Paul Dale

O EcoViagem conversa com Paul Dale, coordenador do Programa de Ecoturismo da Fundação Florestal do Estado de São Paulo.

  
  

O EcoViagem conversa com Paul Dale, coordenador do Programa de Ecoturismo da Fundação Florestal do Estado de São Paulo.

ECOTURISMO EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO.

EcoViagem: Como você avalia o ecoturismo no Estado de São Paulo?
P. Dale: Temos uma confusão de ecoturismo bastante grande, de alguns pacotes que incorporam a visita à uma trilha, a uma cachoeira. Em Joanópolis há um exemplo clássico da cachoeira deles; visitá-la não pode ser chamado de ecoturismo. Existem exemplos intermediários bastante confusos, do que seria ecoturismo ou não.O ecoturismo mesmo em São Paulo ainda é uma atividade pequena, mas que está crescendo bastante. Mesmo assim, as outras atividades que fazem uso de um atrativo natural e que não são ecoturismo, têm seu mérito, por fazer as pessoas que não são ecoturistas terem um primeiro contato com a natureza. É um aprendizado bastante bom. Resta que as pessoas que recebem e que levam esses turistas tenham seriedade. Temos caminhado para isso, junto com as prefeituras, as Unidades de Conservação, os guias, as agências e operadoras, que têm se tornado cada vez mais exigentes em relação à prática ambiental, muito em função da demanda dos próprios turistas, porque eles querem algo que seja sustentável; não querem estar participando de uma atividade destruidora. É óbvio que sempre há exceções a essa regra. Dentro do Estado de São Paulo, temos mais ou menos 90 Unidades de Conservação e de Produção, e recebemos por ano cerca de 2 milhões de visitantes. Uma parte para fazer lazer em área natural, uma parte para fazer ecoturismo, uma para fazer educação ambiental, mas todos têm um vínculo uma atividade natural.

EcoViagem: Segundo o Secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Ricardo Tripoli, uma das principais preocupações da Secretaria é com os Parques Estaduais, tão pouco conhecidos pelas pessoas. Qual seria a melhor maneira de estar divulgando esses parques, sem prejudicar as próprias áreas de conservação?
P. Dale: Só para explicar: existem as Unidades de Conservação, que são termos genéricos. O tipo de Unidade de Conservação, que chamamos de categoria de manejo, mais favorável para o ecoturismo, para visitação são os parques. No caso, como são administrados pelo Estado são Parques Estaduais.
Para aumentar a divulgação dos parques, criamos um boletim eletrônico semanal, chamado Dicas de Ecoturismo, criado pelo Programa de Ecoturismo da Fundação Florestal, junto com o Instituto Florestal, em nome da Secretaria. Depois que ele é lançado, fica por um tempo no site oficial da Secretaria do Meio Ambiente, em geral por um mês. Esse boletim passa informações técnicas, de conteúdo sobre ecoturismo, como cursos, normas, eventos e também informações sobre roteiros do Estado de São Paulo. Sempre sai um parque e alguma outra atividade dentro do Estado, como em Brotas, Socorro, Gomeral, em Guaratinguetá, que é um destino que estamos ajudando a criar e lançar junto com os monitores locais. Tem uma parte que chamamos de curtas de mercado, onde ajudamos o mercado a se divulgar e não cobramos nada por isso. Essa foi a primeira maneira de estarmos nos aproximando para divulgar.
Agora estamos começando a fazer parcerias com sites voltados ao assunto, como o EcoViagem, para distribuir essas informações. Isso nos sai barato, pela facilidade da Internet. Temos tentado participar de eventos como esse, a Adventure Sports Fair, onde estamos divulgando as Unidades de Conservação de um modo mais sustentável. E temos nos aproximado bastante do mercado, estando em contato com instituições que apresentam os mercados de ecoturismo, turismo sustentável, turismo de aventura e até turismo rural. Também temos nos aproximado de mídias e das agências, para quem mandados os boletins, através dos cadastros da Secretaria do Esporte e Turismo e da EMBRATUR.
Como somos nós que organizamos esse boletim, o próprio parque decide o que será divulgado ou não. Então ele divulga aquilo para o que está preparado e se por um acaso ele soltou, a dez números atrás, uma informação de dez trilhas,e por conta das chuvas, cinco trilhas tiveram que ser fechadas, ele pode repassar a informação. Estamos tendo um retorno bastante bom das pessoas que têm recebido o Dicas.

EcoViagem: O ecoturismo tem crescido rapidamente no Brasil. Como resolver a polêmica questão que confronta divulgação/visitação e degradação dos delicados ecossistemas das Unidades de Conservação, já que é difícil barrar ou controlar o crescimento desse mercado?
P. Dale: Alguns parques estão bem preparados, outros não e outros estão se preparando. As linhas de atuação que trabalhamos no Programa de Ecoturismo, que na verdade é um reforço a esses parques e aos municípios, são de apoio ao planejamento, usando alguns instrumentos de planejamento sustentável ou participativo, instrumentos de capacitação para formar monitores locais e agentes de planejamento. Estamos nos preparando para formar uma carteira de cursos com formações bem específicas, como fotografia da natureza, tanto para quem busca a viagem como para quem a oferece. O esforço é nesse sentido, principalmente nas áreas que têm uma visitação mais intensa. Nesse evento, a Secretaria está lançando apenas uma parte de seus parques, que na teoria e na prática estão mais preparados para visitação.

EcoViagem: Quais seriam esses parques?
P. Dale: Parque Estadual Intervales, alguns núcleos do Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleo Santa Virgínea, famoso pelo rafting, e Núcleo Picingüaba), PETAR - Parque Estadual Turístico do Alto Ribeiro, Parque Estadual Furnas Bom Jesus, que ainda está em preparação, Parque Estadual Ilha do Cardoso, que já tem uma atividade bastante grande.
Outros parques que não foram trazidos para a Adventure, serão lançando depois, pois já estão bem avançados, como o Parque Estadual Morro do Diabo, no Pontal do Paranapanema. Se identificamos que há uma demanda que não está bem preparada, tentamos melhorá-la. Agora, a principal questão, considerando que nossas pernas são curtas, é trabalhar com parcerias. Parceria na divulgação, passando informações para os veículos; parceria no planejamento, chamando as agências, os guias para participar e parceria em investimentos.
Como exemplo, quinta e sexta-feira próximas, 16 e 17 de novembro, faremos um workshop com recursos da Fapesp, da GV (Fundação Getúlio Vargas) e da Fundação Florestal, promovido pelo Instituto Florestal, para tentar descobrir qual o melhor método de controle do impacto de visitação para o Estado de São Paulo. Estamos chamando pesquisadores, guias, diretores de Unidades de Conservação, donos de agências emissivas e receptivas, entre outros para uma reunião fechada. Na sexta à tarde, pretendemos abrir a discussão para o público.

EcoViagem: Você acha que os Sistemas de Gestão Ambiental, ISO 14.000, podem ser uma solução para as Unidades de Conservação?
P. Dale: Uma proposta que ainda é técnica, não é oficial da Secretaria, é o sistema de credenciamento de equipamentos e serviços turísticos ou de apoio à visitação junto às Unidades de Conservação, junto à Secretaria. Estamos com uma região piloto no Estado, mas ainda não há nada oficializado.
A certificação por ISO 14.000 não nos compete. Nós mais acompanhamos e torcemos para que se estenda, baseado na experiência da Mata Dentro, em Brotas. Existe um processo de certificação por ONGs, como SOS Mata Atlântica, CONAMA, discutido um pouco por nós, afinal boa parte das atividades ocorrem dentro de áreas administradas por nós, por isso devemos participar. O que podemos é estar vinculando um tratamento diferenciado, não no sentido de dar vantagens, mas de estar mostrando exemplos de qualidade ambiental, empresas que seguem padrões,etc. É um trabalho não no sentido de fiscalização, mais retroativo, e sim mais pró-ativo.

EcoViagem: Os esportes de aventura podem ser um instrumento ativo para a conservação e abertura das Unidades de Conservação?
P.Dale: Depende da forma como eles são realizados. O fato de estarmos aqui, com um investimento de esforço bastante grande das pessoas e em um espaço cedido pela organização, mostra que estamos interessados em nos aproximar dessas atividades. Temos áreas que são alvo para a prática desse tipo de atividade. Mas queremos agregar a isso, atividades de sensibilização ambiental, no mínimo. Em geral, as pessoas que praticam esportes de aventura já têm uma ligação mais forte com a natureza. Mas o mercado cresce muito; é só ver o resultado dessa feira em relação ao ano passado. Talvez nem todas as pessoas que estejam entrando possuam essa sensibilização. Um rapel em uma área protegida é diferente do em uma área que não é protegida. Na protegida, é possível captar algo mais.

EcoViagem: Na sua opinião, o que é mais urgente para os Parques Nacionais brasileiros?
P. Dale: Eu acho que o problema de todos os parques acaba sendo um pouco o mesmo, tanto dos nacionais quanto dos estaduais. A princípio, essas áreas são unidades de conservação, nunca poderemos esquecer esse princípio básico. Só que os parques foram criados também para a visitação, esse é um diferencial dessa categoria de manejo que chamamos de Parque. Então as pessoas têm que ter um preparo para receber essa visitação. Precisamos mesmo é de mais investimento. Temos visto a área pública ser reduzida em função da capacidade de investimento. Quando falo área pública, não é só governamental, e sim um sentido mais amplo. E aí valem as parcerias. Uma empresa pode estar ajudando, uma ONG pode estar ajudando. Precisamos unir esforços para suprir a falta de recursos do governo. Falta essa integração de maneira mais ampla, pois ela acontece isolada em alguns locais, como Lagamar (SP) e Serra dos Órgãos (RJ).

EcoViagem: Em que sentido a comissão internacional da qual você participa pode ajudar?
P. Dale: Essa é uma ONG internacional, uma das principais do mundo, a União Internacional da Conservação da Natureza. Ela é muito grande e na verdade eu não pertenço a ela. Por ser tão grande, ela criou algumas comissões que discutem ecossistemas, animais, enfim assuntos específicos. Uma das comissões é para estudar as áreas protegidas, um outro termo para Unidades de Conservação. É a Comissão Mundial de Áreas Protegidas. Como a atuação dela é global, dividiu o mundo em várias regiões e o Brasil, por ter essa estatura continental, é a única região que corresponde a um único país, a Comissão de Áreas Protegidas - Região Brasil. Eu sou membro dessa comissão, coordenando o grupo de ecoturismo.
Como podemos estar ajudando? Eu não sou membro da ONG, só da comissão. Esse é um status em que sou temporário, pois a comissão pode me tirar. Por isso tenho que estar trabalhando sério. Como é muito grande e não tem recursos, nossa principal função é estar articulando ações técnicas, políticas, no sentido mais nobre da palavra, para estimular e incentivar as áreas protegidas. Exemplificando, estaremos promovendo encontros, ações de divulgação responsável, avanços de discussões técnicas, etc. Estaremos firmando uma parceria com o EcoViagem, para criar um ponto de encontro, entre as pessoas ligadas a essa Comissão Mundial de Áreas Protegidas, no Brasil, e à temática de ecoturismo. É um público bastante grande. Teoricamente aí cabem todos os diretores de todas as Unidades de Conservação do Brasil inteiro, sejam municipais, estaduais ou federais. As pessoas estariam divulgando suas ações e usando um fórum para construção de textos, encontros para fazer algumas questões avançarem. Estamos ajudando a certificar as boas ações de mercado frente às áreas protegidas.

EcoViagem: É possível falar em modelo de Parque Nacional, baseado na experiência de outros países?
P. Dale: As pessoas sempre referenciam vários modelos, como os Parques Nacionais da Costa Rica, da Austrália, da Nova Zelândia, de alguns países europeus, mesmo norte-americanos, canadenses, chilenos... Por que eu estou colocando esses exemplos? Porque depende do referencial da pessoa que estiver avaliando. Se falarmos que o modelo de Parques Nacionais da Costa Rica valeria para o Brasil, teria que ser feito uma análise bastante apropriada, pois o público da Costa Rica é diferente. Não que só tenha isso lá, mas por exemplo, se em todas as cachoeiras que quiséssemos visitar, tivéssemos que fazer uma trilha cascalhada, provavelmente o brasileiro não iria gostar. E lá, existe essa condição em boa parte das trilhas.
Eu sou muito crítico para falar que algo é bom no sentido geral. Quando fazemos um inventário turístico, que é fazer o levantamento do que existe de turismo em uma área, você pontua isso. Eu não concordo com a pontuação geral, pois vale para todo o mercado. Um exemplo rápido: se você vai pontuar uma trilha para uma cachoeira, se você está tratando do mercado da terceira idade, ou melhor idade, é melhor que a trilha seja "pavimentada"; mas para o público rapeleiro ou de canyoning, quanto mais selvagem a trilha, melhor. Então você tem relações inversas de pontuação. Por isso, é muito complicado fazer uma análise global.

EcoViagem: No sentido de discussão e divulgação, a Internet tem sido um bom veículo?
P. Dale: Tem e acho que estamos aprendendo a não pecar pelo excesso. O mercado está crescendo para usuários de Internet. Temos que nos policiar na parte de boletins eletrônicos. Além de tudo, é algo muito menos poluente na geração cotidiana da informação e bem mais rápido.

  
  

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