porque não é uma realidade. A realidade do terceiro setor ainda é o cara pondo dinheiro do próprio bolso e a ação voluntária.
Precisamos organizar melhor nossa ação, para que ela seja mais efetiva. O terceiro setor tem a capacidade de agregar pessoas e causas comuns, além de ser um catalizador de questões sociais e da questão ambiental .

EcoViagem: O ecoturismo, como se apresenta hoje, é uma ameaça à preservação ambiental, quando praticado em áreas com ecossistemas muito delicados?
M. Mantovani: Eu gosto de relativizar um pouco essa questão. Acho que o maior problema do ecoturismo não é estar indo para essas áreas, e sim a banalização do termo. Há atividades que não estão nessas áreas sensíveis e que são excurssões de baixo nível, onde não há nenhuma integração com a questão ambiental e natural. É uma excursão de fafora mesmo, no melhor estilo, que chamam de ecoturismo. Agora tudo é ecoturismo.
O que temos de impacto no ecossistema ainda é muito pouco. O país não tem uma tradição de as pessoas irem para as áreas de preservação ambiental. A agressão de fora, de grandes projetos, como por exemplo no caso do sul da Bahia, foi muito mais séria e que hoje está se tentando corrigir. Foi muito grave e foi feito com o dinheiro de Banco Interamericano, banco do governo...
Se o ecoturismo existir como manda o termo, dentro de seus princípios, não haverá impacto, por ser uma atividade responsável, que respeita a comunidade tradicional, que deixa boas coisas na região, valoriza a questão cultural e segue as condutas ambientais. Temos é que separar o que dizem ser ecoturismo e não é e o que realmente é. Por conta disso, estamos tentando hoje estabelecer os princípios, regulamentar isso no CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e disciplinar essa atividade, para evitar que vire moda e depois passe, deixando desastres e impactos irreversíveis .

EcoViagem: Um bom exemplo de ecoturismo seria o Pólo Ecoturístico Lagamar?
M. Mantovani: O Lagamar tentou ser um bom projeto. Apesar de termos ganho o prêmio de melhor projeto do mundo pela revista Condé Nats Traveler, usamos uma metodologia clássica, tradicional. O que ele inovou foi a busca da organização do emissivo e do receptivo, fazendo muita capacitação em uma área que não tem uma demanda de turismo. Começamos a organizar para que houvesse capacidade de atuação no Lagamar. E o mais importante do projeto é que ele fosse visto como um instrumento de proteção dessa região, não só para dar resposta à questão da pobreza na região que é muito séria e à geração de emprego e renda, mas para a conservação. O projeto teve esse mérito e por isso foi reconhecido, mas a metodologia pode ser usada em qualquer lugar do país. Não foi desenvolvida para o Lagamar, com a cara do lugar, teve a cara do país, para qualquer lugar onde haja natureza.
Vemos a possibilidade de estar levando escolas, resgatando um destino onde as escolas deixaram de ir por preferir Barra Bonita, que era mais fácil, ou para Parati, que é mais barato. O que ficamos imaginando é como é irresponsável a destruição da Mata Atlântica no Brasil. O Rio de Janeiro é o Estado que mais destruiu entre 90 e 95 e o que ele oferece? A capacidade de turismo, uma garnde indústria reconhecida mundialmente. E nós estamos matando a galinha dos ovos de ouro, que é a moldura da atividade do turismo. Estamos comprometendo de forma irreversível. Por isso, a SOS está se empenhando muito em discutior essa questão de turismo, trazendo novas organizações para isso, capacitando as nossas organizações da Mata Atlântica e com isso tentando reverter a destruição que temos visto .

EcoViagem: E o que você pensa sobre a atuação da imprensa nessa área?
M. Mantovani: Vem evoluindo muito. A imprensa, no começo, via a questão ambiental como pura frescura de alguns grupos, até com um certo ceticismo. Ou então só procurava os grandes acidentes. Hoje está levando mais a sério. Existem bons veículos, bons jornais capacitando suas editorias. Um exemplo atual é a cobertura da Conferência de Haia, em torno da questão climática, que está um show na Folha, na Rádio Eldorado e em outros lugares. O Brasil está interferindo nessa área com qualidade. Se pegarmos um texto brasileiro na Internet e um feito por uma revista internacional, o nível está parecido. Mas isso é só uma parte, não reflete a questão do jornalismo. Ás vezes, ainda vemos coisas do tipo não sair uma notícia sobre o Antônio Ermírio querendo fazer uma hidrelétrica no Vale do Ribeira. A imprensa tem aquelas coisas "não, mas é o Antônio Ermírio". .

EcoViagem: Você esteve, há poucos dias, em Nova York, na Conferência Mundial sobre Ecoturismo. O que você viu e o que foi discutido que pode ser trazido para o Brasil?
M. Mantovani: Havia mais de 40 países com suas experiências sobre ecoturismo e de turismo sustentável (um pouquinho mais amplo). O que vimos foram os selos que garantem a atividade de ecoturismo, dados por ONGs ou pelo próprio segmento do turismo que quer se proteger daqueles que não tem compromisso. O que podemos perceber é que o ecorturismo é uma tendência mundial. Duas coisas me chamaram a atenção. Uma é como o Brasil ainda não entendeu isso. Com tanta riqueza, com tanta biodiversidade, a irresponsabilidade do nosso governo chega a ser caso de "mandar prender". O Brasil não vai oferecer Cancuns, Disneys ou Paraguais. O Brasil é o que é: muita natureza, em forma exuberante, e continuamos nos achando pequenos. O mundo não tem os atrativos que o Brasil tem e, no entanto, há mais gente visitando a Costa Rica. Na Costa Rica 35% do país está em áreas de proteção. Nós temos 1% e somos muito maiores. O turismo é a maior indústria do mundo. Eu via algumas experiências e pensava "Meu Deus! Isso eu tenho dentro de São Paulo, no Vale do Ribeira. Como somos absurdamente irresponsáveis com relação à natureza e aos povos do planeta."
Vi coisas muito interessantes no ecoturismo como até, num delírio, pessoas usando-o como uma forma poderosa de se constituir a paz no mundo. Há muita gente viajando com o tema Paz. Isso me impressionou, já que não é aquilo que eu vejo todo dia, o turismo de observação da natureza, de pássaros, de baleias. Esse é o clássico. Mas essa bandeira da paz é inédita e há muita gente fazendo.
Vimos muitos selos, alguns de grande qualidade, outros mais complicados. Aqui no Brasil estão começando a associar a operação do turismo com o ISO 14000, mas lá não houve nenhuma repercussão, mesmo o pessoal da ISO estando presente. Também estava presente a WTO, uma organização mundial que cuida do turismo, fazendo uma proposta para ecoturismo e que não foi aprovada, por se confundir muito com o turismo tradicional. O que há é um cenário efervescente e o pouco que há no Brasil pode ter condições de competir com o que há de melhor lá fora, na Austrália, Costa Rica, África e Leste Europeu, onde vimos coisas interessantíssimas com os selos de qualidade. Se o Brasil não acordar, isso não vai servir para conservação, nem para a economia e a gente vai perder essa grande capacidade para lugares que chegam a ser artificiais.
Estaremos relatando tudo para Embratur, que não tem uma pessoa responsável pelo ecoturismo. No Ministério também não tem ninguém. Há um programa chamado Proecotur, que foi uma exigência da sociedade para o PPG7, que é o Programa Piloto para Proteção de Florestas tropicais, porque o governo não tinha a capacidade de ver a Amazônia como possibilidade de ecoturismo. A SOS está tentando antecipar os tempos, para termos, na questão do ecoturismo, uma forma de intervenção, de proteção e conservação da Mata Atlântica. E mais do que isso, teremos o Ano Internacional do Ecoturismo, em 2002. Precisamos nos preparar para evitar aqueles oportunismos de sempre. Nós, como sociedade, vamos tentar fazer nossa parte .

EcoViagem: Os selos verdes seriam uma forma de regulamentar a atividade?
M. Mantovani: Eu acho que sim e de uma forma independente. Não por leis, decretos e coisas do tipo. Nós temos a experiência do FSC, que é o Conselho de Manejo Florestal, que vale para toda a indústria no mundo. O próprio ISO consegue, dentro das indústrias, ser um selo que garante qualidade, apesar de no Brasil ter dado vexame, tendo dado certificação para Petrobras, COSIPA... Isso está até comprometendo esse selo. Mas percebe-se que há uma estandarização nacional. Quem tem ISO, no mínimo está igual a quem está na América, na Ásia ou na Europa.
Na questão do selo de ecoturismo, percebemos que é uma forma da sociedade estar buscando fazer essa auto-regulamentação. O selo tem uma característica muito mais interessante, pela questão cultural, de desenvolvimento. E é garantido por quem já atua no segmento. Os pequenos selinhos que estão funcionando, como o da Europa 19, garantem uma qualidade entre eles. Há um reconhecimento muito grande por parte daqueles que usam esse tipo de serviço .

EcoViagem: Ainda falta iniciativa?
M. Mantovani: Há muitas iniciativas, mas que precisariam ser valorizadas. Quando vemos o tamanho de um Proecotur, de um Prodetur e vemos que o cara que faz um trabalho bem feito lá em Itacaré ou no Norte do Amazonas não recebe esse benefício, está errado. Quando esse dinheiro está indo para empreiteira e não para a sociedede, está errado. Deve haver um reconhecimento primeiro por parte da sociedade. Não basta criar o selo. Precisamos criá-lo e agragar valor, mostrando para a sociedade que é interessante. Um exemplo é um ecolodge na Costa Rica, que usa o selo da revista Condé Nats Traveler e há milhões de pessoas que escolhem seu destino a partir desse selo, que a SOS ganhou para o Vale do Ribeira. O poder público também tem que ter responsabilidade. Não digo dando recursos, mas não deixando degradar. Ele deveria ser responsável por cuidar da base do turismo, que é a natureza. Não deveria permitir que houvesse uma serraria no sul da Bahia, cortando Mata Atlântica, que houvesse no Pantanal a irresponsabilidade em relação à Serra da Bodoquena, onde continuam desmatando uma área que garante a água de Bonito; deveria ter uma responsabilidade de tirar as invasões de dentro dos parques, regulamentá-los; ou que não houvesse casos como o da Estrada do Colono, no segundo maior destino turístico brasileiro.

  
  

Publicado por em

Jp

Jp

2/5/2009 21:52:55
É de pessoas como Mario Mantovani que o nosso Brasil precisa.